Paiol Literário

janeiro 2013 / Paiol Literário / Luci Collin

Texto publicado na edição #101

Luci Collin

  No dia 13 de agosto, o Paiol Literário — projeto realizado pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de […]

> Por PAIOL LITERÁRIO

 Luci Collin

No dia 13 de agosto, o Paiol Literário — projeto realizado pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná — recebeu a contista, poeta, tradutora, professora e musicista curitibana Luci Collin, autora de livros como Inescritos e o recém-lançado Vozes num divertimento. Numa conversa com o escritor e jornalista José Castello, mediador do encontro, e o público que compareceu ao Teatro Paiol, Luci apontou as diferenças que percebe entre a formação de um músico e a de um autor literário, falou sobre os problemas enfrentados pelos tradutores no Brasil, discorreu acerca do futuro da literatura na internet e relembrou seu intenso convívio com várias gerações de escritores curitibanos.

• Comunhão de emoções
A definição de literatura talvez prescinda dessa intenção de mudar o mundo. Eu diria que, pela promoção da reflexão e da comunhão, a literatura pode, em grande parte, mudar coisas. Não sei se tomamos esse verbo “mudar” com aquela perspectiva de uma literatura revolucionária que tínhamos no século 19. Hoje, a literatura se insere na sociedade de uma maneira muito diferente; historicamente, como muitas outras artes, ela tem um alcance muito diferente. Por isso, temo um pouco essa generalização de “mudar o mundo”. Que mundo? Em que momento ela o mudou? Como ela é hoje? Eu diria que a literatura muda a vida das pessoas, talvez não definitivamente. Ela pode injetar reflexão, pode levar a mudanças muito significativas em um âmbito individual. A literatura muda o indivíduo. Mas a gente tem que ser bastante realista. Não dá para querer que o papel da literatura seja o de mover montanhas. As coisas mudaram. A literatura, no entanto, tem este poder, tem este potencial: ela trabalha com as emoções, é uma comunhão de emoções. Então, em alguma medida muito significativa, ela vai mudar coisas. O que ela mudou na minha vida? Mudou tudo. Tenho uma trajetória modesta em produção, ela já tem uns bons anos. Publiquei meu primeiro livro em 1984, já se vão algumas décadas. Tive uma formação musical. Comecei pela música, muito pequena, aos sete anos, com o piano; depois, passei para a percussão. Mas cheguei àquele momento crucial da escolha. Muitas pessoas conseguem levar duas artes ao mesmo tempo. Eu, infelizmente, não consegui. Escolhi a literatura. E ela mudou a minha vida.

• Imposição da literatura
Trabalhei muito tempo na área de música. Fui professora de piano e também toquei como percussionista, inclusive na Orquestra Sinfônica do Paraná. Mas chegou o momento em que, de fato, a literatura se impôs. Foi quando decidi fazer meu mestrado. Falei: “Olha, está complicado”. E, no meu caso, estava complicado de uma maneira muito específica, porque a música me emocionava de um modo e a literatura, de outro. Eu tinha os meus conflitos, uma incompatibilidade de sensações que cada uma dessas artes gerava em mim. Então, optei pelo estudo da literatura, optei por dar seqüência às minhas intenções como escritora. Quando decidi profissionalmente tomar esse caminho, vieram também os caminhos da tradução, da docência, do ensino. Profissionalmente, a música é bastante difícil. Acho que qualquer profissional de artes enfrenta um panorama muito complicado. Mas, na música, é uma dificuldade. Eu tinha estudado percussão clássica. E há uma grande dificuldade para se inserir nesse mercado. Então, fiz uma opção, mesmo. Disse: “Não. Meu estudo vem até aqui e, daqui para frente, eu vou me dedicar à literatura”.

• Sintomas estranhos
Como é a formação de um músico? Como é a formação de um escritor? Ainda não temos uma idéia de formação de escritor. Só agora começamos a ter oficinas de criação literária, sessões de leitura… Formação de escritor é coisa recente. Há dez anos não era tão popular. Já a formação de um músico, desde muito pequeno, é extremamente rigorosa. Exige uma dedicação de horas de estudo, de técnica, de aperfeiçoamento. E o que um escritor faz? Com sete anos, você sente que tem certo talento para a literatura. E, aí, você se põe a praticar sonetos? Não existe isso. Há certa precariedade na formação do escritor. Digamos que você tenha dois filhos. Um deles estuda violino e resolve se trancar no quarto, onde passa oito horas tocando o seu instrumento. Totalmente normal, não é? Ele pratica aquilo. Mas se o seu outro filho quiser se trancar oito horas num quarto para escrever, você já liga para o médico. Sintomas estranhos, não é? Não existe essa noção de formação de escritor. Não é “saudável” uma pessoa ficar praticando a escrita. Agora vou confidenciar uma coisa: com a minha formação em literatura, imitei um pouco minha formação musical. Quando eu era adolescente, achei importante esse tipo de prática. Por que não me dedicar? Estava tão habituada. A música é uma coisa solitária. Quando você está na orquestra existe certa solidão, mas, de qualquer forma, há o convívio com os colegas. Nesse sentido, naturalmente a literatura é muito mais solitária. Mas, de qualquer modo, tentei de alguma forma transpor toda aquela experiência para a literatura. Acho que aquela disciplina, aquela prática, tudo aquilo faz sentido, ou deveria fazer sentido, dentro da formação de um escritor.

• A musicalidade do texto
Algo que salta aos olhos de quem lê qualquer um dos meus livros: é impossível dissociá-los de toda a minha formação musical. E nem haveria por que fazer isso. Na verdade, essa noção de literatura no papel, enquanto entidade silenciosa, não é uma noção primitiva. É artificial, portanto. A literatura era oral, era cantada, era um objeto social, um objeto de transmissão, era a unidade de uma tribo, era o xamã que a entoava. O xamã tinha uma intenção encantatória. A poesia era o quê? Era os mantras, as rezas. Pois a poesia é isso até hoje. Só que, fatalmente, nosso histórico jogou a literatura só para o papel. É muito embaraçoso, principalmente aqui no Brasil, você dizer: “Vou declamar um poema”. Nossa, é uma vergonha. É uma coisa ridícula, não é? Ninguém declama um poema. Você não chega a uma festa e declama um poema. Quem faz isso é o chato, não é? Mas o que aconteceu? Amputamos esse elemento essencial da poesia e da literatura. Essa noção melódica, de proximidades sonoras, de você criar uma reverberação sonora, criar redes… E veja os melhores escritores, principalmente na poesia, veja os clássicos: eles não abandonam essa noção – e mesmo os modernos não a abandonam. Então, voltando à minha experiência, essa musicalidade dos meus textos é deliberada. Não foi só natural, mas sempre muito deliberada. Por que não escrever uma literatura melódica? Rítmica? Até de uma maneira exacerbada. Eu costumo, aliás, escrever e ler ao mesmo tempo, em voz alta. Nenhum texto meu existiu, para mim, apenas como livro impresso. O texto é uma entidade sonora.

• Livro na montanha
Tenho um amigo que é um grande poeta americano, Gary Snyder. Venho convivendo com a obra dele há muito tempo e, enfim, tive a felicidade de conseguir traduzi-lo. Uma vez, ele me contou que iria lançar um livro que havia levado 40 anos para escrever. A imprensa estava muito curiosa para ver a obra. Por e-mail, Gary me disse, na época: “Luci, vamos fazer o lançamento desse livro aqui onde eu moro, numa montanha”. Ele mora numa região de deserto na Califórnia. E eu pensei: “Vai fazer um lançamento de livro ao ar livre, numa montanha?”. Ele: “As pessoas vêm para cá, acampam, e vou atravessar a noite fazendo a leitura do meu livro para elas”. E eu pensei: “Aqui, no Brasil, que poeta que lançasse essa idéia teria público?”. Quando meu amigo me contou isso, confesso que fiquei com pena. Imaginei as pessoas pegando seus carros e indo a uma montanha. Ele ainda falou: “A gente vai cobrar ingressos”. Pensei: “Coitado, de certo a mãe dele vai aparecer, a mãe sempre aparece, não é? Meu Deus, que despropósito”. Porque não é uma coisa da nossa realidade. Mas respondi: “Ah, que bom. Boa sorte e tal”. Semanas depois, ele me contou: “Olha, o lançamento foi um sucesso. Vieram três mil pessoas”. Então, penso que a força da palavra está aí para ser explorada. Infelizmente, no Brasil ainda não temos isso como tradição.

• A culpa do tradutor
A tradução literária é extremamente delicada. Ela é problemática, não só por conta da própria tradução. Há toda uma rede de significados que, por si só, já é bastante sofisticada. Mas, paralelamente a isso, existe outro enorme problema, que é o da venda, o do mercado dos livros traduzidos. O que a gente faz com o tradutor? A gente o condena porque ele não consegue dar conta de todos os elementos de um livro. Mas a nossa realidade, para o tradutor, é patética. Às vezes, ele tem que trabalhar a toque de caixa, recebendo muito pouco por lauda. Hoje, nós temos tradutores fantásticos no mercado, pessoas que podem escolher o que querem traduzir, que podem passar um ano envolvidas em um processo de pesquisa. Enfim, temos traduções muito boas. Mas, via de regra, a nossa crítica à tradução ainda é muito recente, não é? Nós ainda temos dificuldades com a crítica literária como um todo – imagine com a crítica à tradução. É coisa de, quando muito, duas décadas para cá. Então, a situação é um pouco ingrata para o tradutor. Em sua leitura, em sua intenção de transpor, com certeza ele tem que dar conta de todos os elementos melódicos de um texto. Mas até que ponto isso é possível com esse mercado? Nossa realidade ainda não permite que os tradutores tenham toda essa liberdade. Até financeiramente, essa realidade é árdua, a vida de um tradutor ainda é difícil. Talvez cheguemos algum dia a uma situação mais confortável, em que possamos dar conta disso tudo. Mas, infelizmente, ainda abrimos livros e vemos que aquilo precisou ser traduzido às pressas. E é muito injusto culpar o tradutor. É toda uma realidade complexa.

• Uma só
É meio perigoso dizer isso em público, mas não acredito em literatura inglesa. É algo que herdei da minha experiência com a música. Você pode dizer: “Eu prefiro”. Mas, em relação às artes plásticas, você não vê só quadros de holandeses, não é? Obviamente, existem as línguas, os idiomas em que os livros são escritos, mas isso é menor do que a minha noção de literatura. É perigoso uma professora de literatura de língua inglesa dizer isso, mas tenho uma noção maior de literatura. Naturalmente, por força da profissão, leio muito mais autores ingleses, autores de língua inglesa. Mas nunca tive por hábito ler apenas ingleses, nunca fui fascinada só pela literatura inglesa. Não acredito nisso. Sempre freqüentei muitas outras literaturas. Eu gosto muito da literatura francesa, por exemplo. Na minha formação, há muito mais franceses do que ingleses. Mas a literatura-arte é uma só.

• Autores marcantes
Que autores me marcaram? A primeira presença muito forte – não a primeira cronologicamente, mas a imprescindível – foi o nouveau roman. Muitos autores, ali, me impressionaram. E também os seus desdobramentos para o teatro do absurdo. A proximidade entre o existencialismo e o absurdo. Reverencio toda essa produção, muitos de seus autores. Tem um que leio muito, a quem volto sempre e com interesse renovado: Ionesco. Acho absolutamente genial. Eu li muitos livros de Balzac porque era o que tínhamos em casa. Então, gosto até hoje de lê-lo, é uma parte da minha formação. Mas, em relação ao meu trabalho, à minha produção, existem nomes muito marcantes. Escritores que são referência enquanto feitura de texto. Uma escritora que me impressionou muitíssimo, sempre e até hoje, foi Gertrude Stein. Nem vou usar a palavra “influência”, porque essa minha relação com ela é mais de “interesse” pelo fazer literário. Agora, o Moacyr Scliar fez recentemente uma crítica muito injusta a ela. Disse que é uma escritora de uma frase só: “Uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Não é exatamente isso, mas infelizmente ela passou para a história da literatura como sendo não muito mais que isso. E o que me impressiona na obra de Gertrude Stein é que ela é enorme, ainda tem muita coisa inédita. E quando digo “enorme”, é porque a autora escreveu nos três gêneros e produziu mais de 500 obras. Quer dizer, ela passou a vida escrevendo. É isso que me impressiona. Gertrude Stein seria uma referência para mim em relação à sua postura. A gente pode dizer: “No modernismo, temos T. S. Eliot e James Joyce”. Enfim, uma lista de autores grandiosos. Gertrude Stein não tem esse status, mas poucos se aproximaram, não só no modernismo, mas na história da literatura, da beleza e da seriedade da sua postura – que é a da literatura enquanto filosofia, da literatura enquanto novidade. Não aquela novidade banal, de você criar meramente para ser uma novidade. Não. A postura da literatura enquanto desequilíbrio. Da literatura que desestabiliza o leitor. Lembro perfeitamente que, quando comecei a ler Gertrude Stein, seus livros me causavam constrangimento. Eu falava: “Que é isso? O que essa mulher quis com essa obra?”.

• O (des)encanto do cânone
Você tem que passar por certos escritores. E os escritores são meio refratários a isso. “Não, não leio o cânone.” Como é que você pega um aluno de música? Você tem exercícios, você tem os clássicos, você toca os românticos, você aprende sobre o barroco. Você tem compositores, você tem contemporâneos. São linguagens com as quais você convive. Na literatura, isso podia ser imitado. Um escritor, um aspirante a escritor de formação, tem que passar por certos escritores. Tem que conhecê-los. Para ter uma visão crítica mais sólida. Aí, vem esta surpresa: nem sempre o cânone vai encantá-lo. Às vezes, é exatamente quando o cânone não o encanta que você descobre algum outro nome, alguém que vai levá-lo a coisas muito mais inspiradas.

• Curitiba literária
A minha experiência com a cidade de Curitiba em relação à literatura aconteceu antes do lançamento do meu primeiro livro, em 1984. Era uma Curitiba muito diferente da Curitiba de hoje. Foi naquela Curitiba que eu pensei: “Sou uma estreante de 19 anos, preciso chamar a atenção. Não sou conhecida nem nada, mas gostaria de mostrar meu trabalho às pessoas. Que pessoas?”. Fui procurar as já consagradas no meio literário. Não só em Curitiba, mas no Brasil todo. Mas, aqui em Curitiba, fiz questão de mostrar meu trabalho para a velha guarda, escritores que já estavam com 70, 80 anos, muitos deles ainda ligados à tradição do simbolismo, a uma tradição do século 19. Posso fazer uma longa lista de nomes. Helena Kolody, por exemplo, foi uma presença muito forte nesse meu convívio com Curitiba. O professor Erasmo Piloto também, que me chamou para conhecer sua biblioteca e me disse: “Luci, você tem que conhecer Jorge de Lima”. Até hoje, sou fascinada pela obra de Jorge de Lima. E também havia Valfrido Piloto, Graciette Salmon, Pompília Lopes dos Santos, João Manoel Simões.

• Geração 80
A geração que correspondia à produção dos anos 80 me era muito próxima. Era a geração de Paulo Leminski, com a qual convivi por conta de uma situação pessoal, que considero uma daquelas sortes da minha vida. Tenho um tio, irmão da minha mãe, que é artista plástico, Rogério Dias. Hoje, ele é um nome bastante respeitável e reconhecido, não só aqui em Curitiba. Foi considerado o primeiro hippie da cidade. Quando solteiro, meu tio morou muitos anos conosco e, por isso, era muito natural que estivessem na minha casa vários amigos do meu tio, já para o café da manhã. Apareciam Fábio Campana, Rettamozo, Marcos Prado, Leminski, Cláudio Seto. […] Era o domínio daquela geração que ainda se inspirava em toda uma cultura importada da geração beat americana, de Hollywood, de James Dean. Era tudo uma grande novidade para Curitiba.

• Três nomes
Em Curitiba, quais foram os nomes que me impressionaram? Vou citar três, que até hoje considero essenciais para a minha noção do que minha cidade pode produzir. Valêncio Xavier, que tem uma obra extraordinária, uma presença muito forte, uma contribuição muito importante. Jamil Snege, um cronista que conseguiu compreender a cidade como uma dimensão poética, uma dimensão existencial. E Manoel Carlos Karam. Eu alinho esses três nomes quando você me pede: “Descreva esse meio”. Nós temos uma produção louvável, com grandes nomes. É desnecessário a gente falar de Cristovão Tezza, do próprio Paulo Leminski, de Alice Ruiz. Mas, para mim, em relação ao tipo de literatura que eu faço, isso não chega a ser minha preferência. Que linha de frente eu tomo? Esses três nomes são essenciais. Mas não posso dizer que fui influenciada pela obra deles, mesmo porque eles despontaram num momento em que eu já publicava, no final dos anos 80.

• Valêncio, Jamil, Karam
Acho Valêncio Xavier absolutamente genial, não só em Curitiba, não só no Paraná, nem só no Brasil. E por toda essa sua contribuição, por todos esses instrumentos que ele usa: colagem, montagem, justaposição, aquela sua noção de movimento. Mas o mais importante em Valêncio Xavier é que ele usa todas essas noções técnicas com uma liberdade e uma simplicidade extraordinárias. Isso é o que distingue a sua obra. Ele não é hermético. Poderia ser um camarada sofisticado. Mas não é. Ele consegue trabalhar com elementos extremamente sofisticados e fazer uma literatura muito agradável, muito inteligente, muito irônica, muito presente. Não apenas uma literatura bonita. Jamil Snege, como eu disse, é um grande cronista. Tem essa inteligência de saber narrar. Suas crônicas são estudos de bom gosto. Karam também se aproxima dos outros dois por sua simplicidade, e eu acho isso o máximo. Quando um escritor consegue um tipo de transcendência, ele a atinge com uma linguagem aparentemente simples, porque o trânsito entre o leitor e o autor é muito direto. No entanto, no Karam você encontra elementos preciosíssimos. Você se surpreende com a profundidade das reflexões filosóficas que ele joga dentro de frases aparentemente simples. Essa capacidade de inserir princípios e noções filosóficas importantes em um texto, com uma simplicidade de linguagem, é uma habilidade fora do comum.

• Cidade retrógrada
E a Curitiba de hoje, como é que funciona? Não estamos no eixo. Temos aquela noção do Jamil de que há certa invisibilidade rondando a expressão artística de Curitiba. Mas não tenho a menor amargura em relação a isso. Acho que não. Há pessoas que saem de outros lugares para vir a Curitiba. Inclusive, sob muitos aspectos, esse isolamento pode ser benéfico. Eu acho isso muito interessante, mas também não podemos fugir de uma realidade histórica de Curitiba. Por conta da própria formação do lugar, a gente cai em velhos chavões. Isso é fato. Curitiba ainda é uma cidade provinciana. Nós temos números: dois milhões de habitantes, sei lá. Mas Curitiba ainda é muito retrógrada. Historicamente, não só em relação à literatura. Curitiba tem problemas. Ela rejeita intenções mais dinâmicas. A gente pode ver isso em várias artes. O próprio modernismo demorou um pouco para chegar aqui. Em 22, a gente ainda não estava entendendo o que era o modernismo.

• Cenário poderoso
As novas gerações contam com um cenário muito poderoso dado pela internet. Hoje, você tem uma mobilidade quase cósmica. Acaba sendo até irrelevante o lugar onde você está. Você não tem mais limitações, e isso é importante. É um beneficio muito grande. Porque eu estou aqui em Curitiba e não posso me lastimar: “Ó, não há nesta cidade uma situação ideal para que a minha pessoa se desenvolva”. Para que serve o meu livro? O meu livro vai embora. Essa noção do livro que vai fazer a sua parte, que vai dialogar com os leitores fora daqui, da minha cidade, isso se aproxima do que a internet faz. Então, a internet tem um lado muito bom. A gente vê uma explosão incrível. E isso é maravilhoso para a linguagem.

• Futuro
No futuro, possivelmente teremos escritores melhores. Melhores em que sentido? Por conta da tecnologia, eles terão que ser mais hábeis. Por quê? Não cairemos aqui naquela velha coisa de nos lamuriar: “O livro vai morrer”. Não vai, não. O livro não vai morrer, mas eu penso o seguinte: à medida que essas novas gerações de escritores e leitores forem absorvendo essas novas técnicas, as demandas para um autor mudarão de uma maneira muito radical em relação ao que fazemos hoje. […] É muito perigoso, muito temerário, dizer que a literatura, em relação à tecnologia e às outras artes, está numa posição mais retraída. Mas infelizmente está. Por quê? Hoje, qualquer música ruim, estruturalmente ruim, tem uma base boa por conta da tecnologia. Às vezes, um músico sozinho monta uma orquestra. Então, a música se beneficia disso. A música eletrônica, hoje, tem coisas fantásticas. Mas a literatura ainda está retraída. Então, essa absorção de uma realidade virtual é uma grande esperança para a literatura redescobrir a si mesma. O escritor do futuro precisará ser genial pois terá uma demanda de vários enredos, a caracterização mudará. Isto é muito importante: sempre aparecem técnicas diferentes nas artes plásticas, novos conceitos na dança. Enfim, a literatura vai passar por isso. Já está passando, mas é um processo muito lento, muito demorado.

• Despregar-se do papel
Que os jovens de hoje estão escrevendo melhor, acho complicado dizer. É complicado pensar assim, só na qualidade. Mas, se eles estiverem escrevendo mais, já é melhor. O que acabava acontecendo? As pessoas escreviam e ficavam anos tentando publicar aquilo. Isso é catastrófico para um escritor, porque assim ele não tem uma interlocução, não tem nada. Escreve e não consegue mostrar o que escreveu a ninguém. Isso acabou. Hoje, dadas as devidas proporções, você tem um blog, você tem um site, você tem uma revista eletrônica. E isso incrementou enormemente essa noção de ser lido. É uma revolução na literatura. O próprio Leminski saía zanzando por aí com o seu Catatau – e ele não levou anos para poder publicá-lo? Os grandes nomes do modernismo também levaram muito tempo para publicar. Joyce é um bom exemplo. Hoje não. Você já pode dar vazão ao que escreve e a crítica que vem como retorno é essencial. Agora, nós usamos melhor a palavra. Para o bem e para o mal. É claro que, quando há um volume maior de coisas sendo expostas, haverá coisas boas e coisas ruins. Mas, como um todo, acho que a situação é muito melhor hoje. Você pode conversar com o seu leitor. Pode, pelo menos, mostrar o que escreve para ele. E os mecanismos para se mostrar isso são fantásticos. Essa coisa de a gente se despregar um pouco do papel é maravilhosa.

• Fenômeno internacional
A gente não pode fugir disto: as pessoas estão escrevendo. É um fenômeno internacional. As pessoas estão escrevendo muito, em todos os lugares. No ano passado, me dei ao trabalho de começar a anotar todas as vezes que, na porta do meu gabinete na universidade, havia um jovem escritor. E isso é lindo. As pessoas estão vendo a literatura como uma coisa possível: “Olha, eu escrevo”. Porque, antigamente, a noção de você vir a ter um livro era muito remota. Eu tive uma experiência, uma vez, de publicar, de imprimir eu mesma um livro. Eu queria muito colocar ali as letras e as palavras, imprimir página a página. O esforço de todo aquele processo era incrível. E, hoje, você tem facilidades. […] É bom que as pessoas estejam escrevendo muito. As pessoas estão se emocionando e querendo emocionar. É isso que significa escrever. É um momento especialíssimo na história.

• Necessidades vitais
Por que eu escrevo? Porque o momento existe – isso eu não posso dizer, já foi dito. A gente tem necessidades vitais. Escrever, para mim, é uma maneira de me expressar. Eu escrevo buscando uma forma para os meus pensamentos filosóficos. Aí você vai ler um livro meu e dizer: “Puxa, que pretensiosa. O que tem de filosófico nisso?”. Acho que se trata de um filosófico contemporâneo do que estamos vendo por aí. Então, por que é que eu escrevo? Por uma franca necessidade e também uma franca vontade de comunicar algumas percepções, não é tão mais do que isso. E por uma franca intenção de comunhão. Eu acho que a gente percebe coisas e quer dividir essas impressões. E o que me possibilita isso, o que me possibilita refletir e criticar, é a palavra escrita. Então, preciso de meios para ser no mínimo convincente e no máximo conveniente. Preciso de técnicas para isso, preciso conhecer o meu meio. E existe esse momento de elaboração. A gente não faz livros só de idéias, ou só de sentimentos, ou só de coisas que quer dividir. Há toda uma combinação. E a minha vontade primeira é esta: que eu saiba meu oficio de uma maneira que possa transmitir essas coisas, que possa sensibilizar as pessoas, e que elas me sensibilizem também.

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