Ensaios e Resenhas

março 2018 / Ensaios e Resenhas / Macho em queda

Texto publicado na edição #215

Macho em queda

Romances de Manoel Herzog revelam homem à deriva, nostálgico de sua masculinidade em ruínas

> Por Leandro Reis

Manoel Herzog, autor de Dec(ad)ência.

Manoel Herzog, autor de Dec(ad)ência.

Poucas figuras estão em processo tão acelerado de desuso quanto o macho-alfa contemporâneo, e poucos são os romances capazes de destacá-lo em sua eterna vocação para o ridículo, como este Dec(ad)ência, de Manoel Herzog.

Narrado como se fossem as memórias de um psicólogo fajuto e misógino, Sérgio, o livro é na verdade uma tragicomédia que expõe a fragilidade de posturas naturalizadas e discursos reacionários a partir da sátira de um tipo caricato: o homem que deu certo, e que agora se ressente da empregada que viaja de avião, do pobre que entra na universidade, do porteiro que lhe dirige a palavra: “Nunca antes na história deste país a subclasse arrogou-se tamanha intimidade. Capaz que até a Paris estivesse viajando, o biltre”.

Já nesse trecho surgem os indícios de um “cacoete machadiano odioso”, mesma linguagem dos novos ídolos de jovens reacionários do Facebook — sobretudo de certo colunista rodrigueano citado en passant por Herzog. A crítica do livro incide em todo o universo de aparências a que se relaciona Sérgio: os gurus, as fórmulas de sucesso, os donos de igreja, as modinhas, o discurso da Ordem e da Moral. Os cidadãos de bem.

Meu engajamento pacifista durou bem pouco tempo. O dono da empresa de ônibus era um radical defensor do cidadão de bem e lutava era pelo direito deste de se armar tal e qual os bandidos. Ponderei bem e deliberei me desengajar, supositório no do povo, afinal a criminalidade ajudava deveras a levar motoristas, constantes vítimas de assalto, à loucura, aquela mesma loucura que alimentava minha empresa.

A “sorte” ou a “meritocracia” acompanham o psicólogo picareta, que ao longo dos curtos capítulos se torna um famoso coach diante de plateias lotadas, um fenômeno de vendas no mercado editorial e até sócio de igreja — entre as atividades, um ponto em comum: o médico vende a doença ao paciente.

Sérgio joga ao vento montes de citações e paráfrases, de Lacan a Deleuze, e os põe ao lado dos, digamos, populares Augusto Cury e Içami Tiba: “Já dizia Michel Foucault, ou foi Roberto Shiniashiki, que a base da sociedade contemporânea é a confissão”.

Trata-se de uma crítica aos citadores e comentadores que vendem a imagem da alta cultura; e também insurge contra o monopólio do Saber, porque Dec(ad)ência põe em xeque o discurso intelectualizado e quem o profere, sobretudo quando se trata de um “especialista”.

Se a imagem de sucesso significa tudo para a obtenção do próprio sucesso, ela também nada significa, não resiste ao menor escrutínio. Sérgio acha-se um sujeito estável, no entanto seu sucesso não tem substância, é puro simulacro. E como esse sujeito cheio de si não pode entrar em crise, desconstruir-se, ele apenas implode. Dec(ad)ência revela um protagonista não em busca ou em dúvida, mas em queda.

Freud arrependido
O macho-alfa decadente é a perfeita imagem desse mundo de aparências, porque seu universo é feito de expectativas cumpridas geralmente à custa dos outros e de uma superioridade social herdada — branco, rico, curso superior, heterossexual etc. E quando seu “direito” lhe é negado, é preciso lidar com seus complexos, suas faltas. É preciso apelar para o discurso raso, tapar os ouvidos e gritar, transferir a culpa. Chamar a mamãe.

Sérgio é esse homem, e a razão para seus problemas, a se destacar a misoginia, é uma das subversões de Herzog no sentido de desautorizar os autorizados: o próprio psicólogo sofre de complexo de Édipo: “Gostava mais de Adão que de mim, gostava mais de papai que de mim”.

Ademais, obcecado com o próprio falo, Sérgio na verdade vê seu corpo à mercê de sua região tabu, o ânus: sua história começa a ser contada no Instituto de Sondas & Perfurações, onde espera para uma “constrangedora colonoscopia” após uma vida inteira com prisão de ventre.

É depois de se relacionar com uma colega de profissão, bem mais velha que ele, que a queda de Sérgio começa. Beatriz é a personagem que inverte os papéis de gênero. A falha trágica desse macho bem-sucedido é seu instrumento de poder: o sagrado pênis e a hegemonia a reboque, que o impedem de perceber que a presa da relação será, na verdade, ele mesmo, o psicólogo womanizer. Sérgio, O Emasculado.

O homem que não deu certo
A questão de gênero se mantém em A jaca do cemitério é mais doce, um romance mais curto de Herzo. Dessa vez, porém, a abordagem se desloca para a constituição da identidade do protagonista Santiago, um esforçado industriário de Cubatão, que na gafieira onde se passa parte da história aprendeu que “homem só dança da cintura pra baixo”.

Bem ao contrário do bufão Sérgio, Santiago conviveu com o preconceito, criado por um casal de lésbicas — sua mãe e sua tia — na periferia. “Quem vive história discriminação não se pode dar a eufemismos.” Isolado na escola, condenado pelas garotas ao ostracismo e subjugado pelo físico e pelo carisma de seus colegas de turma, Santiago foi moldado como um retraído homem que não deu certo.

Paixão platônica, a colega Natércia parece a vidas de distância. Mas a dança há de intervir. Já adulto, domina o salão do “baile das varizes”, consegue finalmente se aproximar de Natércia e, por fim, casar-se com ela. Mas esta é uma narrativa de fracasso, do início ao fim. Numa falsa ascensão, Santiago conquista a sonhada estabilildade, uma vida de hábitos, mas não se atenta para os fios frágeis com que são tecidos sobretudo seu relacionamento.

Outra falha trágica? Criado dentro de tradições, crenças, memórias, Santiago reconhece apenas o que é brasileiro porque a nação é um valor possível. Prefere o samba ao rock, a música popular aos sucessos dos grigos. Tem ojeriza a John Travolta — além de efeminado, com suas “circunvoluções humilhantes”, é símbolo dos enlatados americanos e prova de nossa colonização.

Já Natércia é universitária, cosmopolita, vegetariana, tem consciência ambiental… E Santiago é apegado ao que se pode tocar, às verdades “provadas” pelo cotidiano, às perguntas com respostas. A tradição fundamenta a vida de Santiago porque é estável. Sua moral é a do tato: fora do conhecimento prático, não há nada senão o caos.

Não sabe escrever feito os autores dos romances de Natércia, não tem o que citar, nada leu. Se alfabetizado deve a titia, que usou de método pouco convencional: não o fez conhecer cartilhas básicas nem pedagogias de oprimidos; aprendeu esotericamente. Foi ela quem ensinou o peso mágico de cada verbete a partir da soma de suas letras, e por conta disso Santiago nunca conseguiu achar a menor graça nas literaturas de Natércia, aqueles escritores não sabiam magia. Talvez que algum soubesse, mas nunca o encontrou entre os livros dela.

O término não fica no lamento; vira uma obsessão — e o desfecho se rende a uma infeliz realidade, a uma estatística que ao leitor não passará despercebida. Um personagem se insere na trama exatamente para representar esse processo de desamor de Santiago: a composteira, que transforma lixo orgânico em adubo. Retirado do convívio social após a separação, alimenta sua obsessão como se reciclasse o casamento perdido; sua fixação ainda se materializará de outra forma, tão cômica quanto macabra, no fim da história.

Concisão
Se Dec(ad)ência se impõe pelo excesso, a concisão é o recurso de Herzog em A jaca. Ao contrário do histrionismo cômico de Sérgio, o humor nesse romance de tiro curto é muito mais sutil. Cético e econômico, o narrador critica as hipocrisias em geral, sobretudo a vigilância dos likes, que rege o cotidiano assim como nas redes sociais.

Mas seu ceticismo também produz a indiferença que enfileira laconicamente palavras entre pontos e vírgulas, como que para adiantar o sentido da frase, perder menos tempo com coisa pouca. E por isso essa abordagem, engenhosa que seja, é mais dura diante de outra narrativa de queda — Santiago é menos um algoz do que uma vítima; foi feito nos moldes de um mundo que o força a reproduzir seus padrões.

De todo modo, é via autorização do narrador que surge o léxico precário de Santiago, suficiente no entanto para revelar sem filtros o que sente: “Não entristeceu da morte do Cavalo, era uma escória”. O discurso indireto livre, nas mãos de Herzog, invade a consciência de Santiago e o deixa que conte sua história, mais como instinto do que como racionalização.

 

 

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Dec(ad)ência
Manoel Herzog
Patuá
296 págs.

 

 

 

 

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A jaca do cemitério é mais doce
Manoel Herzog
Alfaguara
136 págs.

 

 

O AUTOR
Manoel Herzog
Nasceu em Santos (SP), em 1964. Trabalhou na indústria química de Cubatão e se formou em direito. Estreou na literatura com Brincadeira surrealista (poesia, 1987). Até hoje, publicou oito livros, entre eles o 3º colocado de poesia no Prêmio Jabuti, A comédia de Alissia Bloom (2014), e o romance Companhia Brasileira de Alquimia (2013), semifinalista do Portugal Telecom.

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