Dom Casmurro

outubro 2011 / Dom Casmurro / Lugares incertos

Texto publicado na edição #129

Lugares incertos

1. Se você pudesse me ver agora. As mãos ossudas e os braços finos tentando agarrar o ar, dar a […]

> Por CRISTHIANO AGUIAR

Ilustração: Tereza Yamashita

1.
Se você pudesse me ver agora. As mãos ossudas e os braços finos tentando agarrar o ar, dar a ele uma forma — minha tentativa estabanada de ilustrar com o corpo aquilo que não sei.

As palavras equivalem às correntezas: nos movem e nos cantam em mistério.

2.
Sento em uma cadeira, tecido azul desbotado, cheia de rangidos. Em cima da mesa, ao lado da minha mão direita, descansa um famoso poema escrito na Grécia Antiga:

— Parta. — Disse o general ao poeta. Sua voz estava fraca e os olhos, desistentes. As grandes mãos do militar, molhadas de sangue, seguravam os ombros do amigo. — Tomarão minha armadura de bronze, meu cavalo e meu escudo; ordenei ao que sobrou dos homens o último ataque. Tu, porém, deves voltar à Cidade e lembrar. Honre-nos: não fomos covardes.

Assim que a aurora surgiu, o poeta saiu do acampamento. Levava água, provisões, uma espada e a lira. Caminhou sem parar por entre pedras, arbustos secos e oliveiras até chegar a uma caverna, na qual entrou em busca de um breve descanso e proteção.

— Estão seguindo-te.

Falou do fundo da caverna uma voz tenebrosa, bafo podre e dentes enfileirados. Era um manticore — patas afiadas, cauda de escorpião.

— Eu sei. Notei há um dia.

— Não há esperança para ti. Sou mais forte; pelo cheiro, sei que ele também é.

O monstro não mentia. Os manticores não conhecem a mentira: são aquele tipo de canalhas éticos, escravizados pela praticidade e fome.

— Posso matar teu inimigo, se tu me fizeres uma promessa, em juramento. Quero tua voz.

— Não aceito.

— Por quê?

O poeta começou a cantar. Sempre há um pouco dos homens nas feras e foi a esta humanidade que o poeta e a lira cantaram. O manticore abaixou a cabeça e fechou a bocarra. Imediatamente, o poeta seguiu viagem; o inimigo estava próximo e não se preocupava mais em se esconder. Usava magia para que os próprios passos fossem mais longos que o tempo. O poeta decidiu parar. Sabia que desta maneira escolhia enfrentar a noite e o inimigo juntos. Não poderia perder a luta. Se caísse, cairiam os nomes de todos os seus companheiros; em poucas horas, os guerreiros que deixava para trás — naquele momento massacrados por lanças com pontas de bronze, que arrancavam seus maxilares e rompiam fígados — poderiam continuar a ser homens, ou ser nada. Mais uma vez, cabia à injustiça das espadas a decisão.

Em pouco tempo, o inimigo chegou. Estava menos cansado e era, de fato, mais forte. Carregava uma espada e uma lira. Desembainharam as armas e lutaram: a terra levantou-se; dentes à mostra, lua refletida nas lâminas, sangue, metal. Seu inimigo, quase como se tivesse má vontade, feriu-o mortalmente. O poeta caiu no chão e o sobrolho do outro carregou-se.

— Tu és poeta como eu. — Disse-lhe o algoz. — Encomendaram a tua morte. Desde que saí das tendas, decidi que não te mataria. Porém a tua morte veio, mesmo assim.

— Por quê?

— Tu morres, mas deixa que eu lembre por ti. Juro pelos deuses que serei fiel à tua história e ao teu povo: sendo fiel às tuas palavras, morro um pouco e este é o sacríficio que farei em tua honra.

O poeta mortalmente ferido começou a cantar: os nomes dos guerreiros voltavam. Ensinar ao outro o poema, porém, não tinha sido, de maneira alguma, uma rendição. Um inimigo, mesmo que seja um leitor, ainda é um inimigo. Assim que o poeta terminou de cantar, seu assassino, autor do poema em cima da minha mesa, caiu fulminado de cegueira.

3.
Depois de folhear o poema, fui à janela do quarto. Minha impressora terminava de imprimir B., o famoso texto teatral do romantismo alemão, de autoria do genial W., falecido aos 23 anos de complicações causadas por uma queda de cavalo. Ao morrer, W. deixou sua peça inacabada. Estudante de medicina e noivo de uma aristocrata famosa pelas belas tranças e temperamento difícil, o poeta gostava de se vestir impecavelmente e usar perfumes caros. Dominava as minúcias dos códigos de etiqueta daquele tempo, a ponto de ser conselheiro das altas damas da sociedade. Admirador da Revolução Francesa, participou de um clube dos Direitos Universais do Homem.

A viúva não gostava da peça, por causa do sentimento de desamparo que tomava conta de sua alma quando a lia. Semanas após o enterro, amigos do poeta foram visitá-la. Admiravam B. e pediram que lhes emprestasse os originais, pois queriam encená-la. Intempestiva, a viúva rasgou uma das páginas e a lançou pela janela. Teria rasgado tudo, se não a tivessem impedido.

Dois anos depois, realizou-se a primeira encenação de B., feita por um dos amigos de W. Mas não era o texto que seu autor teria aprovado, pois o amigo encenador não admitia que o mundo contido na peça pudesse ser daquela maneira. O sucesso foi imediato, mas outro amigo, revoltado com o que considerou uma traição, decidiu fazer uma montagem que se aproximasse o máximo possível do texto original. O sucesso foi ainda maior do que o anterior, um sucesso desconfortável. Com o passar das décadas, havia tantos B. quanto as pessoas quisessem, pois circulavam versões conflitantes da mesma obra publicadas por diferentes editoras.

Um pouco antes da Primeira Guerra Mundial, B. foi descoberto em outros países e encenado tanto por partidos de oposição, quanto por partidos governistas. Eram tempos diferentes dos meus, nos quais havia a certeza do bem e do mal. A oposição acusava a situação de explorar o povo e usava trechos da peça como metáfora desta denúncia; os partidos governistas usavam uma versão didática da peça para alertar do perigo que seria se a oposição chegasse ao poder. B., graças aos dois partidos, se transformava em um monstro.

No entre-guerras, tornou-se um texto inaceitável: suas palavras sempre pareciam profetizar o inimigo. Durante o nazismo e o fascismo, tornou-se urgente que B. fosse exterminado e varrido da face da Terra. Seu protagonista era fraco e, quem sabe, judeu, ou cigano, ou árabe, ou mulato; o mundo da peça era feio e contrário a um futuro de geometria e anjos. A SS começou uma caça aos livros e ao manuscrito. Após serem proibidas, as edições da peça foram queimadas naqueles autos-de-fé que eu e você, Alice, vimos várias vezes nos filmes. Sobrou apenas o manuscrito, confiscado e colocado aos cuidados de um ex-professor de literatura, membro da SS, daquele tipo que pode ser chamado de “poeta municipal”. No entanto, quando as páginas manuscritas — folhas amassadas, escritas numa caligrafia miúda que se apagava, caligrafia ruim — foram lidas por ele, sua fé se perdeu.

“E agora?”, ele pensou, temendo pela sua vida e a de sua família. Naquela noite, ao jantar, observava a família de olhos claros e loiros cachos. Um pé tropeçava no outro: o ex-professor ainda acreditava que o texto era pernicioso, um músico desafinado a ameaçar o equilíbrio da orquestra, mas sua nova fé, vazia e profunda, sem sóis, porém serena, o obrigava à traição. No lugar de destruir o texto, decidiu estudar e imitar a caligrafia de W. e por fim escreveu um falso B. (secretamente, achou sua peça melhor que o original, mas sua fé era tão firmada, que reprimiu esta heresia com todas as forças), que encaminhou aos fornos crematórios no lugar do original. Logo depois que a guerra acabou, enviou o manuscrito para amigos na França e ela foi republicada, porém numa tradução imprecisa.

É esta a versão que chega às minhas mãos, à medida que a imprimo: segura e morna; estátua sem cabeça.

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