Paiol Literário

setembro 2012 / Paiol Literário / Marcia Tiburi

Texto publicado na edição #149

Marcia Tiburi

“Nada [substitui a leitura], porque só a leitura e a escrita é que nos dão a dimensão da experiência vivida das outras coisas.”

> Por PAIOL LITERÁRIO

Marcia Tiburi no Paiol Literário. Fotos: Matheus Dias

No dia 15 de agosto, o projeto Paiol Literário — promovido pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, o Sesi Paraná e a Fiep — recebeu a escritora MARCIA TIBURI. Nascida em Vacaria (RS), Marcia estreou na literatura em 2005 com o romance Magnólia, primeiro volume de sua Trilogia íntima. Publicou ainda diversos livros de filosofia e ensaios, como As mulheres e a filosofia, Olho de vidro — a televisão e o estado de exceção da imagem Filosofia em comum — para ler junto. Graduada em filosofia e artes, mestre e doutora em filosofia pela UFRGS, Marcia é também professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie, em São Paulo (SP). Na conversa com o jornalista e editor Rogério Pereira no Teatro Paiol, em Curitiba, Marcia Tiburi falou da militância pela leitura, da relação entre literatura e filosofia, da leitura e da escrita como a possibilidade de compreensão da existência humana e de seu recém-lançado Era meu esse rosto [leia resenha], romance em que ficcionaliza sua “novela familiar”, entre outros assuntos. Leia a seguir os melhores momentos do bate-papo.

• Suicídio em massa
Se não tivesse coisas para ler, viver seria insuportável. Estou falando sério mesmo. Pode parecer um pouco de exagero, mas acho que seria muito chato. As pessoas que descobrem o universo das coisas escritas, que fazem uma descoberta mais que intelectual, uma descoberta afetiva com esse universo, descobrem também outra dimensão da vida: nessa vida que se vive, enquanto você é simplesmente um animal, também se pode construir um sentido. Essa dimensão da vida é o que nos dá a compreensão da existência. É porque a gente escreve e lê — lê o que os outros escreveram, escreve as coisas que a gente quer, enfim — que a gente descobre que existe. A literatura nos dá isso. A filosofia e a literatura providenciam nesse aspecto a mesma construção do sentido das coisas. Aí, fico com pena das pessoas que não lêem, porque acho que estão perdendo tudo. Não consigo nem entender como as pessoas podem viver sem ler um livro — não consigo entender. Para mim, todo mundo que não gosta de ler, necessariamente já teria se suicidado. E não sei como as pessoas estão vivas, porque se eu não pudesse ler… Não estou falando de ser cego — alguém podia ler e eu escutar. Se não conseguiu gostar, fico pensando: do que será que as pessoas gostam? Porque fora disso, acho a vida um enfado total. Vocês não acham?

• Leio, logo existo
Nada [substitui a leitura], porque só a leitura e a escrita é que nos dão a dimensão da experiência vivida das outras coisas. Então, para quem escreve e lê — ser pai, ser filho, ter um caso amoroso, ser professor, ser estudante, pesquisar, viver a vida, ser um ativista político — tudo fica diferente, porque se conseguiu elaborar isso por meio da linguagem. Fora disso, fico realmente pensando como é possível o ser humano achar que esse mundo vale a pena. Não estou falando isso para assustar vocês com um estilo de vida ou com uma compreensão das coisas pessimista. Vocês lembram do Proust, em Em busca do tempo perdido? É um dos escritores que deixaram muito claro que fora da experiência da escrita, na verdade nem existe experiência. Acho que é assim: se a gente falar para as pessoas por que elas devem ou deveriam ler, é só porque lendo, entrando em contato com o universo das coisas elaboradas a partir da escrita, consegue-se ter a sensação de que está existindo. Fora disso, você é um animal. Talvez seja muito legal ser um animal na selva, que nunca entrou em contato com a coisa humana. Mas sendo um animal humano, que entrou em contato com a coisa humana, acho bom você passar pelo universo das coisas escritas. E no caso da literatura, há uma coisa muito especial, porque ela é como se fosse um exemplo para a nossa vida. Você lê a narrativa e ela te ensina a viver a vida como se esta fosse também uma narrativa. E à medida que você constitui a sua vida como uma narrativa por meio das que já leu, meio que mimetizando isso, meio que se encontrando por identificação e por negação com esse universo, você também descobre que pode participar desse mundo. Talvez eu esteja pensando de um jeito muito curto. Em outras palavras, talvez isto que estou dizendo seja uma tremenda de uma burrice. Mas isso é para mim, está valendo para mim.

• Para não ser otário
Há uma coisa muito triste no Brasil. Aqui, poderíamos fazer uma conversa só pensando nas questões formais da literatura. No entanto, cada vez que se anda pelo Brasil afora, quem é escritor está sempre, na verdade, fazendo uma militância pela leitura. Essa militância é meio que inevitável e necessária. Por isso, acho um saco esses caras que falam… Por exemplo, esses dias, dei uma entrevista a um jornal que estava em um lance de criticar a Flip: “Não está mais importando a literatura, agora é só festa”. Tá, mas a festa mostra para as pessoas que, talvez, ler seja um negócio bacana. Então, essas festas, até as mais bobas, em torno da literatura, as feiras, que são as mais comerciais, estão mostrando que esse objeto complexo que é o livro pode se relacionar com as pessoas. Veja, aqui a gente podia estar falando só dos meus romances, dos meus textos de filosofia, das coisas que eu escrevo, mas não. A gente tem sempre que começar por certa catequese em torno do livro, que envolve dizer para as pessoas por que elas precisam ler. Leiam, pelo amor de Deus. Leiam para vocês não serem otários. Leiam, porque parece que é um mundo ideal e é muito legal e muito bacana e muito melhor do que o mundo de quem não escreve e de quem não lê. É um mundo muito melhor do ponto de vista social, espiritual, intelectual, cultural. As pessoas que lêem são mais interessantes, mais inteligentes, mais bonitas, mais bacanas, mais poderosas — são tudo. Quem não lê é um otário.

• Educação desprezada
Na escola pública, sobretudo, existe o professor ignorante, o sujeito que nem sabe que livro existe. E por mais que os professores sejam heróicos e a gente tenha que defendê-los — eu também sou professora e me engajo na minha classe profissional —, acho que tem que ter autocrítica. Professor do ensino médio ou do ensino fundamental tem pouco contato com o livro — e isso em função de uma circunstância política e econômica. Olha o salário dessas pessoas, olha o incentivo que elas têm. Livro é caro, como que você compra? E toda a correria, esses professores que passam 40 horas dentro da sala de aula. Em São Paulo tem professor que resolveu ser babá de rico, que é muito mais negócio, você ganha um dinheiro muito melhor sendo babá, cozinheiro, do que professor. Então, tem toda essa questão da desvalorização da educação, do desprezo cultural, político e econômico em relação à escola. A vítima são as crianças, os professores e toda a estrutura, todo mundo que dependeria disso para viver em uma sociedade mais interessante, mais rica culturalmente.

 

“O nosso sistema econômico só torna as pessoas cada vez mais otárias. E a literatura faz com que elas sejam menos otárias, e quanto mais você questiona a literatura que lê, menos otário fica.”

 

 

• Fascismo
Vejo a avareza de muitos colegas que dão aquelas aulas pobres, aulas que os estudantes detestam e saem correndo. Porque estudante é um negócio bonito. A pessoa está lá, cheia de curiosidade, e quer aprender, quer muita coisa. Se você exigir muita coisa, é melhor o aluno ficar com culpa e te devendo do que achar que você tem pena, que ele é um pobre coitado que não dá conta de ler tudo aquilo. Acho lastimável quando os professores tratam seus estudantes como se fossem mentecaptos, como se fossem incapazes de um processo mais radical, intelectualmente falando. Então, não dá para dar mole para a gurizada. Deveríamos ter mais vergonha da nossa ignorância. Os próprios jornalistas podiam ter mais vergonha da sua ignorância e podiam fazer o favor cultural de ajudar a criar esse campo de leitura. Mas os meios de comunicação, a escola, a família trabalham em duas frentes estranhas, que se combinam muito bem: uma é tratar o público, os filhos, os estudantes como se fossem incapazes, como vítimas que não terão a potência da leitura; e a outra é que por trás dessa vitimização projetada nas pessoas, no fundo, isso é um tipo de fascismo. Você julga que o outro é um otário, que não vai aprender, que é incapaz de aprender. E a universidade faz isso com os estudantes. É maluco que a universidade faça isso, mas ela é escola, é uma instituição perversa e perigosa, que mexe sempre com o poder e o poder do conhecimento. Funciona assim: “minha avareza, não conto para você o livro que eu li, nem a teoria, senão pode ser que você entenda melhor que eu e faça a coisa melhor”.

• O melhor negócio
Nos meios de comunicação a coisa fica muito clara: é achar que o outro é um otário que não vai entender. Então, você faz o jornal e não fala de livro difícil, fala do livro do famoso. Aí, o cara tem um programa de televisão, escreveu um livro de merda, e você fala do livro famoso. […] É aquela coisa: coloca-se uma pilha imensa de livros na livraria, aí tem um sistema todo organizado, que é a televisão, o jornal, o mercado, a própria livraria, a editora. E há livros com tiragem de 300 ou 3 mil exemplares, e outros já saem com 30 mil exemplares, porque se sabe que este cara vai dar certo, vai vender muito. Aliás, às vezes encalha, tem uns bem famosos que encalharam, que era para ter dado certo, e o público não gostou. Em geral, o público não gosta quando é muito sofisticado também, porque às vezes o cara é famoso e escreve uma coisa boa. E por aí vai. Então, acho que a gente tem que ter lucidez e saber que por trás disso tem todo um fascismo — a vontade do sistema de deixar o outro um ignorante. Porque se ele for um ignorante, melhor para a manutenção do governo do jeito que está, da economia do jeito que está. É óbvio que um povo otário é um bom negócio — é o melhor negócio. O nosso sistema econômico só torna as pessoas cada vez mais otárias. E a literatura faz com que elas sejam menos otárias, e quanto mais você questiona a literatura que lê, menos otário fica. Quanto mais você entende o discurso dos livros que lê, quanto mais você começa a pensar por que esse livro foi escrito assim ou assado, mais você vai ficando esperto. E aí, gente esperta é muito chata, não é? Gente esperta é muito insubmissa, gente esperta inventa coisas, gente esperta pode criar outros mundos possíveis.

• Peralta
Eu acho que não é nem na escola nem na família [que me tornei leitora], porque na minha família ninguém gosta de ler. […] Na minha casa tinha aquele livro, a Bíblia, uma enciclopédia, mas era muito mais legal ficar na rua. Eu era uma menina de rua, uma menina-guri. […] E eu não gostava de ler, rasguei um monte de livros que me deram, rasguei, recortei, porque achava que as imagens eram para recortar, brincar, colar. Não lembro o que tinha nesses livrinhos, que eram uns infantis, mas lembro que uns anos depois rolou uma culpa de ter destruído aqueles livros. Eu gostava de escutar as histórias, meu avô contava várias, meu pai também. Mas eu notava também que o mundo das mulheres era muito silencioso, e o mundo dos homens era todo narrativo, e muito mais interessante. Então, li meu primeiro livro quando quebrei o braço, quando tinha nove anos, fazendo peraltice. Tive que ficar quieta e minha amiga me emprestou Os contos de Grimm. Foi a primeira coisa que li mesmo, achei as histórias muito legais. Na escola, na minha casa, não tinha livro. Embora o meu irmão lesse aquelas enciclopédias. Barsa, essas coisas. Ele gostava de saber aquelas coisas e eu ficava com inveja. Depois, adolescente, me lembro que isso voltou à tona. Eu ficava disputando com ele quem conhecia mais. Aí eu fui estudar filosofia, fiquei muito mais sabida que ele.

• Caxias
Descobri a biblioteca da outra escola em que fui estudar, na época em que escola estadual era um negócio muito bacana, e fui procurar os livros. Realmente curti muito a biblioteca. Acho que fui salva pelas bibliotecas. No meu ensino fundamental 2 — naquela época era quinta, sexta série —, depois no ensino médio, descobri a Biblioteca Pública de Vacaria, que não sei que tamanho tem porque não vou lá desde os meus 17 anos. Mas lembro que foi um universo mágico. Lá, havia uma estante de filosofia e eu li filosofia do século 19, tinha Marx, Kierkegaard, Nietzsche, tinha aquela coleção dos Pensadores. Eu gostava muito de ler essas coisas, fiquei muito comovida quando descobri isso. Já tinha encontrado O príncipe, de Maquiavel, naquele Círculo do Livro — chegou um panfleto e eu acabei gostando, achando que era legal, fui ler aquele negócio. E filosofia, fui ler porque era muito “caxias”, gostava de estudar mesmo, gostava de tirar nota dez, não tinha mais o que fazer. E eu disputava também com meu irmão, que era o aluno nota mil do colégio. Então, eu ficava muito ligada em ler aqueles livros todos, e gostava muito de filosofia porque era muito difícil, muito mais difícil que química, física, matemática.

Marcia Tiburi. Foto: Matheus Dias

 

• Literatura complexa
Acho que [o interesse em filosofia] foi efeito daquela biblioteca, daquela estante, de ler Kierkegaard. Depois, fui ler também Sociologia, gostava também de História. Mas uma coisa que me encrencava muito era simplesmente a narrativa. Até hoje não gosto. Quando leio literatura, odeio livro roteiro. Detesto livro roteiro. Detesto aqueles livros de literatura — para o meu gosto — em que a historinha está facilitada. Em que a descrição está separada da reflexão, e que tem ausência, inclusive, de reflexão. Detesto a coisa que aconteceu pura e simplesmente, sem o arranjo em que a descrição, a reflexão e a vida do personagem estão muito engajadas naquela frase construída. Eu saco direto quando o cara estava na fase anal, tipo, fez essa frase e não teve coragem de jogar fora. Eu fico muito irritada, e na filosofia isso não acontece. Na filosofia, cada frase é muito cheia de significado, e eu sacava isso quando era menina. E até hoje, começo a ler um livro de filosofia e, às vezes, travo no primeiro parágrafo. Eu gosto disso, gosto de não entender. E literatura que me encanta é também aquela que não entendo, em que vejo que houve um esforço conceitual do escritor, porque esse esforço conceitual vai construir a frase, vai se substancializar, vai se efetivar, vai se concretizar na frase. E quando descobri a literatura mais complexa, que vinha carregada dessa idéia, dessa conceituação, comecei a gostar de literatura também.

• Invocando a fantasmagoria
Você já leu um cara chamado Vergílio Ferreira? É lindo, um português. Tem um livro dele que adoro, já li e reli, chamado Alegria breve. Gosto muito dessa história e do jeito que esse autor escreve. Tive uma fase muito forte também com Lobo Antunes, teve uma época em que eu lia muito e achava genial. Por sorte, eu me curei. Eu procurava nele um defeito, porque achava legal isto: um escritor, para mim, tinha que ser humano, tinha que ter erro. Mas o desgraçado não tinha. Mas depois passou essa coisa fissurada. Ah, eu gostei de ler também, quando era menina, Erico Verissimo, coisas assim, e Kafka e Dostoiévski. Mas no Brasil tem um cara por quem sou encantadíssima também, gosto mais dele que do Vergílio Ferreira e do Lobo Antunes, que é o Osman Lins. Eu não sei se isso acontece com vocês que escrevem, mas, para mim, as palavras não são disponíveis, não são fáceis. E me sinto sempre exilada do universo das palavras, habitando muito mais um campo de silêncio do que um campo falante e expressivo. Vivo muito nesse mundo mudo, e entrando na literatura, escrevendo, você busca uma palavra que é como que arrancada de um véu de muito silêncio. Acho muito parecido com desenhar, porque é como se você rompesse a folha branca e de lá tirasse um som, que ao mesmo tempo é um silêncio, que ao mesmo tempo é um sentido. Para mim, é muito parecido criar uma imagem com um desenho e criá-la com a literatura. Estou falando isso porque quando não consigo de jeito nenhum escrever, se quiser trocar de ambiente, se quiser sair do mundo mudo e ir para o campo, para esse lugar, para esse paraíso da palavra, abro um livro do Osman Lins em qualquer lugar. Eu até, com todo o respeito, invoco a fantasmagoria. “Osman Lins, Santo Osman Lins, por favor, ajuda aqui.” Gosto dos escritores que usam a língua portuguesa. Porque a gente aqui no Brasil usa a língua portuguesa de um jeito. Então, os escritores brasileiros fazem uma experiência com a língua que os moçambicanos, angolanos, portugueses fazem de um jeito totalmente diferente. Mas, se pudesse, quando estava escrevendo O manto, que é o terceiro livro da minha Trilogia íntima, na verdade gostaria de ter escrito algo tipo Avalovara. Se fosse imitar alguém, imitaria Osman Lins, com todo respeito a Fernando Pessoa.

• Ambiente mental
Acho que a leitura de filosofia provavelmente ajuda a escrever livros, mas talvez também atrapalhe. Os livros da Trilogia íntima, por exemplo, chamo de minha “literatura selvagem”, porque ali eu estava muito mais carregada de filosofês na cabeça do que de literatura. E eles são livros que têm muito mais experimentação com a linguagem do que neste aqui [Era meu esse rosto] e nesse outro que terminei de escrever recentemente, que são infinitamente mais narrativos. Então, um pouco ajuda, um pouco atrapalha. Deixa você muito ligado na questão reflexiva, na idéia, no conceito que vai construindo. Mas ao mesmo tempo deixa você muito mais desligado da narrativa propriamente dita, ou achando que a narrativa, a história que deve ser contada e a forma como ela deve ser contada são menores diante de outros detalhes talvez mais poéticos. Acho que a filosofia é mais parecida com a poesia do que com a prosa. Os meus primeiros livros são muito marcados por essa coisa poética. Se fosse mais corajosa, seria poeta. Mas sou muito neurótica para ser poeta. Preciso muito da elaboração de muitas páginas, que é uma coisa de paranóia e neurose, todo um problema de ambiente mental. Preciso escrever muito.

• Novelas familiares
[Era meu esse rosto] foi mais difícil, porque comecei a escrevê-lo em 1998, quando estava terminando meu doutorado em filosofia. Estava escrevendo a tese sobre Adorno: Metamorfoses do conceito. De lá para cá, terminei a tese, escrevi sei lá quantos livros, escrevi os meus outros três romances, e esse livro eu ia começando e recomeçando e desmanchando e refazendo. Teve vários títulos, teve muitas páginas… Ele realmente, podem ter certeza, não é fruto da minha fase anal com a literatura, porque joguei muita coisa fora, refiz, retrabalhei. É o primeiro livro, aliás, que tenho vontade de reler. Tinha medo de publicá-lo porque de fato eu estava usando a minha “novela familiar”. Novela familiar é aquela história neurótica que a tua família, todo mundo fica contando, acreditando, e aquilo, no fundo, constitui as pessoas. Mas muitos escritores já fizeram isso, trabalhar em cima das suas novelas familiares. O Carlos Herculano [Lopes], por exemplo, com aquele que é o melhor livro dele, Sombras de julho. São coisas vividas. É claro que a experiência vivida entra, mas não acho que entre sempre e que você também está fazendo alguma coisa muito diferente dos outros quando usa isso. Todo mundo faz isso todo o tempo. Escrever é isso, é reelaborar, elaborar, elaborar de novo, recontar. E tinha uma coisa pessoal com isso, porque como era a história da minha família e era uma história muito louca, eu queria resolver a parte que ficou em aberto da nossa novela familiar. E resolvi escrever e terminar esse livro em que os personagens são de fato meu nono, minha nona, meu pai, minha mãe — mas não só.

• Soluções
Minha mãe dizia que eu era filha adotiva, e me mostrava minha outra mãe e meu outro pai. O meu outro pai, que era o seu Domingos, aparece em vários livros meus. Então, acho até que minha mãe é muito responsável pela minha cabeça literária. Minha mãe, meu avô, meu pai, todo mundo lá. Eles inventavam cada história para a gente, deixavam a gente num mundo fantasmagórico. Se não fossem eles, eu não escreveria. Então, você faz literatura com essas pessoas para se vingar delas, para resolver questões, para ajudá-las. Escrevi esse livro [Era meu esse rosto] com um único, verdadeiro, sincero e total objetivo: que minha tia, que é personagem dele, o leia. Minha tia leu todos os meus livros. Ela nunca saiu de casa, nos levava para passear no cemitério — é muito responsável pela minha cabeça literária e filosófica, meu avô também. Então, essas pessoas que estão descritas aí são de verdade. Claro, elas são descritas, mas tem um tanto de fantasia. […] Tem, claro, ficcionalização em torno disso. Se fosse contar fazendo um relato jornalístico, teria contado de um jeito diferente. Mas contei do jeito que ouvi, com o teor fantasmagórico do que ouvi, com a sensação que acho que tem a ver com a experiência de linguagem que a gente faz na infância, porque a infância é mesmo uma experiência de linguagem. […] E é muito legal quando se descobre o ficcional, é divertidíssimo ir inventando soluções. A viagem que tem dentro da história, eu também a fiz, em busca de encontrar a solução, mas era nessas de ir atrás de um deslocamento e provocá-lo para que, por meio dele, essa tela do real se rompesse e uma solução viesse. Gostei da solução.

Marcia Tiburi. Foto: Matheus Dias

• Diálogos
Não sei o quanto filosofia e prosa se comunicam. Sei que quando você está escrevendo, o texto é o texto. Pode ser que uma hora você esteja escrevendo um conto; outra, um romance. Você não vai ficar medindo: “Vou colocar aqui filosofia”. Aquele livro, com todo respeito, O mundo de Sofia, talvez o cara [Jostein Gaarder] tenha feito projeto demais para escrevê-lo. Então, para quem gosta de literatura, é chato. Agora, para quem quer uma história da filosofia, é bacana. Mas a tendência no Brasil dos professores de filosofia, na qual eu não me incluo, é dar aula de história da filosofia. Claro que sim, eu também dou aula de história da filosofia. Quando estou dando aula, me valho de um cânone, de uma tradição. Mas eu tento mostrar para os meus estudantes que a gente estuda a filosofia do cânone e da tradição na intenção de estabelecer com esses caras e esses textos, que são hiper-reflexivos, ou eminentemente reflexivos, um diálogo com o nosso tempo, com as nossas questões. E para mim, filosofia é muito mais o diálogo e a experiência da linguagem enquanto ela providencia uma experiência de diálogo ou uma ação de diálogo do que o contrário. A literatura não é diálogo. Pode até ter, pode até se fazer como diálogo, mas ela não é essa experiência, ela é uma escrita. De fato, é legítimo escrever um livro para pôr na gaveta — OK, é meu negócio, vou fazer do meu jeito. Ela tem uma conexão muito mais profunda com a arte do que com a filosofia. A filosofia, a gente faz aqui, vamos sair conversando. E, de fato, é por meio da conversação que se pode chegar a um diálogo, que seria uma hiperconversação, uma conversação hiperelaborada. Mas a literatura está mais próxima da arte, do delírio do artista que usa a palavra ou que se encontra com a palavra, desenvolve um eros e um ethos, até, com a palavra, na intenção de contar ou de criar algo para mostrar para os outros. A filosofia não precisa disso, porque filosofia não se faz sozinho, a gente faz sempre com o outro, a meu ver. Essa é uma grande diferença. Não precisaria escrever filosofia, nesse sentido. Posso escrever, mas quando estou escrevendo, é só para mostrar que poderia falar sobre ela, ou com ela; ou, falando, eu poderia construí-la com as pessoas. Essa é uma diferença para mim muito séria e faz a filosofia ser muito diferente da sociologia, da história. Não é a pesquisa nos textos canônicos, é alguma coisa que vai acontecer entre nós — isso é bem platônico, aliás. É você falando, eu falando e a gente descobrindo alguma outra coisa, que é aquela — se você já leu Platão — espiral ascendente da dialética. A gente está descobrindo sempre outra coisa. Então, é muito pirado e é muito legal. Literatura não é isso, literatura é uma experiência moderna mesmo, a auto-invenção, a invenção da própria subjetividade, desse “eu fingidor”, talvez.

• Portal para a vida
A morte é uma velha história. Convivi com a morte na minha infância — não a da minha família, porque nela, fora o meu tio morto, ninguém morria. […] Convivi com a morte que era imagem. No ambiente onde eu vivia tinha a morte das pessoas, naquele mundo meio rural. Então, as cenas de morte desse livro [Era meu esse rosto], de fato, são verdadeiras. Me lembro muito de um negócio, e isso escrevi no livro, só que também modifiquei: meu bisavô morreu e fomos ao velório — porque criança ia, a gente ia em muito velório. No livro está bem diferente, mas lembro que foi a coisa mais bonita que eu vi na vida, por isso a frase: “Eu gostava mesmo era da morte”. Porque eu gostava mesmo era da morte. E eu achava tão bonito as flores, o caixão, as cortinas. Eu me lembro de chegar à casa do meu bisavô com a minha mãe, e tinha aquela cortina de veludo preta na porta e eu pedi para minha mãe colocar uma lá em casa, e minha mãe falando que era só para quando as pessoas morrem. Fiquei com aquela imagem, até hoje lembro daquela cortina, daquele veludo. Ensinei muito isso para os meus alunos fazendo literatura, os meus alunos de oficina, que é preciso ter uma sensibilidade, se ligar na sua sensibilidade, essa que se emociona com a textura das coisas, os cheiros, a imagem, a atmosfera, o tato, as sensações — tem uma sinestesia toda na literatura que dá um prazer imenso, não apenas de escrever sobre isso, mas de sentir isso quando se está vivendo qualquer circunstância. Então, a experiência literária é um portal mesmo para viver a vida, você começa a se ligar nessas coisas.

• Inventor de mundos
Eu ia chamá-lo de Magnólia de qualquer maneira, mas quando cheguei ao mosteiro [onde parte do livro foi escrito] e abri a janela, tinha um pé de magnólia. Levei um susto, porque parecia meio incrível demais. Na verdade, eu chamava de Magnólia porque tinha um pé de magnólia na janela da minha sala na universidade, e eu ficava lá escrevendo aquele livro, era uma coisa maluca. Para poeta é mais fácil de entender, porque o poeta tem uma relação muito imediata com as coisas, e acho que esse livro era muito motivado por isso. Na verdade, quando escreve literatura, você se dá o direito de não viver segundo a lógica da racionalidade dominante. Você pode ser poeta, você pode ser louco, você pode inventar mundos — você é livre e não precisa justificar nada para ninguém. A gente está aqui conversando e isso é só uma partilha, não é uma justificativa, é uma partilha para quem gostar desse tipo de coisa, só isso.

LEIA RESENHA DE ERA MEU ESSE ROSTO.

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