Ensaios e Resenhas

outubro 2013 / Ensaios e Resenhas / Maçã bichada

Texto publicado na edição #162

Maçã bichada

Novo romance de Michel Laub propõe uma investigação além dos temas que marcam sua obra, mas que não se cumpre

> Por LEONARDO PETERSEN LAMHA

Michel Laub por Tiago Silva

Michel Laub por Tiago Silva

É difícil ler o novo romance de Michel Laub fora da sombra de Diário da queda. Esforcei-me para não transformar a beleza do livro anterior num ideal absoluto. A notícia de que ambos fazem parte de uma trilogia tornou as coisas mais difíceis. Agora, tanto Diário quanto A maçã envenenada pedem para ser lidos como partes desse todo.

Memória e objetividade
“Como evitar que a memória se misture com a culpa, a auto-piedade e a auto-indulgência nos anos e décadas que seguem um evento assim?”, pensa o narrador de A maçã envenenada num dos seus inúmeros auto-questionamentos. Como ler isso? Um pensamento, apenas? Uma declaração procedimental? Uma reflexão pura e simples?

Em The influencing machine, uma HQ sobre a história da mídia, a autora está dando uma palestra sobre a censura imposta ao jornalismo pelos governos. Um garoto levanta a mão: “Eu quero confiar nos meus líderes! Por que eu deveria confiar em repórteres? O trabalho deles não é me proteger. Por que tenho que ler coisas sobre as quais não posso fazer nada?”.

O que interessa nessa citação é que o garoto, por trás de uma fachada de alienação, esconde a mesma ansiedade que Laub coloca na superfície de seu texto. Por que uma vida transcorre relativamente tranqüila enquanto no mesmo planeta uma mulher se vê despojada de tudo o que a faz humana, trancada num banheiro por noventa dias com mais sete mulheres enquanto lá fora se perpetua um genocídio?

Enquanto em Diário da queda essa ansiedade está ancorada na tradição (familiar, judaica), em A maçã envenenada ela faz parte da malha de coincidências a costurar as memórias que marcaram o narrador nos anos 1990: o suicídio de Kurt Cobain, o genocídio de Ruanda, a morte da ex-namorada Valéria, sua própria quase tragédia pessoal. A maçã reflete sobre a validade dessas coincidências como forma de produção de identidade. Mas a ansiedade é também outra coisa: o desejo de “vomitar a maçã”, como diria o garoto prodígio no famoso conto de Salinger. Ou seja, o desejo ansioso de capturar a ingenuidade (mítica) no âmago da experiência passada e inacessível, cuja corrupção pelo tempo é uma das coisas que a narração memorialística de Laub tenta investigar.

A ansiedade que predomina no romance opera mais ou menos assim: o fato das tragédias são exatamente isso — um fato. O suicídio de Kurt Cobain e a sobrevivência de Immaculée ao genocídio de Ruanda são fatos históricos insuportáveis pela sua carga de objetividade e distanciamento. Eles estão aí. Todo mundo fala deles. Ninguém consegue acessá-los. A maçã do conhecimento civilizatório individual em Salinger é, em Laub, a maçã de certa experiência histórica.

Ao interpretar o bilhete de suicídio de Kurt Cobain e as palestras sobre sobrevivência e fé de Immaculée em busca de um acesso direto àquelas experiências-limite, o narrador se decepciona: encontra apenas manifestações de subjetividade, interpretações insuficientes deles próprios sobre as próprias experiências. O mesmo acontece com a interpretação da letra de Drain you, do Nirvana. A subjetividade sendo tão propensa a falhas, ela encontra no narrador um questionamento sistemático: O que eu estava pensando quando… Faz diferença se eu tivesse feito isso ou aquilo em tal momento… O que resta então para quem se propõe a estabelecer sua própria autobiografia? Uma pretensão à objetividade. A maçã envenenada, como Diário, está repleto de variações da frase “Se alguém olhasse de fora, perceberia…”. É uma tentativa de dar corpo à memória sem incorrer em constrangimentos românticos.

Culpa
Ao contrário de Diário, A maçã ignora se sua autobiografia é escrita ou apenas um esforço de rememoração não registrado. De todo modo, a tensão é a seguinte: o narrador gosta de listar as referências objetivas que tem à disposição para montar uma imagem coerente de si mesmo. Mas há uma constante desconfiança de que isso não é o bastante, de que a vida verdadeira está em outro lugar: na perda das referências objetivas que as tragédias operam no indivíduo. Mas também em Valéria, que tem consciência desse jogo de aparências, que acredita que a experiência real de viver nesse planeta é a de se entregar completamente, mesmo se as aparências, as objetividades sejam eliminadas por uma ação devastadora qualquer — o tempo, a tragédia, a doença.

Lá pelo final do livro, Laub nos dá acesso direto à voz da personagem. Na verdade, o resíduo da voz de Valéria, já morta. Ela põe em xeque o próprio gesto autobiográfico do ex-namorado, ou seja, o gesto de valorizar uma vida com um carimbo — o da sobrevivência, o da literatura. Por outro lado, a voz do fantasma faz outra coisa: levanta a questão da confissão.

Você já viu tudo aos quarenta anos. O desencantado. O sábio que dispensa a piedade das outras pessoas mas não deixa de aproveitar essa piedade que aparece em tantas formas de recompensa. Que sujeito interessante ele é. O mistério é sempre charmoso. Quantos anos ele não viverá pendurado num enredo que diz respeito a alguém que já não está aqui.

Não seria um pedido de desculpas do narrador, personificado na voz da ex-namorada, a ela? (Ou para o leitor, tão ausente quanto o fantasma de Valéria?) Me desculpe por estar escrevendo minha autobiografia, é o que o parece estar sendo dito. Tanto é que, no momento da quase tragédia, ele deposita no fantasma a decisão do quase término abrupto da sua história. Ele não tendo morrido, agora é um sobrevivente culpado. A culpa está intimamente ligada ao próprio gesto autobiográfico. O que vai se estabelecendo clandestinamente é essa culpa. O narrador já nos avisou, porém de nada serve ele tentar se adiantar a nós. A culpa ainda está lá. O que é feito dela?

Repetição
Nirvana e o genocídio de Ruanda cumprem em A maçã uma função análoga a Auschwitz e Alzheimer em Diário, com a diferença de que neste a doença da perda da memória é um complemento simbólico essencial para um romance que tem como objetivo a tensão entre memória individual e histórica. Já no novo romance o projeto parece ser o de avançar nesses encaixes, descobrir novas relações entre temas a primeira vista tão díspares, enquanto investiga suas influências na vida “comum” do narrador. O problema é que, em A maçã, os dois temas raramente vão além da função de contraponto para a “tragédia que realmente importa [ao personagem]”. Uma coisa é, em Diário, essa afirmação ser transcendida pelo resultado final. Outra é a mesma afirmação ser uma verdade literal a respeito do romance em A maçã.

Tudo isso faz A maçã envenenada parecer um retrocesso em termos de projeto investigativo a Diário da queda. Não apenas isso, mas uma repetição. No final há quase o mesmo — se não exatamente o mesmo — movimento de mudança da primeira pessoa para a segunda, porém sem o rigor procedimental de Diário. O personagem muda? Não fica claro. O que parece que se quer justificado é o próprio gesto de se escrever a autobiografia, o romance, no seio de cujo processo tudo se encaixaria como resultado da força técnica do design, como um quebra-cabeça cujas peças são pedacinhos de memória numerados.

Não é que não haja força no romance. Valéria funciona muito bem como ponto de fuga, além de ser muito interessante em si. O problema é que a reiteração do aspecto inimaginável, impossível, incompreensível das tragédias e das situações-limite não causa nenhum impacto se aquele que se dedica a esses fenômenos está preso a um olhar que no fundo é familiar e familiarizante.

Foi dito que o romance é perturbador. Mas é a familiaridade que realmente perturba em A maçã envenenada. O distanciamento, ao invés de causar estranheza pela “frieza” com que o narrador vê os temas, causa justamente seu efeito contrário: a familiaridade de uma espécie de abstração paralisante sentida por qualquer um prostrado em frente à TV assistindo a imagens de destruição e morte. É nosso mecanismo de defesa sobrecarregado diante da ameaça, ainda que distante e midiatizada, do apocalipse capaz de reverter tudo que entendemos como vida. A familiaridade dessa sensação vem do fato de que apocalipse é apenas a ameaça da morte do solipsista.

Velha engrenagem
“Mas o principal não é a tragédia, e sim os efeitos dela no indivíduo distanciado!” Porém, a distância não pode excluir ao menos uma forma de contato. Digo isso no espírito da frase de Frank Bidart: “We fill pre-existing forms and when we fill them we change them and are changed”. A maçã parece o relato de como esse contato foi infrutífero para todos os envolvidos. Na medida em que reflito sobre a trajetória do narrador, sua vida — a que os horrores servem de contraponto — vai se tornando diminuta e insignificante, arrastando justamente os contrapontos que a dimensionavam.

Valéria é onde ele se agarra para tentar estabelecer uma identidade. Mas ao final do romance, as palavras do fantasma continuam suspensas como um depoimento contra toda a narrativa, contra o gesto autobiográfico — a recompensa de que ela fala —, contra a sensação de que algo precisa ser feito, expressado, escrito. Não sei se extrapolo os propósitos de Michel Laub. Sei que não fui totalmente imune à força lírica descarregada no final, quando o personagem se entrega ao seu gesto desastrado de mudança. Mudar de vida é a verdadeira obsessão de Laub, e não fui insensível a isso. O problema é que, por exemplo, não consigo ignorar o que diz Coetzee — para pegar alguém caro ao autor — a respeito do gênero literário da confissão. Diz ele, em Stranger shores, que a diferença entre Rousseau e Dostoiévski é que o russo, “munido de insights profundos nos motivos por trás e nas demandas inerentes do modo confessional, destruiria as pretensões de Rousseau de atingir o verdadeiro autoconhecimento, revelando o verme da ambição no coração do desinteresse fingido da confissão secular”. Troque ambição por autovalorização via escrita e você tem o mesmo verme envenenando a maçã do novo romance de Michel Laub.

Culpa, como também disse Coetzee, é uma ótima moeda de troca. Quem confessa troca suas mais profundas torpezas pela nossa admiração irrestrita em ver alguém se desnudar. A maçã envenenada acaba sem querer revelando algo contemporâneo sobre o veículo onde ocorre essa transação: o quão familiar, complicado e confortável, como um sapato velho que não aperta o pé mas destrói a coluna, pode ser o manuseio dessa velha tecnologia. E é preciso mais do que técnica para não trair suas ferrugens.

Leia entrevista com Michel Laub.

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MICHEL LAUB

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Nasceu em Porto Alegre, em 1973. Escritor e jornalista, publicou cinco romances, como O gato diz adeus e Diário da queda, que teve os direitos vendidos para onze países. Ganhou os prêmios Bienal de Brasília e Bravo/Prime. É um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros da revista inglesa Granta.

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Michel Laub
Companhia das Letras
120 págs.