Ensaios e Resenhas

janeiro 2020 / Ensaios e Resenhas / Mário e seu contraponto

Texto publicado na edição #237

Mário e seu contraponto

"Em busca da alma brasileira", de Jason Tércio, comete deslizes histórico-factuais ao mapear a trajetória de Mário de Andrade

> Por Maria Eugenia Boaventura

Jason Tércio, autor de Em busca da alma brasileira

Jason Tércio, autor de Em busca da alma brasileira

A nova biografia de Mário de Andrade, assinada por Jason Tércio, anuncia muitas novidades — algumas não tão novas assim, como a procura da alma brasileira, e vem acompanhada de orelha, quarta capa, mais um posfácio elogiosos.

Montada em nove capítulos e uma introdução, mistura a linguagem de ficcionista, historiador, biógrafo, folhetinista e de conversa informal, perpassando todas as fases da vida e obra do poeta em registro de exaltação. É um trabalho extenso num esforço de abrangência, a fim de retratar uma personalidade muito rica e comentar cada obra. Talvez um dos seus trunfos tenha sido a persistência em percorrer a fortuna crítica do biografado e condensá-la. Reconhece-se ao longo do texto a chamada literatura consagrada sobre o escritor.

Ao recuperar a história familiar, religiosa e escolar, desce a pormenores: procura esclarecer o nome da avó, a profissão do tio paterno e a do pai. Recupera as passagens pelo Ginásio Nossa Sra. do Carmo e pelo Conservatório de Música, onde Mário começou a estudar piano e terminou como professor; o engajamento nas atividades religiosas, sem deixar de registar o gosto pela vida mundana (concertos, bares, saraus, etc.). Reconstitui os ambientes da casa da Lopes Chaves, a participação na Semana de 1922, os projetos de pesquisa, a colaboração nos diferentes periódicos, a recepção crítica dos seus livros, a colaboração na Revolução de 1932, o Departamento de Cultura, a ida para o Rio de Janeiro, a volta para São Paulo, etc. Enfim, segue os passos de Mário ao longo da vida, utilizando-se de farta documentação ou ficcionalizando.

Chamo atenção para o cuidado em rastrear as doenças, as viagens pelo Brasil, a situação financeira, e traçar a rede de amigos, quer em São Paulo, quer no resto do país. Rede esta que, quase sempre, estava atrelada a um projeto intelectual e artístico. Destaco o período de “exílio” na então capital do país, quando se fica sabendo detalhes das reuniões com este pessoal, as bebedeiras do Mário, a mudança de casa, a inadaptação ao novo trabalho e à cidade, bem como a sua profunda melancolia.

Deslizes
Neste trabalho louvável de pesquisa, gostaria de comentar alguns pontos: a figura de H; o contraponto oswaldiano; as derrapadas histórico-factuais; a falta de evidência de certas suposições interpretativas; e a questão da alma brasileira.

Aquele personagem permaneceu misterioso, como o seu nome. Notícias suas aparecem pela primeira vez, ao mencionar o Clube XV, onde o escritor supostamente encontraria H, companheiro de congregação, na página 49 da biografia, e vão até o segundo capítulo, em pequenos parágrafos isolados (reprodução de trechos de cartas, cartões), quebrando o ritmo da narrativa, suspendendo o discurso, possivelmente para chamar atenção, despertar curiosidade. Todavia, o jornalista não estende o assunto, o que seria esperado numa biografia — o H desaparece sem explicações, e nem mesmo sua abreviatura consta do índice onomástico.

Em compensação, um outro personagem quase não sai de cena, funciona involuntariamente como contraponto, para o bem ou para o mal. Reina ora fantasmagoricamente, ora como espelho, fazendo com que o biógrafo abandone o seu tema central, interrompa a narrativa, como fez ao introduzir H — algumas vezes numa dicção propositadamente rebaixada (ver p. 71, 72, 158, 163-66, 184). Estamos falando de um outro companheiro, o de jornada intelectual, ao longo do processo de modernização estética: Oswald de Andrade.

Insiste em retrucar informações conhecidas a respeito dessa ligação. Gasta muito tempo para datar o primeiro encontro. Em 1917, como Oswald declarou nas suas memórias, teria sido o início desta conturbada amizade, ou antes? É muito possível que na provinciana São Paulo dos anos 10 do século 20, com tão poucos espaços socioculturais disponíveis, os dois tenham se cruzado, apesar do contrastante estilo de vida de cada um e o círculo de amizades também diferente. Mas isto não quer dizer que teria existido antes uma aproximação maior. Recorre à coluna Pirralho social, em 1914, com informações sobre uma festividade no Conservatório, como índice da presença ali do Oswald. Esquece que este ficou afastado desta revista de 1912 a 1915. Também não há nenhuma vinculação dele com a coluna Registro de Arte, do Correio Paulistano, sobre eventos similares.

Ao comentar a chegada do futurismo no Brasil, a preocupação é afastar a possibilidade de Oswald ter trazido um manifesto, na bagagem de volta da Europa, em 1912. Por outro lado, insinua que, sem qualquer comprovação, este teria trazido para José Veríssimo o livro I poeti futuristi, apenas porque o crítico era conhecido do tio Herculano. A respeito da colaboração na Papel e Tinta (1920), onde Mário “ingressou definitivamente na trilha de escritor jornalista”, esqueceu também de dizer que o convite para esta colaboração partiu de Oswald, diretor da revista junto com Menotti del Picchia.

Abandona a história da vida do Mário para comentar a leitura e a recepção do Manifesto da poesia do pau-brasil. Equivocadamente declara que a nova pintura de Tarsila não tinha nada a ver com as ideias da poética oswaldiana (p. 185), pois não considera que a pintora, antes de conhecer Oswald, até pelo menos 1923, era uma artista acadêmica, aluna de escolas convencionais na França. O mesmo tom peremptório e rasante foi usado para associar Miramar e o Pau-brasil à influência direta de Blaise Cendrars (p. 184 e 202). Esse poeta e o romancista Valery Larbaud apresentaram o casal Tarsiwald ao mundo cultural parisiense, portanto não se sustenta a afirmação de que Oswald buscava freneticamente, nos famosos cafés, autógrafos dos escritores, com o intuito de conseguir aproximação.

A conferência de Oswald na Sorbonne, em 1923, aconteceu em parceria com esta Universidade, a Academia Brasileira de Letras e com o suporte do embaixador Sousa Dantas, amigo do poeta, diferente do que informou o jornalista. A questão da Antropofagia, da mesma forma, é vista de modo superficial sem qualquer análise, apenas como cenário para mostrar a atuação “desastrosa” dos seus criadores: “A segunda dentição da Revista de Antropofagia foi a fase porra louca dos antropófagos […] em vez de propostas, ideias, e textos literários, o que os antropófagos mais criavam era difamação […]” (p. 303-04). Arrola versões conhecidas e inconsistentes sobre o surgimento do movimento (p. 279), mas sabe-se hoje que a ideia surgiu ao longo de 1927, através dos debates com Plínio Salgado (Carta antropófaga) e Oswald (Antologia), nas páginas do Correio Paulistano — para maiores esclarecimentos, conferir Feira das quintas: crítica e polêmica nas crônicas oswaldianas (2008), de Roberta Fabron Ramos.

Há alguns lapsos de pequena importância, como a informação do primeiro endereço da revista Klaxon, rua Uruguai, anunciado como sendo o escritório de Guilherme de Almeida (p. 152), mas na realidade foi a residência de Marinete Prado. Da mesma forma, na rua Direita n. 5, não funcionava o escritório de Guilherme de Almeida, e sim de Antônio Carlos Couto de Barros e Tácito de Almeida. Por falar neste periódico, não há comprovação de que Graça Aranha tenha pago o último número em sua homenagem, como afirma o biógrafo. Na realidade, toda a Klaxon foi financiada pelo grupo modernista (Graça Aranha incluído), por assinantes e pela venda nas livrarias. Por sinal, a realização deste número de celebração, teve defesa enfática do autor de Paulicéia desvairada na sua correspondência com Bandeira e nas Crônicas de Malazartes.

Por último, queria observar que o título do livro decorre da absoluta identificação do jornalista com o seu objeto de estudo, tomando como norte a epígrafe de autoria do poeta, retirada de uma carta de 1924 a Carlos Drummond de Andrade. Esta metáfora parece ter sido levada ao pé da letra, na vã esperança de, ao final do livro, conseguir determinar a alma brasileira.

Em busca da alma brasileira atende, com as ressalvas apontadas acima, aos leitores que desejam conhecer mais uma história de vida e de trabalho de uma figura icônica da cultura brasileira do século 20.

 

 

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Em busca da alma brasileira
Jason Tércio
Sextante
542 págs.

O AUTOR
Jason Tércio
Jornalista formado pela Universidade Gama Filho, trabalhou e colaborou em diferentes órgãos do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, além de ter uma experiência de quatro anos na BBC de Londres. É autor de Segredo de estado — O desaparecimento de Rubens Paiva (2011) e A pátria que o pariu (1994), entre outros.

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