Dom Casmurro

março 2018 / Dom Casmurro / Luz

Texto publicado na edição #215

Luz

Conto inédito de Lesley Nneka Arimah

> Por Lesley Nneka Arimah

Ilustração: Raquel Matsushita

Ilustração: Raquel Matsushita

Tradução: Carolina Kuhn Facchin

Quando Enebeli Okwara soltou sua filha no mundo, ele não sabia o que mundo fazia com meninas. Ele não sabia quão rápido o orvalho dela evaporaria, como ela retornaria oca, sem as suas melhores partes.

Antes disso, eles viviam em Port Harcourt em uma casa pequena no antigo bairro de Ogbonda. A mãe da menina estava nos Estados Unidos fazendo Mestrado em Administração de Empresas. Ela já estava lá há quase três anos, durante os quais o botão-de-garota de onze anos floresceu. Enebeli e a menina sobreviveram a muitas coisas durante a sua ausência, incluindo uma confusão na feira que separou os dois por horas, fregueses correndo e no final eram apenas duas vendedoras em guerra que já não aguentavam mais a cara uma da outra. Eles sobreviveram a uma conversa sobre sexo, nascida de uma piada sem graça feita por um tio em um casamento sobre como a noiva ia levar um copo de vinho de palma para o noivo e voltar com um copo de, sabe, e a menina fez perguntas que ele achou melhor responder antes que ela perguntasse a alguém que se ofereceria para demonstrar. Eles sobreviveram à sanguinolência da primeira menstruação, quando ela provou que seu ciclo era tão intenso quanto o seu sono, o vermelho escorrendo até o outro lado do colchão. Eles sobreviveram à menina descobrindo que isso aconteceria todo mês.

Três longos anos se passaram. Agora ela tem quatorze anos e há um garoto e ele é o motivo de Enebeli estar sentado em um banco estreito feito para crianças no que deveria ser a sala de espera para a sala do diretor da escola, um corredor estreito com paredes pintadas de branco cintilante para desencorajar as crianças de arrastarem seus dedos sujos por elas, mas fala sério! A garota foi pega passando um bilhete para o garoto, e não foi a primeira vez. Enebeli já viu o garoto e, mesmo se colocando no lugar de uma menina de quatorze anos, não entende o interesse. Ele é meio baixinho. Ele tem uma orelha bem maior do que a outra. Dá para notar. A diferença é visível. Quem corta o cabelo dele costuma esquecer de umas partes e ele fica cheio de tufos irregulares. A única coisa protegendo o garoto de Enebeli é que ele parece tão confuso com o interesse da garota quanto o resto do mundo.

O diretor diz para Enebeli entrar e entrega para ele o bilhete que diz “Buki, eu te amo. Eu vou te dar muitos filhos”, e Enebeli precisa fazer muito esforço para não gargalhar. A quem ela puxa? Não à mãe, que tem um tipo mais quieto de personalidade e humor, nem a ele, que fica perfeitamente feliz sentado na beira de um rio, observando a água passar. Ele promete castigar a garota e garante ao diretor que isso não acontecerá novamente. Acontece mais duas vezes até a garota aperfeiçoar sua técnica de passar bilhetes. E ele deveria castigá-la, ele sabe, mas ela era a sua chama mais luminosa e ele não faria nada para baixar esse fogo.

A mãe da garota tenta corrigi-la, mas muito se perde na transmissão pelos fios, e a sua longa ausência diluiu a influência que uma mãe deveria ter. Essa é uma das coisas sobre as quais Enebeli e a esposa discordam, treinar a garota, o que acaba aumentando o abismo entre eles.

No primeiro mês depois que a mãe e esposa foi para os Estados Unidos, a família se ligava e conversava várias vezes ao dia. A mãe e a menina tinham seus momentos, cheios de lágrimas e de saudades, e o marido e a mulher tinham seus momentos, também cheios de lágrimas e saudades, mas com algumas outras coisas além disso, como “meu corpo sente sua falta” e “eu só preciso de trinta minutinhos” e “quando é que você vem pra casa”.

Ela tinha feito uma visita no primeiro feriado mais longo, o Natal. Enebeli memorizou o cheiro dela e a sensação de tocar no seu cabelo. Ele muitas vezes se pegava olhando para ela. Eles dormiram muito pouco, recuperando o tempo perdido. Quando o retorno dela para os Estados Unidos se complicou devido a atrasos e questões relativas ao visto, eles decidiram que ela não deveria visitar novamente até terminar os estudos — seu primeiro grande erro. Houve alguma discussão sobre a garota acompanhar a mãe — elas não tinham se desgrudado durante a visita —, mas Enebeli vetou essa possibilidade e a esposa cedeu. Eles sabiam que, dos dois, ela conseguiria seguir em frente sem a filha, mas Enebeli murcharia como uma planta sedenta.

Então a garota ficou e eles aprenderam a sobreviver, mas para uma relação crescer, a outra deve sofrer, e Enebeli percebeu o quanto as conversas via Skype entre a garota e a mãe estavam definhando. Eram conversas amigáveis, preenchidas por novidades e atualizações de uma situação ou outra, mas já havia no ar o sopro de um distanciamento, como se a menina estivesse falando com a tia preferida, que ela amava, é claro, mas com quem nunca falaria sobre um garoto, por exemplo.

Aos quatorze anos, a garota é quase uma mulher, mas é, ainda, uma garota, e a mãe está tentando prepará-la para o mundo. Pare de rir tão alto, querida. Como é possível que eu consiga te ouvir mastigando aqui dos Estados Unidos? Como assim o Papai fez o café da manhã, você já tem idade para cozinhar. A distância entre mãe e filha se alargou até o ponto de a garota não gostar mais de falar com a mãe, ver a atividade como uma tarefa.

E por falar nisso, o pai e a garota dividem as tarefas, os dois meio desajeitados, os dois intimidados demais pela empregada mal-humorada para mandar que ela faça as coisas. Ela passa a maior parte do dia assistindo ao canal Africa Magic, esfregando o mesmo azulejo até ele estar brilhando, e quando ela não está fingindo limpar, a empregada fala com a garota em voz baixa, sussurros, e Enebeli não se preocupa, afinal, elas estão dentro de casa, e não lhe parece que elas possam arranjar muito problema ali. São apenas conversinhas, ele dizia para a esposa. Mas a esposa está amedrontada, pensando que a garota está aprendendo tudo errado sobre como se portar no mundo, e ela insiste e insiste até que Enebeli manda a empregada de volta para a sua aldeia. A garota fica hostil com a mãe depois disso e espera de braços cruzados pelo final das ligações via Skype, e a mãe se torna mais implicante, preocupada que a filha não entenda que ela só está tentando ajudá-la a crescer. Que roupa é essa que a garota está vestindo? Ela tem que sentar com os tornozelos cruzados. Por que é que o cabelo dela está assim, quando foi a última vez que ela fez um relaxamento?

Enebeli não sabe responder as perguntas sobre o cabelo e a esposa solta um suspiro e diz que vai ligar para a irmã. Isso deixa Enebeli receoso. A cunhada é uma mulher assustadoramente competente que tem três filhos educados e obedientes e os recursos necessários para cuidar de outra criança. Há anos ela tenta se apoderar da garota. Em um momento de mágoa e pânico, Enebeli compra um pote de produto para relaxamento e aplica no cabelo da garota, massageando o creme no seu couro cabeludo como se fosse um hidratante, e o cheiro faz os olhos dos dois lacrimejarem. Ao enxaguarem o produto, metade do cabelo da garota sai em tufos macios que vão pelo ralo em um redemoinho, como peixes cabeludos.

A irmã da esposa não fala nada sobre a bagunça química feita no cabelo, nem sobre a casca de ferida na testa da garota, mas a traz de volta com o cabelo raspado rente ao couro cabeludo, e vira a cabeça dela para um lado e para o outro, exibindo o resultado, e todos, até a mãe, concordam que a cabeça da garota tem um formato bonito e que, sim, ela está linda. Mas daí a mãe dela estraga tudo, dizendo que mal pode esperar para o cabelo crescer e ela se parecer com uma menina de novo. Isso dá início a outra discussão entre o marido e a esposa, leve, no início, mas logo explosiva, e a distância age de certa maneira, anulando o carinho e o contexto e a história, e os dois sentem que estão discutindo com um estranho.

A garota para de falar com a mãe e durante uma semana a esposa implora para que ele tente amolecê-la, e ele concorda. Mas na verdade ele gosta que a garota esteja assim, tão brava com a mãe quanto ele, então não faz nada. Não importa; a garota não tem talento nenhum para guardar rancor, e logo já está de volta às conversinhas. Mas o espaço entre mãe e filha aumentou para abarcar algo como cautela, um elefante de desconfiança e constrangimento. A garota sente tudo isso, não quer que esteja ali, e numa tentativa de diminuir essa distância, confessa para a mãe sobre o garoto. Pendura as virtudes dele como luzes de Natal — ele é mais baixo que ela, então tem que obedecê-la, ele está finalmente aprendendo a beijar direito — e a mãe cala a sua boca dizendo, de forma triste, que não sabia que tinha criado esse tipo de garota. Essa é a primeira vez que a garota percebe que o mundo exige algo diferente do que ela é. Essa percepção a abafa por alguns dias, mas ela retorna, mesmo que agora tenha um pouco menos de luz.

E Enebeli não diz nada quando a esposa comunica que recebeu uma oferta de emprego nos Estados Unidos — a gerência em um pequeno fundo de investimentos. No início dessa história, todos haviam concordado que quando ela se formasse, voltaria para casa e arranjaria um emprego bacana no qual receberia um salário muito maior do que o justo, por ter um diploma estrangeiro.

Um tempo depois, mesmo sabendo o que isso faria com ele, ela vai pedir que a garota seja mandada para viver na América, onde seu pulso vai ser mais firme. Ele vai contestá-la. Ele vai usar palavras cruéis que nunca pensou que usaria, como se uma parte dele soubesse que a filha nunca mais seria a garota que é agora.

Mas antes disso tudo, antes de os anciãos serem consultados, antes de até mesmo o seu pai ficar contra ele, e da sua única aliada — inesperadamente — ser a irmã da esposa. Antes de ele sucumbir à pressão de três gerações nas suas costas. Antes de ele chorar em público no aeroporto Murtala Muhammed, um choro que sacode seu corpo todo e atrai preocupação e ofertas de água de pessoas que passavam. Antes de ele passar as noites no quarto da garota, sentado entre as outras coisas que ela deixou para trás, contando a diferença de fuso horário até que eles pudessem falar no Skype. Antes de ela voltar da escola e aparecer na tela com a aparência mais desanimada do que nunca. Antes de ele tentar animá-la com histórias sobre o menino doente de amor que fica perguntando sobre ela. Antes de ela olhar por cima da tela, como que aguardando instruções, e responder “Por favor, Papai, não fala assim comigo”. Antes de ela se tornar amedrontada sob os cuidados de uma mulher que a ama, mas não consegue compreendê-la. Antes de ela se aquietar em um país que recompensa o seu tipo de coragem, em seu corpo tão negro, com uma fascinação incrédula que a faz escondê-la. Antes de tudo isso, ela tem onze anos e está sentada com Enebeli nos degraus de casa, assistindo às pessoas passarem em frente ao portão velho. Eles estão jogando azigo, e sempre que a garota faz uma boa jogada, ela se gaba de maneira nem um pouco elegante e grita “Te peguei!”. Ele ri todas as vezes. Ele ainda não se pergunta de onde ela tira todo esse fogo. Ele só sabe que é isso que mantém os lobos afastados e que ele nunca pode deixar que se apague.

Print Friendly