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abril 2013 / Fora de sequência / Mais ousado do que Verne

Texto publicado na edição #157

Mais ousado do que Verne

Quem já ouviu falar de um francês chamado Albert Robida? Pelo menos eu jamais tinha ouvido falar nele, até folhear […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

Quem já ouviu falar de um francês chamado Albert Robida?

Pelo menos eu jamais tinha ouvido falar nele, até folhear — num velho sebo do Largo da Trindade, em Lisboa — um caríssimo álbum de imagens medievais que haviam sido feitas para a Grande Exposição parisiense de 1900, quando o século novo foi saudado com a inauguração da Torre Eiffel, dentre outras comemorações francesas. O alfarrabista que me atendeu, saindo da poeira do seu pequeno escritório cercado de livros, gentilmente explicou que eu estava admirando o trabalho, “hoje esquecido”, de um chargista e ilustrador cujos desenhos e gravuras eram muito apreciados na Paris do final do século 19. Eu anotei aquele nome — “Robida, Albert” — para saber mais sobre ele, algum dia.

Corte
Estamos em abril de 2013. E eu estou lendo isto: “A atmosfera e os rios se encontram poluídos, e numa única gota de chuva podem ser contados 590 mil micróbios. O homem se expõe a todos os tipos de doenças, causadas por uma industrialização levada ao extremo e pelo uso de substâncias químicas na produção de alimentos”.

Você pensa que dei algum pulo sem nexo e que acabo de citar o trecho de algum relatório da OMS?

Nada disso. O trecho que você leu é um fragmento do livro O século 20, editado em 1883, na França, pelo seu autor, Albert Robida, jornalista, ensaísta, poeta, político, crítico, chargista e ilustrador nascido em Compiègne, em 1848 – em cujas antecipações, nesses e noutros livros, nos seus artigos e ensaios (para muitos dos seus contemporâneos “simplesmente enlouquecidos”), foi ainda mais ousado do que o seu compatriota mundialmente famoso Jules Verne — ou “Júlio” Verne, conforme aqui ficou conhecido, como um tio velho que todos conhecem e admiram. Só Albert Robida é que jamais foi divulgado cá em Pindorama e noutros lugares onde ninguém sabe, s acredito, sequer ninguém sabe uponho, sequer quem foi ele — como também eu não sabia. Quando fiquei sabendo, mal acreditei que alguém assim tivesse realmente existido.

Um “maluco” como não se faz mais
Robida (nome que lembra o de um personagem do próprio Verne, Robur, “o conquistador”, comandante de um dirigível) foi daqueles seres extremamente inquietos que a atmosfera dezenovesca da Revolução Industrial produziu entre balões, invenções extravagantes e carruagens circulando pelas capitais agitadas da Europa entre duas fronteiras do tempo.

Albert foi co-proprietário de La caricature, uma revista de charges políticas que figura entre as mais antigas do continente europeu — e da qual só Umberto Eco, ao que se sabe, possui a coleção completa. O hábil desenhista tinha atração simultaneamente pelo passado e pelo futuro, além do olhar atento para os ridículos de então, como chargista que punha em evidência as atitudes absurdas de muitos figurões da segunda metade do século retrasado.

Sua assinatura — de autor e ilustrador — está numa coleção de livros voltados para a glória medieval de cidades da França, da Espanha, da Itália e da Suíça, assim como a encontramos voltada para o futuro, no verdadeiro catálogo do amanhã que é O século 20, obra de cerca de seiscentas páginas de “descrição”, em detalhes, do que tendia a ser a realidade social, econômica, política e, principalmente, tecnológica, do vigésimo século. Sobre a Paris de 1960, por exemplo, ele previa: “será uma imensa aglomeração cosmopolita de 11 milhões de habitantes, com mais de quarenta distritos que se estenderão até Meaux e Rouen. O subsolo da cidade será entrecortado por uma rede subterrânea de tubos pneumáticos por onde passarão cápsulas metálicas com a correspondência urgente e pequenas encomendas. Duzentas e cinqüenta pontes e viadutos cruzarão o Sena. E o bosque de Bologne, arrasado em nome do progresso, terá cedido espaço à concentrações de fábricas e vilas operárias (…) as ruas serão domínio exclusivo dos pedestres; sobre suas cabeças, como uma gigantesca teia de aranha, uma rede de fios elétricos, e, no teto dos edifícios, haverá locais para o pouso de aeronaves, dirigíveis e helicópteros de pouso vertical (atenção: Robida escrevia há cento e trinta anos!). Os prédios terão até vinte andares e serão construídos com estrutura de metal e paredes pré-moldadas de fibra da papel prensado, vinte e vezes mais leve que a madeira”.

Jules Verne possuía uma imaginação imensa, mas algo mecânica, que precisava se basear em possibilidades técnicas mais ou menos já embutidas no progresso do seu tempo. Albert Robida ia muito mais longe, e avançava no terreno das grandes mudanças sociais e políticas do futuro quase um século e meio distante do seu olhar de profeta do caos: “A política se transformará numa atividade como outra qualquer (…) sem exigir nenhuma qualificação especial, embora talvez vá existir uma universidade política, mantida pelo governo, onde estudarão os futuros candidatos a cargos eletivos. Seus professores serão velhos ministros e senadores…”, escreve Robida, ameaçando com um futuro no qual os franceses candidatos à carreira política correriam o risco de ouvir aulas dos Zés Dirceus e Renans de lá.

Bom burguês como Verne, seu colega futurólogo de Compiègne via a França como o centro do mundo (o que ela era, em parte, em meados do século 19) e se preocupava com o destino político do seu país: “A França terá um governo parlamentar temperado por crises regulares de gabinete (…) e cada deputado será vigiado por seus eleitores, que o interpelarão freqüentemente e que nomearão delegações destinadas a acompanhá-lo, aconselhá-lo e censurá-lo, quando necessário”. Ou seja, Robida era um otimista, por sobre todas as novidades que enxergava nas nuvens do porvir, não sem alguma dose do humor de um talentoso chargista:

O chefe do governo será um autômato. E com um presidente mecânico, teremos estabilidade política (Robida, nós que hoje estamos com um, podemos garantir: a estabilidade política vai além da mecânica; fecha aspas). Esse robô governamental só funcionará quando acionado por pelo menos duas de três chaves entregues aos presidentes do Conselho de Ministros, da Câmara dos Deputados e do Senado. E quando isso acontecer, a máquina poderá julgar friamente o valor das leis propostas à nação.

Não há notícia de qualquer referência à automação, anterior a essa, escrita por um homem que parecia ser capaz de inventar o futuro — mais do que simplesmente prevê-lo por indicações e tendências do seu tempo. Isso porque Robida viria a antecipar nada mais nada menos que a mais importante revolução do mundo moderno.

Saindo da futurologia para a bola de cristal
Com margem de erro de apenas cinco anos, esse francês (capaz de ir mais longe do que os Verne e os Wells) previu — ou melhor, adivinhou: “Haverá uma importante experiência socialista a partir de 1922. Ela começará na Rússia dos czares”. Se você acha isso um tanto vago, saiba que Robida foi preciso com relação ao desenvolvimento da imprensa, incluindo meios de comunicação que só surgiriam um século depois. Há um desenho dele no qual vemos um repórter transmitindo notícias pelo rádio ainda longínquo, pelos fios elétricos:

A fada da eletricidade irá se transformar na grande escrava do homem. E o telégrafo será destronado pelo telefone, e depois pelo telefonoscópio (televisão), uma extraordinária invenção que permitirá ver e ouvir cenas distantes; os jornais não serão mais impressos. As salas de redação enviarão as notícias por telefone para seus assinantes. Cada um terá em casa um aparelho receptor que funcionará automaticamente durante a noite, e, pela manhã, bastará abrir a caixa receptora e apanhar o rolo impresso de notícias.

Robida é um profeta enxergando na sombra das carruagens das senhoritas em flor e, na metade do século de Victor Hugo, é capaz de descrever um mundo que veio a se tornar a nossa realidade:

Haverá fotolivros e fotobibliotecas, e, no lugar de páginas impressas, haverá cópias fotográficas guardadas em estantes especiais. Se algum assinante se interessar por determinado texto em particular, ele poderá pedir por telefone e recebê-lo em casa, através de um mecanismo parecido com o telefonoscópio…

Albert Robida também errou — que ninguém é infalível. Ele previu que certas profissões iriam acabar: “A de pintor será uma delas. Esse profissional será substituído pelo técnico que pinta quadros usando máquinas automáticas fotográficas (isso é algo parecido com a arte feita no computador). O músico profissional será substituído pelas companhias radiofônicas que transmitirão concertos através do rádio”.

Outras antecipações
Em Le vrai sexe faible, Albert Robida antecipou a onda feminista que varreria o século 20: “a mulher, libertada de suas responsabilidades caseiras, ganhará liberdades e direitos iguais aos do homem”.

Um artigo por ele assinado anunciava que a locomotiva francesa (maravilha da época) iria ficar exposta no Museu de Cluny: “no futuro, os passageiros viajarão em veículos de alta velocidade, dentro de tubos, sob um sistema de propulsão elétrica que será sem ruído ou trepidação”. E, para pagar a passagem, bastaria apertar o cartão pessoal postal. Esse homem fantástico estava prevendo o uso do cartão de crédito — e só esqueceu, aparentemente, de prever que o cheiro de sovaco iria inundar, um dia, os vagões do metrô parisiense, nas horas de rush.

Robida sabe que as guerras continuarão — mesmo que sob o pretexto de fazer a guerra “para acabar com todas as guerras”. Ele anuncia: “navios cada vez mais poderosos, associados com a nova arma aérea — em larga escala —, farão com que um observador possa acompanhar sem dificuldade os movimentos do inimigo”. Também fala numa tal de “bombarda de motor elétrico”, cujo desenho é muito próximo do tanque de guerra. Vai mais além: “canhões de miasmas serão parte essencial dos exércitos das Grandes Potências”. Em outras palavras, a moderna guerra química.

“Mas todo esse progresso trará um amolecimento nos costumes e na saúde do homem, no século 20”, avisa Robida. Ele menciona certo tipo de relação “pré-matrimonial”, que será dos costumes — mais permissivos — da era futura, e fala da saúde combalida, nessa época:

(…) nenhum adulto chegará aos quarenta anos sem contrair doenças, porque o corpo estará enfraquecido pelo progresso. Para curá-lo, será necessário um período de repouso em Parques Nacionais, onde não haverá poluição e onde o homem voltará a sentir o contato direto com a natureza. Micróbios enfraquecidos (leia-se: antibióticos) serão ministrados aos pacientes para forçar seu organismo a lutar contra a doença. Haverá restaurantes medicinais, onde o paciente poderá comer apenas certos alimentos que não lhe causam mal, e o Grande Remédio Nacional, amplamente divulgado por todos os meios, será microbicida, tônico e reconstituinte. O próprio governo se encarregará da sua produção.

Isso tudo Albert Robida previa para a França — pois um bom francês só pensa no seu país. Robida só não previu Nicolas Sarkozy — certamente porque nem um visionário poderia adivinhar que, um dia, a barbárie conservadora tornasse um nanico também mental o vigésimo terceiro presidente da França.

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