Palavra por palavra

dezembro 2018 / Palavra por palavra / Manifesto Brasil

Texto publicado na edição #224

Manifesto Brasil

A literatura como forma de resistir à barbárie

> Por RAIMUNDO CARRERO

Lima Barreto, autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Lima Barreto, autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha

A literatura brasileira viverá dias de combate nos próximos anos, em que as técnicas serão armas de luta para enfrentar o dia a dia, ao lado do discurso angustiante. Desde o final do século 19, começo do século 20, tivemos dois caminhos a seguir: Lima Barreto e Machado de Assis, sem que um desmereça o outro. Mas num momento em que precisamos defender as nossas dores e as nossas angústias, necessitamos encarar um ponto de vista definitivo, e ele vem, claramente, de Lima Barreto, combatente de plantão, pronto para a luta literária, que é o nosso campo.

Seremos todos Isaías Caminha, mais jornalista e menos escrivão, dispostos a rejeitar preconceitos, dificuldades e ameaças à sociedade brasileira. Refiro-me, de cara, a Isaías Caminha porque é neste romance [Recordações do escrivão Isaías Caminha] que Lima encilha as armas, sobretudo, naquele instante em que o personagem chega ao Rio que se transforma em terra estranha, no seu exílio permanente. E hostil, sobretudo hostil. Lembro, perfeitamente, o jovem Caminha, pobre e humilde, que procura se adaptar à cidade, fazendo amizades e interpretando o caráter das pessoas. Fundamental: caráter sempre é fundamental. É uma exigência de Lima e de todos nós.

Entre os amigos, na verdade, conhecidos de Caminha, aparece Abelardo Leiva, perfeitamente oscilante, sobretudo na visão do protagonista, que não admitia equívocos, ou não admitia vacilos. Qualquer dúvida merecia reparos. O escritor combatente criticava com furor o romantismo exacerbado e a admiração que Leiva dedicava às mulheres — o que nele não era esquisito. O que a rigor ele critica é o romantismo do amigo. Caminha e Lima têm pontos muito em comum, com enorme desvantagem para Lima, cujo caráter é exigente, intocável. Às vezes, intolerante. Vamos, por isso mesmo, rever o perfil psicológico de Leiva.

Abelardo Leiva, o meu recente conhecimento, era poeta e revolucionário. Como poeta tinha a mais sincera admiração pela beleza das meninas e senhoras de Botafogo. Não faltava às regatas, às quermesses, às tômbolas, a todos os lugares em que elas apareciam em massa e a sua musa — uma pálida musa, decentemente abotoada no Castilho e penteada diante dos espelhos de B. Lopes e Macedo Papança — quase diariamente lhe cantava a beleza olímpica e lirial. Como socialista, dizia-se socialista adiantado, apoiando-se nas prédicas e brochuras do senhor Teixeira Mendes, lendo também formidáveis folhetos de capa vermelha, e era secretário do Centro de Resistência dos Varredores de Rua. Vivia, pobremente, curtindo miséria e lendo, entre duas refeições afastadas, as suas obras prediletas e enchendo a cidade com passos de homem de grandes pernas.

Neste sentido, o autor radicaliza ao extremo, detestando qualquer fuga daquilo que considera revolucionário. Não gostava de clubes sociais e chás burgueses. Chamou o escritor Coelho Neto de nefasto, porque havia inaugurado a piscina do Fluminense. Dizia que a simples referência ao nome Coelho Neto lhe causava inquietação. Rejeitava qualquer conciliação com a elite. Teve muitos entreveros com Machado de Assis, de quem exigia uma posição firme a favor da causa dos negros no Brasil, também não parecia disposto a conviver politicamente com o autor de Dom Casmurro.

Mesmo assim, é preciso considerar que Lima conhecia as chamadas técnicas burguesas literárias e sabia usá-las quando necessário. É o caso do romance que estamos citando, onde surgem o duplo — tão caro a Dostoiévski — Lima e Caminha, o alter ego — Caminha é Lima —, a metáfora da viagem de trem, e o nome do personagem caminha, anda, voyeur, observador, e a busca das frases literárias “pardas nuvens cinzas galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engatada nelas”.

Um exemplo a ser seguido, rigorosamente, sem esquecer o seco Graciliano Ramos e o feérico Jorge Amado, com a proclamação das mulheres exigentes e belas. Que seja uma literatura de combate, sem perder a ternura.

Pouco a pouco, Lima foi aperfeiçoando sua técnica — queira ou não é uma técnica — deslocando o discurso dos personagens para as ações, para os movimentos, para as cenas e para os cenários — que lhe valeram, pelo menos, um doutorado brilhante de Osman Lins: Lima Barreto e o espaço romanesco.

É preciso reconhecer em Lima Barreto, sobretudo, o nosso bastão de comando. Sem meias-palavras.

Para encerrar, exemplo de cenário político-social:

Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma choupana de pau a pique, coberta de zinco ou mesmo de palha, em torno da qual formiga uma população; adiante, é uma velha casa de roça, com varanda e colunas pouco classificável, que parece vexada e querer ocultar-se, diante daquela onda de edifícios disparatados e novos.

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