Dom Casmurro

maio 2020 / Dom Casmurro / Marcelo Ariel

Texto publicado na edição #

Marcelo Ariel

Três poemas de Marcelo Ariel

> Por Marcelo Ariel

Ilustração: Marcelo Ariel

Ilustração: Marcelo Ariel

Veredito

As crianças não foram iluminadas o suficiente
há um momento em que a possessão por si mesma impediu isso

Estamos mais próximos dos cães
que dos leões

Os loucos são
faróis acesos no fundo
de abismos oceânicos

As crianças podem nos ensinar como

Anjos se fossem visíveis
iriam nos aterrorizar
por anos

Crianças e loucos
saem da mente
inicial para a outra
entre a água e o animal
para que santos e santas encontrem
um sentido para a noção de eu
escoar falsamente
pelo ralo da não-mente

As crianças que um dia foram apenas vontade
se comunicando diretamente com o ato e
depois gestos desvinculados da vontade
caindo através dos fatos
que dizem sem palavras
tudo o que existe depois da palavra você
é você

quem diria que
no sorriso louco das crianças
o animal e o anjo

ainda
desamparadamente humanos
nos olhassem tão de frente
de abismos tão rasos

Este poema já acabou três vezes
disse a infância para si mesma

e permanece
desde que você a veja.

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Meditação diante do mar

Dentro
do tempo
gelo enterrado
na areia
o pensamento
da concha
que sai
da onda furiosa

através da água
esse corpo
efêmeroefêmera
para onde
partem
estes cavalos
brancos
na espuma
como povos
avançando

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Dora Ferreira da Silva pensa em Emily Dickinson

Melhor não esquecer
a presença herbária
que foi nela
uma alegria rara.

Assim saberemos
que o riso da folha para o orvalho
diluindo o medo
jamais foi
um segredo

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