Paiol Literário

fevereiro 2013 / Paiol Literário / Marco Lucchesi

Texto publicado na edição #99

Marco Lucchesi

No dia 12 de junho, o Paiol Literário — projeto realizado pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de […]

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José Castello e Marco Lucchesi. Fotos: Matheus Dias

José Castello e Marco Lucchesi. Fotos: Matheus Dias

No dia 12 de junho, o Paiol Literário — projeto realizado pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná — recebeu o poeta, ensaísta, tradutor e professor carioca Marco Lucchesi, autor de livros como A memória de Ulisses, Sphera, Os olhos do deserto, Saudades do paraíso e Bizâncio. Numa conversa com o escritor e jornalista José Castello, mediador do encontro, e o público que compareceu ao Teatro Paiol, Lucchesi falou sobre sua relação pessoal e profissional com a literatura, discorreu acerca de sua fé e de sua busca religiosa, relatou casos recolhidos em algumas de suas muitas viagens ao redor do mundo e contou um pouco de suas paixões pela mística, pela poesia e pelo Oriente, entre outros assuntos. Confira abaixo os melhores momentos do bate-papo. 

• Duvidar do pessimismo
A literatura faz conosco aquilo que o Padre Vieira pedia a Deus que Ele fizesse contra os holandeses. Ou aquilo que ele próprio exigia de Deus para Deus. Ou seja: o Padre Vieira brigava com Deus, colocando-o no banco dos réus, acusando-o de não fazer o seu trabalho. E, no final, dizia: “Olha, você me desculpe, Deus, mas eu quero converter Deus para Deus e estou fazendo isso”. Então, acho que a literatura nos converte para aquilo que somos: para nossa música interior, no aspecto da liberdade, para um sentimento de inutilidade, um sentimento de fragilidade que deve estar ligado, em contrapartida, à questão industrial daquilo que serve e daquilo que se aplica, um sentimento de dispersão e, digamos, de pouca importância. Mas a literatura faz com que você reúna essas partes dispersas, convertendo-as todas para uma efígie que é a sua, que é o seu destino, o seu destino histórico — não importa que medida seja a desse destino, não importa qual seja a sua espessura. Ela faz uma pax romana com as suas províncias, ela lhe dá um sentimento de tempo. Sem a literatura, seria impossível. Conheço muita gente desesperada que encontrou na literatura um campo de harmonia. Conheço pessoas que declararam converter-se, que reconstituíram seu psiquismo através de uma expressão cataclísmica das suas demandas internas. A literatura realmente dá a alguns pessimistas absolutos um sentimento de tamanha beleza que a gente, às vezes, chega até a duvidar do pessimismo.

• O piano engolido
Isso tudo me veio pela música. De minha mãe, do piano, das histórias que ela me contava. Acho que a relação afetiva preside as circunstâncias mais importantes do nosso cotidiano. E minha mãe tocava muito bem o piano. Costumo dizer que engoli um piano e que estou, cada vez mais, tentando “desengoli-lo”. Sou um cabaretista de quinta categoria. Mas a música foi importante para mim e, com ela, a poesia das coisas cantadas. Me vêm agora algumas músicas — não vou cantá-las porque não fica bem. Mas são músicas muito bonitas, que depois chegaram aos livros, naquelas histórias que só fui reconhecer mais tarde, no Dom Quixote. Minha avó me falava, por exemplo, de Orlando e de seu cavalo Brigliadoro, de Angélica, de Medoro e de Agramante. E, depois, eu os reencontrei, a todos, transformados, no Quixote. Mas a explosão, o terremoto, veio aos meus 12 anos, com Dostoiévski Com Humilhados e ofendidos. No calor do Rio de Janeiro. O Rio pegava fogo e eu ouvia aqueles samovares chilreando em pleno verão. Eu lia em casa, deitado na cama. Sou um homem que está sempre deitado na cama, um homem que já nasceu preguiçoso. Sou muito preguiçoso de postura, talvez dê para se perceber. E eu lia sempre na cama, com muitas lágrimas nos olhos. Chorava, chorava. Lembro de todas as personagens — ou de quase todas. A minha é uma história comum, como muitas outras.

Prefeito de si próprio
Formar uma biblioteca é ser o primeiro prefeito da sua cidade interna. Eu não fazia — como li depois, em Elias Canetti, no seu Auto-de-fé — como o doutor Kien, que chegava e dizia aos seus livros: “Cuidado, armai-vos ao perigo, lutai e combatei”. Eu tratava os livros não por vós, mas por vocês. Tinha por eles uma grande paixão, mas não aquela paixão, assim, muito cuidadosa. Eu pegava a pele do livro, eu a cheirava. Quanta gente cheira os livros, não? Não sou o primeiro e nem o último. Mas eu os lia e buscava, neles, essa expressão quase religiosa, pré-babélica, da palavra. Como era o original? Como soava? Como é que se chorava em russo? Como é que se diziam as expressões mais amplas do amor em russo? Era uma vontade absurda de comunicação, acho que era essa a questão. Uma vontade absoluta de comunicação. Estou ficando mais quieto, solitário e rabugento ultimamente, mas acho que eu sempre busquei nos livros a questão do outro, que para mim sempre foi importante. Eu vivia uma solidão pactuada. Eu precisava de momentos de sonho. Isso cresce cada vez mais. É um problema grave, mas não tem volta. Mas também buscava o afeto, o outro, a proximidade do outro.

• Uma droga que era Deus
Comecei pelos livros de literatura. Com o passar do tempo, aos 15 anos, me interessei pela filosofia. A poesia foi chegando depois, primitivamente sozinha, mas agregada a algumas outras condições. Na época, eu queria a explicação do todo, de tudo. Eu queria saber tudo. Enquanto alguns amigos meus — era a via deles — buscavam uma experiência alucinógena, eu tinha tantas alucinações internas que buscava uma droga mais forte, uma droga que era Deus.

Leonardo e o Flamengo
O sentimento de solidão nos traz um sentimento de liberdade. É por isso que eu amava o Renascimento. O que sempre me atraiu nele foi sua linguagem multifacetada. As pessoas se reuniam e não colocavam uma especialização em cima da mesa, ou um currículo. Se Leonardo fizesse um projeto de fomento à pesquisa, hoje, perderia tudo. Nunca seria aprovado. E este é o projeto da mudança que a gente espera acontecer em grandes centros de pensamento: Leonardo ser tomado como modelo. Um modelo no futebol é o Flamengo. Sou péssimo jogador de futebol, mas o primeiro gol que fiz foi muito fácil fazer. Só que foi um gol contra — me falaram isso depois, com elementos fortes. Mas acho, enfim, que esse é um paradigma inalcançável, inatingível, mas que a gente podia resgatar.

• O Lucchesistão
Houve uma época em que eu viajava muito. Como um amigo me falou, eu vivia no Lucchesistão, que ia do Marrocos ao Irã. Só não cheguei à África negra porque não deu tempo. Mas sobre as viagens, sobre essa questão do trânsito, vou dar exemplo que me é muito grato. Há esse homem no centro do deserto da Síria, um homem chamado Paolo Dal’Oglio. Ele vive numa ruína romana do século 10. Um teólogo amante da arqueologia, um jesuíta, um homem marcado por uma vontade de comunhão ou de comunicação com o outro. Dal’Oglio tem um livro lindíssimo chamado Esperança no Islã.Ele está no centro do deserto. Seu mosteiro fica num abismo, tem uma biblioteca linda. Ele olha para um deserto de areia, um deserto muçulmano clássico, mas está, no entanto, num deserto de pedra — que é o deserto dos monges cristãos. E esse homem estabelece, ali, uma relação extraordinária de diálogo, de diálogo com a diferença. Por exemplo, todas as sextas-feiras, durante a sua missa de ritual sírio católico antigo, ele abençoa aqueles que irão para Meca. E os judeus, por isso, ficam um pouco incertos. Ao mesmo tempo, ele tem uma preocupação imensa com os Salmos. E os muçulmanos acham que há aí um excesso de judaísmo. Já os cristãos ficam entre essas duas relações. Então, acho que a idéia do Oriente que eu buscava, além da beleza da língua e da caligrafia árabes, era a de um lugar do perigo. Um lugar do perigo, da passagem, da encruzilhada, mas também do limite dessa possibilidade mundial. Isso sempre me encantou muito.

"Por que a gente tem que ter três, quatro poetas? Três poetas que digam tudo no Brasil? Não temos três poetas. Temos trezentos. É melhor para todo mundo, não é?"

“Por que a gente tem que ter três, quatro poetas? Três poetas que digam tudo no Brasil? Não temos três poetas. Temos trezentos. É melhor para todo mundo, não é?”

 


Orgulho do afeto
Sim, eu sei árabe. Estudei muito, é inegável, não posso mentir. Estudava muito, mas, ao mesmo tempo, tive muitos abandonos necessários. Também jogava bola, tinha namoradas. Ao mesmo tempo, amava a vida nesses apelos, no cheiro das comidas, nas cores, nas estrelas. Mas as línguas eram uma chave para isso. Aprendi e estudei bastante. Gosto de lembrar de algo que me deu muito orgulho. Quando fui aos campos palestinos de Sabra e Shatila, um palestino falou comigo em inglês e eu “refalei” com ele em árabe. E os olhos dele se encheram de lágrimas. Eu estava numa pequenina comitiva e, nela, quem falava inglês acompanhava os embaixadores, os políticos, aquela coisa chata. Eu não. Vi aqueles campos ao lado dos velhos e das crianças, aqueles campos de concentração. E, lá, eles me davam doces. Eu tenho isso, sabe? O orgulho do afeto. Tenho muito isso de devolver. Mas as línguas têm pele, as línguas têm toda uma sensualidade. Eu estudei muitas línguas, mas o seu domínio é sempre uma coisa que transcende tudo. Porque uma língua é uma metafísica sozinha. Uma língua é uma via de entrada, mas praticamente sem saída. Tanto que a gente vive dentro de uma e faz pontes com as outras. Mas o Minotauro e o labirinto estão aí. Eu tinha até vergonha de dizer isto alguns anos atrás: até o esperanto eu estudei. Tinha vergonha porque o esperanto parecia uma coisa de menor importância. Ultimamente, voltei a ele só para dar uma olhadinha, para ver como ele funciona. E acho aquilo — tudo bem, é artificial, todo mundo já sabe —, mas acho que é uma língua bem-feita, realmente, em termos sonoros. Até hoje sei falar um pouquinho de esperanto.

• A relação com a mística
Imaginem a dificuldade. Eu vinha da História, estudava Economia Marxista I, II, III, IV, mil, nem sei quantas eram. Estudava Modo de Produção Asiático. Foi uma época importante. E do marxismo me restou uma questão ética muito importante, de cuja riqueza eu não posso abrir mão. A modernidade está líquida, mas, enfim, para usar termos curiosos, há muita coisa que a gente ainda quer solidificar ou resgatar. Mas o fato de eu ter conhecido a Teologia da Libertação foi fundamental. Aos 15 anos, eu queria essa droga, Deus. Queria prová-la. E, sozinho, eu estudava muito, estudava a filosofia aristotélico-tomista. Achava que, se eu queria provar Deus, tinha que estudar. E como se provava Deus? Aquilo era uma paixão, uma vontade absoluta. E, aí, me chegou a História. Fiz um pacto com o ateísmo — embora eu fosse de tradição católica, e de um catolicismo muito bom para mim, um catolicismo italiano toscano, marcado por uma tradição de coisas medievais. E redescobri uma outra leitura do Brasil ao subir, por exemplo, com os peregrinos do Padre Cícero, o Morro do Horto. Essa relação, é claro, não é uma relação pacífica, é uma relação ainda conturbada. No meu livro Sphera, há um poema que diz assim: “Por ser antes de tudo, não é nada”. É uma visão de uma grande nostalgia lírica, de raiz mediterrânea, solar, em que há uma religião de beleza, mas uma religião do ponto de vista ecumênico, do diálogo aberto. Mas é uma relação dura e dramática, às vezes. Só que a minha insistência é grande. E eu tenho ódio mortal ao positivismo, onde quer que ele se encontre e da maneira pela qual ele se manifeste. É uma espécie de ditadura, digamos, que impede o sonho, que impede a imagem da transcendência, até mesmo de uma mística seca, de uma mística sem Deus — pois seria possível qualquer tipo de mística. Eu, por exemplo, amo hoje um teólogo italiano, já falecido, impressionante, chamado Sergio Quinzio que escreveu um livro pequeno e terrível: A derrota de Deus. Mostra como Deus foi derrotado na história. É um livro de grande perplexidade. Então eu me divido entre a questão da práxis. A nossa geração foi marcada por isso.

Lugar ecumênico
Sou amigo do Leonardo Boff, amigo de correspondência. Fizemos um livro juntos no ano passado [A dança da unidade], sobre os 800 anos de Rûmî. Foi fascinante. A presença da Teologia da Libertação foi excessiva, teve suas complexidades, de parte a parte, mas foi muito importante. Não vivo de questões teológicas, mas acho lamentável que essas questões não possam estar na ordem do dia. E acho lamentabilíssimo o projeto de se quebrar o processo de laicização do Estado brasileiro — promovido inclusive pelo próprio Estado. Mas, enfim, se há um plano de beleza, ele começou por onde? Qual foi a minha grande chave? Não só a Teologia da Libertação, mas Dante. Minha paixão absoluta por Dante me fez ver a dimensão altamente poética da teologia. Outro dia, Boff me dizia que trocaria toda a sua teologia pela poesia. E eu disse que não, que ele estava errado, porque ele, de fato, tinha feito poesia sob uma égide teológica. Para vermos o Paraíso de Dante, para entender os seus mecanismos, precisamos da filosofia e da teologia. Para entender o sorriso de Beatriz, eu precisava entender como o homem pensava a teologia daquele momento, como é que a filosofia lhe garantia a luz do paraíso. Mas tudo isso, sem a literatura, também não funcionava. A literatura é o lugar ecumênico por excelência. O lugar de todas as religiões, de todos os “ismos”. 

• A paixão por Nise
Uma vez, um amigo me disse: “Você quer ver um hospital psiquiátrico?”. E eu: “É claro”. E por que não iria querer, com Dostoiévski, Machado e outros tantos na minha cabeça? Então, um médico me levou para a seção feminina daquele lugar, me fez entrar ali e me trancou lá dentro. Me trancou. E muitas mulheres vieram para cima de mim. Fiquei muito impressionado. Eu não sabia o que fazer, tinha 18, 19 anos. E vi, brilhando no olhar daquele médico, a maldade. Então, a antipsiquiatria, para mim, me chegou a partir de uma experiência micro. Houve outras, anteriores, mas essa foi muito importante. Eu sonhava com aquele hospital, com aquelas pessoas. Aí, comecei a ler Bleuler, a ler os tratados clássicos da psiquiatria. Ia comprando livros e nenhum deles me dizia muita coisa. Até que descobri uma obra de Nise da Silveira, Imagens do inconsciente. E eu a descobri sem querer durante uma prova de Economia Marxista IV. “Caramba, é isso”, eu disse. “Que coisa maravilhosa.” Fiquei emocionado e escrevi um artigo sobre aquilo no Jornal do Commercio, uma declaração de amor pela Nise. Eu estava apaixonado por ela. Detalhe: eu era um velho de 23 anos e ela, uma jovem de 87. Mas era viúva, então eu podia tentar, não é? Nenhuma resposta, enfim. […]Mais tarde, numa palestra, conheci um rapaz que possuía uma ferida existencial importante: havia vivido dez anos em um hospital. Então lhe perguntei: “Dez anos? Por acaso você conhece a doutora Nise?”. E ele: “Mas é claro, é minha amiga”. E eu, com o atrevimento dos vinte e tantos: “Pois faça um convite de casamento a ela”. Dois dias depois, ele me telefonou: “Olha, convite de casamento ela não aceita, mas de noivado…”. Então, nós nos conhecemos. As circunstâncias são muito amplas e muito bonitas. Nos abraçamos, ela já numa cadeira de rodas… A doutora Nise foi uma das figuras mais importantes da minha vida em termos intelectuais, afetivos. Foi uma chave para mim, porque juntava a questão política — foi presa com Olga Benário, por exemplo — e a questão do marxismo à questão da literatura — era uma mulher que lia muito Machado, Artaud, Nietzsche. A questão religiosa, a questão do mito, nela, também me interessava, mas, sobretudo, por catalisar todo aquele processo, todo aquele afeto presente no trabalho da doutora. Altamente científica, altamente interessada, rigorosíssima. […] Ela possuía o olhar da intuição. E isso era muito fascinante na Nise, esse olhar que nos abria um horizonte vastíssimo. Ali, entravam Spinoza e Jung. Dizem que ela era junguiana. Ai, meu Deus, sim, tinha questões junguianas ali. Mas ela fez um trabalho todo especial. Tudo dela era próprio, autêntico.

“A literatura dá a alguns pessimistas absolutos um sentimento de tamanha beleza que a gente, às vezes, chega até a duvidar do pessimismo.”

“A literatura dá a alguns pessimistas absolutos um sentimento de tamanha beleza que a gente, às vezes, chega até a duvidar do pessimismo.”


Arrebentar a poesia
A Mariana Ianelli é de uma qualidade poética muito importante. Ela é de São Paulo, e vive muito a questão da poesia. E a vive com nobreza, a vive intensamente. É admirável, visceralíssimo. Acho que a poesia brasileira está bem, está ótima. Eu não quero estar na contracorrente, é claro; é impossível não falar da grandiosidade da poesia de Drummond, isso é líquido e certo, nem se discute, nem se perde tempo. Não só de Drummond, mas de João Cabral. Quem é que vai discutir Cabral? Ninguém, obviamente. Agora, existem outros poetas no Brasil. É como se a gente só pudesse escolher três ou quatro poetas e esquecesse o resto. Jorge Lima é interessante, Joaquim Cardozo. […] Eu tenho encontrado poetas do Acre, por exemplo, alguns muito doentinhos, já de idade, maravilhosos, inéditos. […] Acho que é isso que falta, um pouco, à crítica brasileira de poesia. Às vezes é muito irresponsável partir de um priorismo, eleger quatro poetas, fazer sua ascendência pessoal de crítico e poeta — geralmente as duas coisas se combinam. Então, você é a fina flor de um processo que culmina em si próprio; você vai, como um juiz, arrebentar a poesia. Isso é muito difícil. 

• Trezentos poetas
Vejo poetas excelentes em todo lugar. Agora, vim do Maranhão. Lá, há poetas maravilhosos, jovens e não-jovens. Outra bobagem no Brasil é essa questão da geração. Primeiro, ela é muito complicada, é uma etiqueta que serve ao mercado, como o ISBN. Você vai lá e vê o seu preço. Geração só serve para isso. Quanta heterogeneidade compõe o tempo mental e cultural… No Brasil, há muito disso. Se um poeta brasileiro já tem uma certa idade, ele é absolutamente soterrado. É preciso ter cuidado. Eu não digo que não erro — e erro bastante —, mas, na poesia, nas revistas e antologias, eu abri o máximo que pude. Para que haja uma pluralidade. Não vou ser o legislador da poesia brasileira, eu quero ser o leitor da poesia brasileira. Erro bastante porque, se não errasse, não leria. Mas tento abrir o máximo este espaço. Acho que a poesia brasileira está muito bem, sim. Nada daquelas visões apocalípticas que no Rio de Janeiro se produzem, aquele olhar só para o passado. Saiu agora, em um suplemento, uma crítica importante, dizendo que a Academia não olhava para o presente. Em um certo sentido, isso é verdade. Ela pára onde? Onde é que a Academia pára? Sabemos onde ela pára. Nos cânones. Mas, às vezes, também ela se apressa demais. Mas temos que errar, não é? É um laboratório de ensaios. Temos muitos poetas excelentes no Brasil. Digo isso não para ser simpático, mas porque eles existem. Agora se a gente quer fazer um panteão, na Grécia não cabiam doze. Por que a gente tem que ter três, quatro poetas? Três poetas que digam tudo no Brasil? Não temos três poetas. Temos trezentos. É melhor para todo mundo, não é?

Buber, janela aberta
Sempre escrevo sobre Martin Buber. Dois livros foram importantes para mim, neste sentido do outro: O princípio esperança de Ernst Bloch — até como um curativo interno para a esperança —, e Eu e Tu, de Martin Buber — que começa lindamente: “Olho para uma árvore e digo: a força de sua exclusividade apoderou-se de mim”. Buber é uma janela aberta. É aquele que foi às fontes hebraicas mais profundas e que retirou delas a alteridade. Tenho para mim que ele foi um dos 36 justos, não sei dizer quais os outros 35, mas ele era o trigésimo sexto dos justos da tradição judaica.

Haroldo, projeto luminoso
Com Haroldo de Campos, tive uma amizade epistolar. Haroldo foi um projeto de abertura, um projeto luminoso, um projeto de coragem, um projeto de audácia que eu, apesar de saber que existem guerras fratricidas neste campo, não posso diminuir devido a limitações ideológicas que pudesse vir a ter — e nem é esse o meu caso. Haroldo de Campos, afinal de contas, abriu um capítulo muito importante na história da tradução, de uma amplitude tão grande que, hoje, o Brasil tem sabidamente uma escola importantíssima de tradutores. Ele teve um sentimento da história da literatura brasileira muito grande, que o levou a muitos confrontos. Mas vejo Haroldo, assim, como um homem vaidoso das suas questões, por que não? Mas muito delicado no trato, muito atento, uma antena parabólica que trouxe muitas discussões ao Brasil, em um plano em que ele merece estar figurado.

Nossa história literária
É ingrato escrever uma biografia de Machado de Assis. Não é nada fácil. Machado era extremamente reservado. Talvez nos primeiros anos ele não fosse tão reservado assim, mas é difícil adentrar a sua vida. Acho, até hoje, que um grande projeto de biografia de Machado — projeto porque ele não a escreveu — foi o de Graça Aranha. Quando prefacia as cartas trocadas por Joaquim Nabuco e Machado, Graça Aranha nos dá um banho de compreensão de todas as questões da época, questões com as quais evidentemente já não nos encontramos. Mas a melhor biografia de Machado ainda é a de Jean-Michel Massa. Massa fez um levantamento importantíssimo. […] O problema é que boa parte das biografias de Machado não faz verificação historiográfica. E Jean Michel Massa fez diversas. Temos grandes levantamentos bibliográficos da obra de Machado de Assis. […] Temos uma grande paixão pelos mapeamentos da obra machadiana, mas muitos problemas a serem resolvidos. Os pseudônimos, por exemplo, são muitos. Temos um homem cuja biografia coincide com o Segundo Reinado de ponta a ponta, e que até ultrapassa o Segundo Reinado. Eu tenho visto no Rio de Janeiro uma coisa péssima. (Gosto de falar das coisas sem citar as pessoas, porque nunca tive interesse em falar mal de ninguém. Mas em bater nas idéias, sim.) Enfim, há uma idéia muito curiosa no Rio. Algumas pessoas, sem base alguma, e isso realmente é muito chocante, querem tirar a aura de santidade de Machado, etc., etc., etc., e por isso dizem coisas abomináveis. Dizem que ele não trabalhava. São bobagens, claro, mas que ofendem. O que esmaga, o que é muito duro na questão da literatura no Brasil é esse desinteresse imensíssimo pela história dessa literatura. […] No caso de Machado, se pesquisa muito pouco da história brasileira. E, em relação ao fim do século 19, no Brasil, não dá para você justificar dizendo que “falta material”. Não falta. Nosso século 19 está completamente a salvo, em todos os jornais que se publicavam na Corte, alguns de vida curta, outros de vida mais longa. Está tudo lá. É só ter a pachorra, a paixão de visitá-los. Está tudo lá. Mas é preciso trazer de volta essa questão. Só a França tem história literária? Só a Itália tem história literária? Nós temos uma grande história literária.

Deus e o rabicho
Durante anos, quando vinha um pouco mais ao Paraná, tentei fazer contato com um senhor que morava em Foz do Iguaçu, Arturo Paoli. Um homem muito amado na Itália, muito amado. Queria manter contato com ele antes de ir ao deserto. Na época, eu queria ir malucamente para onde morreu Charles de Foucault, para aquela Argélia profunda, dos tuaregues. Eu tinha essa vontade, mas nunca consegui. E Arturo Paoli, que era um irmãozinho de Foucault, tinha vivido essa experiência do deserto, longamente. Um dia, tentei ir a Foz do Iguaçu, mas não deu certo. Isso há 14, 15 anos. Mas, este ano, eu estava saindo da Romênia e indo para a Itália, quando um amigo de um casal amigo nos diz: “Olha, vocês querem jantar hoje não sei onde?”. E eu disse: “Sim, sim”. Chego lá e lá está Arturo Paoli, com seus 94 anos. E vejam só qual foi a experiência dele no deserto — e no deserto do Paraná, vejam que interessante. Arturo Paoli, bem encurvado, com uns cabelos brancos belíssimos, de um branco completo, aqueles cabelos de quem viveu um processo, fez uma breve liturgia durante a refeição. E, naquele pequenino sermão, disse que aprendeu no Paraná uma coisa muito bacana, uma palavra que não conhecia em português: “rabicho”. Ele tinha uma questão com os pobres de não sei que cidade paranaense, ele não me disse na ocasião. Era um lugar onde as pessoas viviam numa comunidade muito pobre. E Arturo morava com eles. Era uma opção. Era a experiência do deserto onde quer que este deserto se realize, não é? Na pior das hipóteses, é uma experiência muito simpática. Então, Arturo Paoli contou que, por cima da favela onde moravam, passavam torres de luz, mas que ali embaixo não havia luz nenhuma. E disse: “Olha, esse é o amor de Deus. A luz. Deus é luz. Deus está lá, Deus está passando lá em cima. E como é que a gente, aqui embaixo, não tem luz? Qual é a solução?”. Daí alguém disse: “Fazer um rabicho”. E ele: “É isso, vocês descobriram”. E descobriram uma coisa fundamental naquela experiência no deserto, dizia ele. Descobriram que o problema é que o amor de Deus é tão alto, tão alto, tão alto, que, se ele não tiver um rabicho, ele não tem sentido. Deus é o “eu-tu”. Não é “eu e tu” ou “eu ou tu” ou “eu mais tu”. Não: é “eu-tu”. A única realidade possível, que vale até para os animais. Hoje se pede a justiça da condição dos animais, se pede o amor aos animais, que é a mesma coisa que o amor ao ser humano, no sentido de uma atitude psíquica, que defende o mesmo campo de amor e liberdade. E Arturo Paoli foi descobrir aquilo tudo no deserto. No deserto do Paraná. Aquela mesma idéia daqueles místicos muçulmanos que diziam: “Mas que bobagem, por que vocês vão a Meca?”. Rûmî falava isso: “Vocês estão indo a Meca por quê? Meca é aqui, Meca fica no seu terraço, Meca está aqui dentro”. Já era a idéia dessa Meca interior, dessa Jerusalém interior, dessa literatura com vestes de questões teológicas.

A prostituta sagrada
A literatura é uma prostituta sagrada. Ela é extremamente fácil. Ela se deixa cortejar. Ela deixa que os críticos façam a sua vivisecção. Ela é uma prostituta que admite sadismos. Uma prostituta sagrada. Tudo ela admite, ela deixa tudo. E depois, no entanto, o crítico — que é o seu freguês — morre, e as questões ideológicas que a perpassam ganham uma nova dimensão, uma outra forma de expressão. A literatura é uma prostituta sagrada. Ela se oferece em sacrifício, ela vive esse sacrifício, mas de quem a sacrificou ninguém se lembra. Isso é que é absolutamente fascinante. Chame-se isso deserto, matemática, língua, quixotismo ou loucura.

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