Dom Casmurro

junho 2019 / Dom Casmurro / Luna Vitrolira

Texto publicado na edição #230

Luna Vitrolira

poema inédito de Luna Vitrolira

> Por Luna Vitrolira

como um eco dos porões do navio
estão a dar com pau

por onde quer que eu passe
o mundo parece meio esclarecido

— mercado negro
— magia negra
— buraco negro
— ovelha negra
— mas que negro bonito
da cor do pecado
de traços finos

alguém disse de peito cheio
como se fosse elogio

— me respeita que eu não sou tuas nega
— seu nego safado

e se à vista não parece claro
decerto foi denegrido

como um pente desses de dente fino
que não passa

na carapinha
no mafuá
na piaçava

quando a coisa fica preta
arma branca não mata

cuidado com a lista negra
inveja branca tá liberada

se algo for proibido
carta branca é autorizada

se houver confusão
bandeira branca amor
a paz é instaurada

eu é que sou a mulata
filha de meia tigela
sem eira nem beira
nasci com um pé na cozinha
e o samba do criolo doido nas pernas

*

invisível como deus
ou um planeta órfão

como um copo esquecido
ao lado do sofá
cheio de formigas

como lixeira de banheiro
que transborda

alumínio de fogão
velho na cozinha

como a vó que sofre
de uma doença rara
e se amontoa
como roupas sujas
pilhas de prato

quem sabe até aquele garfo
que se escondeu debaixo do armário
atrás da geladeira
madeira podre
escorada no asfalto

chave que ninguém viu

Invisível como o amor
a fé e a salvação

como a morte
um pensamento
ou a raiva de Medeia por Jasão
que não era lá tão invisível

invisível como esse poema
ou vista como exceção

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