Dom Casmurro

setembro 2018 / Dom Casmurro / Luci Collin

Texto publicado na edição #221

Luci Collin

Dois poemas de Luci Collin

> Por Luci Collin

Acontecido

buscava a outra claridade
aquilo do invisível que o gato vê
aquilo de esmero na confusão do jardim

buscava o outro ouro
aquilo do magma no exercício de fundir-se
aquilo do frescor num recitar juramento

buscava o outro final da saga
aquilo de soprar deixas no escuro
aquilo de fundar os dogmas juntos

buscava a outra simetria
aquilo de imortal na ode ao rosário
aquilo de avocar a rescisão das jaulas

além de tudo buscava
cavalos já saciados numa fortuna
de pasto de verão e de afago

além de tudo buscava
a mesma boca a mesma sede fecunda
no querer da mesma água
num só trago
Incombinados

esta algazarra dentro do peito
esta noite longuíssima
o sinal que fecha
e eu tanta pressa
essa valsa em que se tropeça
eu tentando segurar as águas
querendo soltar as rédeas
regando o que quer que seja que fosse
e esse estar alheio a tudo que é de fora
esse dia cheio de tantas horas
o sinal que abre e eu a marcha lentíssima
cena editada esse iceberg no meio da estrada
tal o inesperado abraço no vagão do metrô
e vem taquicardia mas é retrô e só rima
fanfarra tal gambiarra no meu peito
essa prece indébita tal mal súbito
a alforria que foi parar no lixo
esse lapso esse colapso
a praxe do trocadilho
esse não faz isso
esse está feito
esse vício

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