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dezembro 2011 / Rodapé / Machado de Assis e o sadismo (4)

Texto publicado na edição #124

Machado de Assis e o sadismo (4)

CENA 6 de A causa secreta: inicialmente, registra a segunda visita de Garcia à casa de Fortunato. Garcia, analista que […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

CENA 6 de A causa secreta: inicialmente, registra a segunda visita de Garcia à casa de Fortunato. Garcia, analista que é da alma humana, volta a se interessar por Maria Luísa, investigando-lhe a interioridade, e já tirando algumas conclusões: “…percebeu que entre eles [Fortunato e Maria Luísa] havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor”. Esta nova imagem de mulher insegura, temerosa, numa palavra, frágil, diferente daquela — mais exterior — de mulher de encantos e “feitiços” (embora já com os olhos “submissos”), mostrada na CENA 5, vai predominar no conto. Após a segunda visita, e ainda em suas primeiras apreciações acerca do modo de ser de Fortunato e Maria Luísa, Garcia, certo dia, reunido de novo ao casal, narra para Maria Luísa as circunstâncias em que “conheceu” Fortunato, ou seja, remonta o episódio da convalescença de Gouveia (constante da CENA 3). Duas questões: 1) Garcia elide de sua narrativa uma informação importante: a de que ele “conhecera” (no sentido de ter visto) Fortunato primeiramente no teatro, assistindo ao dramalhão; 2) Garcia narra, do episódio com Gouveia, apenas as impressões positivas que teve, ou seja, o benefício, a dedicação de Fortunato para com o ferido. Assim, Garcia, sem mais nem menos, trazer para a conversa o relato de como conheceu Fortunato, as impressões positivas que teve deste, a solidariedade para com Gouveia (quando o caso poderia simplesmente não ser mencionado, já que Maria Luísa, até aqui, não manifestara qualquer interesse em saber como Garcia conhecera seu marido), pode ser explicado por três motivos: 1) por Garcia estar retribuindo os “obséquios” de Fortunato, que afinal — embora com seu mistério e já com a suspeita, ou mesmo a convicção, de ser um sádico — o prestigia como jovem médico, o acolhe bem em sua casa, já tendo lhe dado “bom jantar e bons charutos” (o prestígio e o interesse material é um ponto forte na construção de vários personagens machadianos); 2) por Garcia já ter algum interesse em Maria Luísa e, visando iludi-la acerca das qualidades do marido, ou seja, agindo de maneira um tanto ardilosa, tentar agradar a mulher, que, “esbelta, airosa, olhos meigos”, tem “feitiços”, porém “pouca ou nenhuma afinidade moral” com Fortunato (conforme conclui o próprio Garcia na segunda visita ao casal); 3) por Garcia, devido a sua aptidão inata, continuar interessado em investigar ou “decompor os caracteres” do casal. Garcia, portanto, aqui é ambíguo, joga com as aparências. Também encena. Resultado: Maria Luísa, ouvindo de Garcia narrativa tão “positiva”, que atesta as qualidades de Fortunato, fica “espantada”: “…estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração”. E cabem as perguntas: Maria Luísa fica “espantada” por, efetivamente, estar admirada com a boa atitude do marido? Ou fica “espantada”, não por admiração, mas por lhe ser estranha — de tão insuspeitada — a boa atitude dele? Maria Luísa, tal como Garcia na cena, age com ambigüidade. Por sua vez, Fortunato, tomando a palavra para si, narra o que se passou depois de ter conhecido Garcia, ou seja, a visita de Gouveia à sua casa. Assim, ao invés do benefício, do seu gesto fraterno para com o ferido, tem interesse em narrar o malefício — ou a dor moral que sente Gouveia, em sendo desdenhado na visita, e que tanto satisfaz Fortunato.

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