Ensaios e Resenhas

abril 2012 / Ensaios e Resenhas / Mambembe

Texto publicado na edição #103

Mambembe

Devido a uma tempestade, um grupo de turistas latino-americanos, brasileiros em sua maioria, com idades acima de 40 anos, desconhecidos […]

> Por CIDA SEPULVEDA

Devido a uma tempestade, um grupo de turistas latino-americanos, brasileiros em sua maioria, com idades acima de 40 anos, desconhecidos entre si, fica preso num refúgio de madeira no topo de uma montanha.

O guia acende uma pequena fogueira e, para criar um clima de proximidade entre os estranhos, propõe que cada integrante do grupo conte um curto episódio de sua vida, forma de preencher o tempo e atenuar as percepções negativas da circunstância.

Cada integrante do grupo conta então uma história ou um fato de sua vida. Os temas que dão título aos episódios são triviais: Dinheiro, Animais de estimação, Casulos, Pequenos espetáculos, Lâmina de aço, Enxaqueca, O claro do sol e outros.

Contar histórias não é apenas um pretexto para ocupar o ócio acidental; são momentos de reflexão e mergulho na memória. Numa prosa poética, singela, Gilberto Dupas, seguindo a linha do seu primeiro livro, Retalhos de Jonas, tem como principal mérito, em O incidente, construir personagens a partir de detalhes de suas vidas, de lembranças de experiências vividas, de ambientes passados, de visões de mundo. Gradativamente, o autor vai compondo um álbum de retratos de interiores e exteriores de seus personagens-narradores, que falam das coisas do cotidiano, dando-lhes grande importância, ainda que, por vezes, possam se intimidar com a banalidade aparente de seus temas.

Na escrita de Dupas, o banal ganha expressão, profundidade. Em alguns textos, a reflexão sobre a condição do homem, suas relações e seus sentimentos mais íntimos, como vaidade, medo, poder, derrota, culpa e fragmentação, nos envolve de forma suave, mas incisiva. São narrativas delicadas; delicadeza que não impede o horror; ambos convivem num jogo de forma e conteúdo primoroso.

Pequenos espetáculos é um episódio cujo conteúdo remete à própria estrutura escolhida pelo autor para compor o livro. Nesse episódio o narrador fala do seu contato, na infância, com os mambembes, o carnaval e o futebol.

Mambembe, palavra que se origina da “justaposição de mumbe, da língua banta, falada em Angola, pelos ambulantes, que significa abandono e solidão, com o sufixo mbe”, é a situação em que se encontram os turistas que foram pegos de surpresa pela nevasca.

O narrador descreve com empolgação a chegada do circo à cidade, desde as montagens das estruturas físicas às estripulias dos artistas. Em seguida, ele fala do carnaval: carros alegóricos, foliões, lança-perfume, flertes e, por último, refere-se ao futebol acompanhado de paçoquinha, quebradinha, maria-mole, pipoca melada, vendidos por ambulantes. O episódio acaba com o narrador dizendo que somos masoquistas, que necessitamos de euforias e depressões para nos sentirmos normais. É um momento alto do livro porque é o mais abrangente do ponto de vista temático.

Dinheiro é um episódio bastante importante porque trata de um tema essencial a toda gente. O narrador é uma pessoa de classe média que lutou para chegar a uma condição que considera confortável e que se vê em dificuldades para lidar com o fato de ser alguém de poder aquisitivo elevado num país cheio de paupérrimos. Os conflitos desse narrador são apenas emblemáticos: ele não pretende revolucionar nada, embora se apresente como uma pessoa de esquerda.

Num crescente, as narrativas de O incidente nos envolvem e nos remetem às nossas próprias reminiscências. Nelas, o passado é também um refúgio às agruras da convivência entre pessoas nos dias atuais, tema tão debatido e tão relegado ao fracasso.

A poesia contida nos textos é a sua maior riqueza. O que realmente se sobressai e nos anima a lê-los é a poesia que reveste o que é árido por excelência, a nossa solidão deliberada, fugaz.

Ao final da tempestade — cessada a ocasião que impôs a aproximação aos personagens — retoma-se a distância habitual. Desfaz-se o prodígio intimista, causando no leitor a decepção em relação à possibilidade de comunicação.

Fecha-se o livro com uma clara alusão ao individualismo que nos enclausura, sem maiores discussões. A volta à normalidade é a volta à indiferença entre semelhantes. A sensação que se tem é que o autor não resiste a essa verdade cruel e por isso, palhaço, ingênuo, melancólico, solitário, se atira ao texto e pede a palavra e a palavra lhe responde: só nas reminiscências me acharás.

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Gilberto Dupas_livro

Gilberto Dupas
Paz e Terra
96 págs.