Dom Casmurro

agosto 2020 / Dom Casmurro / Mariana Paiva

Texto publicado na edição #244

Mariana Paiva

Três poemas de Mariana Paiva

> Por Mariana Paiva

Menina

sonhava de pé descalço
os cardápios de minha terra
imensidão de mar acontecendo
areia amiga

saudade quando vem eu espanto
com aquela lembrança de sol
e água transparente:
tristeza é de não abraçar

minha vó, galho de planta na mão,
rezando baixinho e humilde:
o que for ruim
que leve a maré de vazante

Ô de casa

já tive o que chamam
olhar de versos.
sentia na boca
o gosto azul das balaustradas
o vento
sábados em plena segunda

sei que tive
porque guardo cá comigo
pequenos souvenirs:
uma palavra maybe meio bamba,
uma miniatura tão amarela que quase brilha

se o silêncio cresce,
bato na porta,
chamo alto, faço alarde.
lá no fundo a voz que quero responde:
já vai

2020

novos jeitos de estar perto
ainda são longe
e a pele?
o que é feito dela,
agora sem vez,
nesses tempos estranhos?

tantos anos e nenhum
ensinou a esquecer a pele,
esse oceano de matéria
que ainda espera um toque
não previsto no novo jeito
de estar perto
que ainda é longe

nesses tempos estranhos
o que é que consola a pele?

Print Friendly