Simetrias dissonantes

setembro 2018 / Simetrias dissonantes / Manifesto: convergência (por uma nova ilusão utópica • parte 2)

Texto publicado na edição #221

Manifesto: convergência (por uma nova ilusão utópica • parte 2)

A história da comunicação humana começa com mímicas e grunhidos

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Teo Adorno.

Ilustração: Teo Adorno

O novo mito pode muito bem começar expressando a tão desejada comunicação total entre todas as pessoas do planeta, ou seja, a transmissão-recepção completa de mensagens verbais, visuais, sonoras, táteis, olfativas, gustativas e afetivas. A história da comunicação humana começa com mímicas e grunhidos. Até que surgem a dança, a música, o desenho, a pintura, a escultura e a palavra falada e cantada. Mais tarde surge a palavra escrita. Pouco tempo atrás surgiram a fotografia, o cinema, a tevê e os meios eletrônicos. Por mais sofisticadas que sejam essas formas de comunicação, elas são usadas por pessoas literalmente fechadas em si mesmas. Cada ser humano é uma caixa-preta separada de todas as outras caixas-pretas, um primata que precisa usar a voz, a escrita, o desenho e qualquer outro recurso externo para se comunicar, porque ninguém consegue transmitir-receber pensamentos puros. Agora pensem numa sociedade interconectada mentalmente. Imaginem os membros dessa sociedade trocando pensamentos refinados e experiências emocionais profundas. O novo mito pode muito bem começar expressando as sutilezas da futura telepatia cibernética. “Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.” [Miguel Nicolelis imaginando a brain-net]

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Exercício de subversão da noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária: escreva e publique um poema com sua assinatura, permitindo que outros reescrevam e publiquem livremente o mesmo poema, porém alterando a autoria: substituindo sua assinatura e jamais mencionando a autoria original. O mesmo poema, é verdade, logo deixará de ser o mesmo poema. Então, aprecie a beleza exotérica da experiência, a força convergente da livre apropriação criativa, a riqueza das variações sintáticas e semânticas dos versos em mutação. Também é verdade que a autoria original jamais será perdida, afinal seu registro no banco de dados do sistema literário permanecerá até o fim do antropoceno, no mínimo. Apesar disso, as muitas apropriações autorizadas sempre reforçarão um fato novo: a reavaliação da noção capitalista-fetichista de propriedade autoritária.

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No princípio rogávamos ao Divino que satisfizesse nossos desejos, agora rogamos ao Humano. No princípio era o teocentrismo, agora é o antropocentrismo. Saltamos de um extremo ao outro, mas não abandonamos o maior inimigo da convergência: o egocentrismo.

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A natureza nos evoluiu assim: autocentrados. O indivíduo passa sua breve existência submetido a si mesmo, vivendo e revivendo suas vitórias e derrotas, suas alegrias e aflições. Nos livros ruins e nos filmes ruins, a infantilização cultural reforça docemente: “Você, indivíduo, consumidor, protagonista, você é maior que o universo”. A infantilização cultural alimenta o instinto de autopreservação, e o instinto de autopreservação, agradecido, alimenta a infantilização cultural. Um modo de aquietar por um momento as fomes do ego e desacelerar o egocentrismo inato é contemplar a inquietante noção de infinito.

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A noção de infinito é uma das mais assustadoras que nossa espécie já formulou. O espaço é infinito? O tempo é infinito? Se o universo for realmente infinito, e se existirem infinitos universos compondo um multiverso, continuar atento apenas à restrita dimensão humana é um hábito muito empobrecedor. O novo mito pode muito bem expandir nossos limitados limites de tempo e espaço, conduzindo nossa imaginação um bilhão de anos no futuro ou no passado, um bilhão de anos-luz à esquerda ou à direita. Nessa escala sobre-humana, de que tamanho ficaria nosso egocentrismo cotidiano? Maravilhosamente pequeno. E nem sequer começamos a vislumbrar a camada mais externa da ideia geral de infinito. Uma vida de cem anos ou de um bilhão de anos chegam tão perto do infinito quanto uma vida de um segundo, uma viagem de cem quilômetros ou de um bilhão de anos-luz chegam tão perto do infinito quanto uma viagem de um milímetro. Quantas realidades alternativas e quantos universos paralelos cabem na noção sem fim de infinito? Não há antropocentrismo que não fraqueje diante da beleza poética e matemática desse devaneio.

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O cidadão precisa desligar o piloto automático do próprio cidadão. A sociedade precisa desligar o piloto automático da própria sociedade.

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A dupla natureza do pensamento — ele é partícula e onda ao mesmo tempo — ainda hoje confunde os monoteístas da mente. O pacifismo e a violência, por exemplo, não existem separados, são expressões da dupla natureza do pensamento.

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Os paladinos das velhas utopias defendiam a agressão, a explosão. Suas propostas estavam enraizadas na divergência. Os velhos manifestos pregavam a revolução violenta. Diziam que o mundo novo — pacífico e justo — seria construído em cima dos escombros do velho mundo. Se em vez de uma noção violenta da violência eles tivessem cultivado uma noção pacifista da violência, o resultado teria sido diferente?

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Sim.

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A mesma força física e intelectual que administra a paz doméstica e social deve defender violentamente a paz, sempre que a paz for violentamente ameaçada. O uso inteligente da violência é um dos princípios da não violência eficaz. Quando a paz doméstica ou social é ameaçada, a não violência vira autodefesa — violência defensiva — e a autodefesa eficaz sempre usa a força do oponente contra ele mesmo, como acontece em certas artes marciais orientais.

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Exercício de alumbramento: aprecie o presente, a textura do dia, o sabor dos pequenos objetos em cima da mesa, os sons da rua, as nuvens, tuas mãos. Mantenha a atenção fixada no aqui-agora. O presente é o maior presente que você já ganhou. É o momento sagrado. Não fuja dele, aceite e aprecie. Contemple a temperatura ambiente, admire cada detalhe do chá ou do café, não deixe o pensamento escapar para o passado, não deixe o pensamento escapar para o futuro.

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Exercício de alumbramento: aprecie o presente, os seres vivos que habitam teu cotidiano, o temperamento lilás da orquídea, a introspecção da quaresmeira, o gato deitado no sofá, o cachorro passando na calçada, as andorinhas. Mantenha a atenção fixada no aqui-agora. O presente é o maior presente que você já ganhou. É o momento sagrado. Não fuja dele, aceite e aprecie. Todos os seres vivos estão vivos agora, não dez anos no ontem, não dez anos no amanhã. Contemple o desenho da samambaia, admire cada detalhe do peixe no aquário, não deixe o pensamento escapar para o passado, não deixe o pensamento escapar para o futuro.

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Exercício de alumbramento: aprecie as pessoas, qualquer pessoa que cruzar seu caminho, não converse com ela, apenas admire suas características. Cada criança, cada adulto é um espetáculo da natureza. Um fenômeno único, que jamais se repetirá. Observe em silêncio os detalhes de seu rosto: o formato, a cor, as rugas, as manchas… Observe os detalhes de seu corpo, de sua roupa. Para essa pessoa estar aqui, para você estar aqui, infinitas coincidências poéticas e trágicas foram necessárias, desde o nascimento do universo. Mantenha a atenção fixada nessa observação pacífica, no aqui-agora. O presente é o maior presente que você já ganhou. É o momento sagrado. Não fuja dele, aceite e aprecie.
[Manifesto em progresso]

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