Ensaios e Resenhas

maio 2014 / Ensaios e Resenhas / Malhas que o Império tece

Texto publicado na edição #169

Malhas que o Império tece

O português Pedro Rosa Mendes aborda a independência do Timor-Leste num bem-sucedido romance

> Por HARON GAMAL

A literatura portuguesa contemporânea sempre nos surpreende com boas obras, e Peregrinação de Enmanuel Jhesus, de Pedro Rosa Mendes, segue a mesma trilha. Trata-se de um livro que descreve todo o percurso que resultou na independência do Timor-Leste do domínio da República da Indonésia, em 1999. Mas para os amantes da literatura a vantagem é que a História é narrada em forma de ficção.

Já no capítulo de abertura, Matarufa, veterano da resistência timorense, relata o dia em que a ONU anunciou o resultado oficial do plebiscito que reconheceu a pequena ilha como país independente: “Às 9 horas da manhã de sábado, 4 de setembro de 1999, no Hotel Ma’hkota, em Díli, Ian Martin, chefe da missão internacional, anunciou os resultados da consulta popular em Timor-Leste: 21,5 por cento tinham votado a favor da autonomia, 78,5 por cento votaram contra”. É preciso esclarecer que “a favor da autonomia” significava permanecer como região “autônoma” da Indonésia, o que não foi a vontade dos habitantes de Timor-Leste, pois a maioria optou pela independência.

O romance possui um eficaz artifício literário. Começa como um auto de missão levado avante pelo bispo Per Kristian Kartevold, da Igreja da Noruega (outubro/novembro de 1999). Isto quer dizer o seguinte: trata-se de uma investigação sobre o suposto paradeiro de um nativo, afilhado deste bispo, que teria desaparecido no Matebian (montanha sagrada conforme a tradição local), exatamente no dia do plebiscito na ilha.

Em forma de inquérito, são enumerados vários personagens que teriam concordado em falar sobre o desaparecido, sobre o país e, enfim, sobre tudo que estava relacionado à luta pela libertação. Não escapam narrativas sobre as tradições dos vários povos que formam a etnia timorense, mesmo aqueles que antecederam a chegada dos portugueses. É sempre bom lembrar que a chegada de Portugal à região data do segundo decênio do século 16. Entre os personagens que depõem neste inquérito literário, encontram-se pessoas que estiveram ao lado da resistência timorense e outras que atuaram junto à administração da ilha sob o domínio da Indonésia ou fizeram parte do seu serviço secreto. Como se sabe, a Indonésia invadiu o Timor logo após a saída dos portugueses, em 1975.

Ao apresentar testemunhos de personagens que estiveram em ambos os lados da luta pelo domínio do Timor, a narrativa acaba por tornar-se polifônica. São oito pessoas (sete homens e uma mulher, entre os homens há um padre) que contam a história do país, cada um sob a sua perspectiva. O romance de Pedro Rosa Mendes, com isso, filia-se à narrativa de António Lobo Antunes, ficcionista que melhor soube ousar nas letras lusitanas. A influência de Antunes pode ser observada não apenas na forma (organização dos parágrafos, diálogos e pontuação), mas também na repetição dos mesmos acontecimentos sob pontos de vista diferentes.

Além desses aspectos estruturais, é possível perceber no romance o mal que toda espécie de colonialismo foi capaz de causar mundo afora. Até mesmo a presença portuguesa, que acabou por predominar porque permaneceu durante muito tempo no local e deixou como herança a língua, é discutida pelo autor. Portugal colocou uma centelha a mais na já conturbada rivalidade existente na região à época das grandes navegações. Povos de Java e de Sumatra havia muito pretendiam o domínio da região.

No final do romance, o autor empreende uma viagem à Noruega, aonde vai ao encontro do tal bispo que seria o autor do relato que nos apresenta. Após boas observações sobre o país nórdico, os contrastes com Portugal e com o Timor, o suposto “editor” (este seria o papel de Pedro Rosa Mendes na organização do livro) estende sua viagem ao Polo Norte, exatamente à cidade onde o bispo reside, localizada em território russo. Ali encontra o religioso com a saúde já bastante debilitada, mas ainda capaz de lhe fazer revelações que proporcionam novo alento às suas investigações.

Talvez o maior êxito do romance seja a bem-sucedida exposição do caráter mágico relativo à resistência das hostes timorenses contra os opressores, sejam eles de onde quer que tenham vindo. Tais segmentos lembram o realismo mágico das literaturas da América Latina. Na luta pela liberdade, até mesmo os ancestrais estão sempre de prontidão, habitando um passado que de certa forma revela-se sempre presente, ou um presente que não se atemoriza diante de um duvidoso futuro.

Outro ponto digno de nota é a descrição das atrocidades perpetradas pelas forças de ocupação da Indonésia, que, segundo a narrativa, não pouparam velhos, mulheres e crianças, condenando todos à fome, à miséria, à morte.

A estada de Pedro Rosa Mendes no Timor-Leste, a título de fazer uma série de reportagens sobre a perspectiva da região após a independência, acaba por revelar não apenas a escolha do povo local pela independência e pela língua proibida pela Indonésia enquanto esteve no poder, o português, mas ainda esclarece que, no mundo atual, cultura alguma é capaz de ser autossuficiente.

 

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Pedro Rosa Mendes

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Nasceu em 1968, em Cernache do Bonjardim, Portugal. É autor de uma obra heterogênea que engloba ficção, ensaio e reportagem, com incursões no teatro e na poesia. É autor de quatro romances – Baía dos tigres (1999, prêmio Pen de narrativa), Atlântico (2003), Lenin oil (2006) e Peregrinação de Enmanuel Jhesus (prêmio Pen de narrativa 2011). Atualmente, vive em Genebra, na Suíça.

Eu nasci em 1974, tinha três ou quatro anos na altura, não entendia nada do que estava a acontecer. O meu pai não queria dar-me. O soldado indonésio arrancou-me e deu-me a minha mãe. Vieram separá-la de meu pai também. Lembro-me dos gritos nossos e deles misturados. Uma bulha. Depois, mais nada. A minha mãe, os meus irmãos e eu continuámos descendo a encosta. Meu pai ficou para trás.

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Pedro Rosa Mendes
Tinta da China
376 págs.