Dom Casmurro

maio 2019 / Dom Casmurro / Marco Lucchesi

Texto publicado na edição #229

Marco Lucchesi

Quatro poemas de Marco Lucchesi

> Por Marco Lucchesi

Morte ritual

a Paolo dall’Oglio
aos mortos da Síria

Arde em chamas a tenda de Abraão

Os deuses ébrios de festins sangrentos

A céu aberto os corpos ultrajados

E as aves de rapina mais robustas

Luz sobre luz

Arrebatado pela noite escura
busca o amor de Leila e Majnun

O lampião efêmero de azeite
que não aclara sua obsessão
provém de uma intangível oliveira

A mesma luz esplende sobre a luz

O negro sol desponta em céu escuro

A claridade é filha do Destino

Canção

Um séquito de sombras
olhos de Medusa

O incontornável
círculo da morte

Caem os dentes
podres de Baal

Na falciforme
lua de Ramadã

o sangue
das crianças degoladas

Desconcerto

O borbotão de abelhas dos teus lábios
não atinge a distância dos celestes

Imóveis como pedra indiferentes
o sangue dos mortais é ambrosia

No espelho da manhã despedaçado
são hoje os mortos que enterram os vivos

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