Dom Casmurro

fevereiro 2012 / Dom Casmurro / Marcus Vinicius Quiroga

Texto publicado na edição #110

Marcus Vinicius Quiroga

Folhas amarelas contra o céu violeta o poeta dissolve os sóis nas folhas a palavra filtra o espectro recolhe todos […]

> Por MARCUS VINICIUS QUIROGA

Folhas amarelas contra o céu violeta

o poeta dissolve
os sóis
nas folhas

a palavra filtra o espectro
recolhe
todos os ruídos da rua

como se o mundo coubesse
na partitura
do texto

há coisas entreabertas
na memória
à espera
de que uma voz as resgate
todos os tipos de cinza
acumulados
o musgo
o mofo
dos fatos dobrados dentro de malas
para viagens que não houve

um rumor
pouco a pouco rasga o álbum
de fotografias:
lição do perecível

o tempo não cicatriza
apenas se cala

os homens carregam os dias
sem pânico

a qualquer hora
um acidente suspende
o curso
linear
ou algo que o equivalha

o sol arde
submerso
nas palavras

queima a expectativa
deflagra

a última pólvora
a vida

dispara

(e se perde)

>>>

Van Gogh está agora a olhar na direção oposta

Van Gogh agora
olha
para a direção oposta

o espiral
da flama
se espalha
o fogo passa de pincel
em pincel

que muitos são os aprendizes
os que traficam
clandestinos

os dias que nem supomos

nas oficinas
artesãos desfazem os matizes das sombras

desfiam as teias, as tramas
da matéria escuridão

o facho
escondido entre livros
se espalha em folhas que pensam

até que um leitor
olhe com outros olhos
o mundo
e arredores

nos dedos sujos
de tinta
vésperas de
alaridos alarmes

o amarelo
que ainda não existe
o limiar da cor com
a outra que não corresponde

no espelho usado
o rosto enruga páginas
e mais páginas
o tempo, a tinta escorre
borra
o assoalho

o rasto se entranha
na memória
da dor

Van Gogh agora olha
para a direção oposta

com que desespero
pinta
não naturezas-mortas
do esquecimento

mas a vertigem
dos dias em delírio

as mãos tremem a paisagem
para que ele melhor capte

o sopro do fogo

a agonia de Van Gogh
não se presta
a um quadro bíblico

antes requer o esgar
das feições
e o áspero dos olhos

a voz
quase não se mostra

há sementes de incêndio
sobre as quais não se faz comentário

como consegue guardar segredo
a despeito da violência
do amarelo?

o que seu traço
silencia
nas pistas
dispostas sem lógica
na superfície da tela?

Van Gogh olha
na direção oposta
do quarto

dirige-se a exposições, galerias
museus
como um visitante, um turista

a cabeça arde:
o mundo de antes
onde se escondeu?

o que move tem peso
mas como pôr
movimento e peso nas tintas?
: um feixe de trigo
é mais que um feixe
quando se torna desenho

quem sabe seja a forma
de dizer de si mesmo?

quem sabe do outro lado
da porta
haja um Van Gogh à espera
ou em fuga?

quem sabe Gauguin, uma faca,
uma rua
não sejam
a natureza-morta
que o artista intuía?

este duplo de Van Gogh vagueia
no escuro
ateando febre nos pincéis

até que o mundo desapareça
na garganta de girassóis

>>>

A cor púrpura

a púrpura tinge
o pano
a veste
a página

a palavra púrpura
é única no léxico
nenhuma outra
traz seu peso, seu gosto

no instante de fúria
o pincel crava a palavra púrpura
na tela

muito mais tarde
o exame de perícia
do corpo delito

dirá as marcas
a cor escorre
no chão do poeta

que optou pela morte
só para ser em si
a música do vocábulo púrpura
tinta insolúvel

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Exercício de analogias

o que se equipara
a uma pergunta
no desenho da tela?

as tintas não têm
sinais de sintaxe
e se desesperam

não seguem lineares
o discurso
o fluxo das horas

às vezes a tinta
traz uma dúvida
que em si evapora

o que se equipara
quando se usa
a linguagem outra?

um objeto nem sempre
ousa
ser o que não é

um traço por mais hábil
não é a tradução
do não dito

permanece no quadro
a expectativa
como se de um enigma

o que se equipara
a uma pergunta
eternamente sem resposta?

o homem que diante
de seu retrato
só se vê de costas

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