Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Maldição da leitura

Texto publicado na edição #143

Maldição da leitura

"Talvez a literatura só traga mais caos à vida que já é turbulenta por natureza. Ela não tem nada a ver com os seus problemas."

> Por HOMERO GOMES

Ilustração: Felipe Rodrigues

As sociedades não letradas também têm cultura e as sociedades da escrita não são necessariamente ética e humanamente melhores que a dos analfabetos.
Claude Lévi-Strauss

Sou contra discursos que apregoam a leitura do texto literário como salvação. Como se a literatura fosse mais do que ela própria se propõe a ser: construção artística com as palavras. Como se a leitura fosse algo miraculoso. Não é. Discursos assim são exagerados e perigosos.

Literatura é arte. Um fenômeno estético, como diria Afrânio Coutinho. Antes de tudo, é isso o que ela é. O leitor, por isso, se configura como um espectador de obras confeccionadas com intuito estético e que, além de ver uma criação humana tocando o belo (e na contramão, o grotesco, o odioso), reconstrói o objeto no momento em que passa os olhos por ele.

Salvação? Isso é responsabilidade de outro tipo de profissional, o resgatista-socorrista, por exemplo. A leitura literária não salva ninguém de nada, nem da ignorância, ela se limita a ser ferramenta. Ferramenta de maldição ou de salvamento. Mesmo assim, ela está lá paradinha diante do espectador, como o sanitário de Duchamp.

Essa forma de arte, da arte da palavra, não cria um ser humano melhor nem o expele do caos em que se encontra. Nem mesmo livros de auto-ajuda presenteiam seus leitores com uma vida mais tranqüila, mais rica de sentido. Isso talvez melhore a conta bancária de alguns autores, mas não resolverá os problemas pessoais, de relacionamento, os traumas, nem os conflitos internos de ninguém. Estamos sozinhos. Os livros são apenas amantes desinteressados.

Talvez a literatura só traga mais caos à vida que já é turbulenta por natureza. Ela não tem nada a ver com os seus problemas.

Para além do subjetivo, não seria possível deixar de anotar aqui que a literatura é também fruto de uma necessidade de mercado; além de ser ela conseqüência da consciência coletiva, retornando a essa coletividade como possibilidade de diálogo.

Melhor do que pensar nela como produto de um mercado que está se desenvolvendo a cada dia, amplificando suas vozes e mecanismos, ao mesmo tempo em que se afunda na estandardização do gênero literário. A despeito da riqueza que a leitura gera em um país de miseráveis, pratique a leitura literária porque você gosta e não porque espera que o mundo se torne um lugar melhor para viver. Ou porque na tevê andam dizendo que isso vai melhorar sua condição de vida.

Sem esperar muito
Não se pode afirmar que o mundo e as pessoas sempre são influenciados beneficamente por aquilo que lêem. Nem sempre. Somos animais antes de tudo. Bichos e funcionamos como tais. Possuímos cérebros altamente desenvolvidos, azar o nosso; talvez, ganhamos esse presente antes da hora. Mas se fomos presenteados com a capacidade de leitura, então que se procure ler porque essa maneira de dialogar com o outro poderá ser interessante. Mas sem esperar muito disso.

Se ocorrer algo no mundo, está fora do controle da própria literatura e de sua leitura, constante ou não, comprometida ou não, adequada ou não. A literatura não muda o mundo, nem muda o homem. Literatura é conversa e uma conversa não precisa necessariamente resultar numa revolução política, mas pode chegar a isso, entretanto a responsabilidade não é do diálogo constituído no texto literário, está além dele mesmo.

Por isso, é esperar muito da literatura e da leitura, em geral, que elas nos possibilitem uma visão amplificada dos problemas mundiais e das possíveis soluções deles. O número de analfabetos está cada vez menor, mas isso não está resultando em um mundo mais igualitário ou mais pacífico. Quanto mais as pessoas lerem a literatura brasileira, mais elas se tornaram criativas e equilibradas? Duvido. E não adianta dizer que é culpa dos péssimos livros que as pessoas andam lendo. Livros certos não existem, o que existem são pessoas erradas demais, em lugares mais errados ainda, investidas em poderes imerecidos.

Não existem soluções literárias para problemas políticos. A literatura só pode ser medida pelos seus próprios padrões. Se ela fizer alguma diferença, se realmente ela possui alguma importância, apenas diz respeito ao indivíduo que a criou e aos leitores que tiveram contado com o texto literário.

A maldição da leitura é esse despropósito de nos fazer enxergar a nós mesmos sem apontar caminhos, de ficarmos nus diante do outro que não se revela nunca nas páginas da literatura. Aliás, a literatura talvez tenha uma função ideológica não revelada. Mas quem está manipulando essa ferramenta poderosa que é a obra de arte com as palavras? Os escritores possuem essa consciência? Como ferramenta, ela poderá quebrar algumas consciências.

A esse respeito, afirma Terry Eagleton que “a literatura, no sentido que herdamos da palavra, é uma ideologia. Ela guarda as relações mais estreitas com questões de poder social”.

O autor de Teoria da literatura, falando a respeito da literatura na Era Vitoriana, esclarece o papel que ela desempenhou como cimento social, usada como instrumento de união entre as classes; no fundo, ela foi utilizada como ferramenta de abafamento do discurso e dos anseios e exigências das classes de operários, de servos do burguês — o novo aristocrata —, sob o discurso da elite, que fundamentava seu poder político e econômico por meio da literatura (ideologia que pretendeu substituir a religião) e da educação clássica e humanista.

A literatura habituaria as massas ao pensamento e sentimento pluralistas, persuadindo-as a reconhecer que há outros pontos de vista além do seu — ou seja, o dos seus senhores. Transmitiria a elas a riqueza moral da civilização burguesa, a reverência pelas realizações da classe média e, como a leitura da obra literária é uma atividade essencialmente solitária, contemplativa, sufocaria nelas qualquer tendência subversiva de ação política coletiva. (Terry Eagleton)

Ferramenta de controle
Assim, haverá sempre a possibilidade de, por interesses políticos conscientes ou não, da leitura literária ser utilizada como ferramenta de controle, de subjugação da massa (de todas elas), de embrutecimento da consciência das camadas sociais populares (e não só dessas) e inação da coletividade.

Embora os sentidos e a razão possam ser vivificados pela arte da palavra, eles podem ser escravizados pela inércia e pelo conformismo, impossibilitando a ação, ato essencial do homem como ser político. Essa função é muito bem realizada pelas novelas televisivas, por programas de auditório e pelas redes sociais. A “política do pão e circo” nunca foi tão atual: bolsas governamentais para aquisição de livros, financiamento de traduções (entre outras tão ou mais polêmicas), programas de inclusão digital, TV digital aberta. O que se percebe é que o gado se estufa de alfafa e sorri. Às vezes, com um livro na mão.

Se for para servir a algo, que a literatura sirva para amplificar a percepção do fel da realidade e que seja experimentada como um espinho venenoso, que possibilite a vivência mental do simbólico, levando o ser humano ao inevitável desejo de ação.

Porque a leitura é potência, mas não apenas a estritamente literária. Ela é uma ponte entre o que somos e o que devemos ser, não que o devir seja fundamento do bem — ele se constitui apenas como um vazio que cabe a nós preencher com o que quisermos. O teleologismo da leitura resulta no vazio; é um não teleologismo. Por isso, o seu perigo. Literatura é uma tábula rasa, por mais paradoxal que isso pareça, pois pode ser muito bem adotada por grupos ideológicos de caráter duvidoso. Deve-se ler com filtros na mente.

Mas esse vazio não é ruim. O não teleologismo da literatura é um bem em si mesmo. Pois questionamentos como “por que é que se lê, se nada útil pode ela fazer por nós?”, no fundo, são resultados da característica utilitária, opressora e, também, egótica da sociedade. Os objetos, as ações, atividades e artes humanas, a meu ver, não visam, em si mesmo, a um bem. Parte de nós a ação, para o bem ou para o mal; quem institui o valor pretendido é o ser humano. Então, devemos ler literatura apenas pensando ou pretendendo a própria ação da leitura, mas com a consciência de que ela não é imaculada. Toda leitura literária é promíscua, coberta e recoberta de camadas de maquiagem ideológica ora da elite, ora de outras classes.

Ler por ler
Cioran, citado por Calvino em Por que ler os clássicos, contava que “enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntam-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’”. É isso. No fundo, lemos para ler apenas, pois é melhor ler do que não ler.

Mas não adianta botar no chicote, ou no anúncio, ou no programa de televisão, com ou sem a batuta do Estado. Nenhuma leitura literária deve ser realizada dessa forma. Ela é paixão, nos leva para o canto de nós mesmos que se reencontra com a caverna do homem pré-histórico, pois ela se opõe à razão. Não completamente, pois ela é necessária para codificar e decodificar os signos da escrita.

Literatura é, principalmente, linguagem simbólica, mitológica, arquetípica, que se une ao nosso ser sem história, a um ser mais instintivo, criativo, apaixonado — sem desejo nada nos moveria. Por isso, a leitura do texto literário não tem em si sentido nem função, a recomunicação entre nossa psique e os símbolos presentes no literário é potência, e permanecerá em estado de latência caso o próprio ser/leitor não sinta desejo, não sinta paixão e, saltando por sobre ela, transforme o imaginado em ação. Literatura sem tesão, nada feito. Se não for assim, melhor continuar analfabeto.

A propósito, como disse uma senhora ex-analfabeta de 73 anos, “não saber ler é como ser cego. Precisamos ser guiados”. Nessa fala, entendo a leitura, também, como aquela que não precisa ser ensinada na escola, pois é aquela leitura de mundo, que fazemos da realidade imediata, de começar a olhar para o lado e ver além do visto. Decodificar além do código, apreender mitologias.

Quem sabe, assim, ao ler o mundo sem castrações, dando vazão à intuição e imaginação, coisas boas comecem a acontecer para além de um livro. Da potência para a ação. Ainda não morreu a esperança.

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