Sob a pele das palavras

setembro 2017 / Sob a pele das palavras / Lua à vista, de Paulo Leminski

Texto publicado na edição #208

Lua à vista, de Paulo Leminski

O poeta relembra a assombrosa catástrofe que foi a Segunda Guerra Mundial

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Ilustração: Paulo Leminski por Osvalter

Ilustração: Paulo Leminski por Osvalter

lua à vista
brilhavas assim
sobre auschwitz?

Na seção Desarranjos florais, de Distraídos venceremos (1987), Paulo Leminski publicou os versos acima. Com sete palavras e uma interrogação, com estrutura semelhante a um haicai, o poeta relembra a assombrosa catástrofe que foi a Segunda Guerra Mundial, sobretudo, mas não só, quanto ao genocídio dos judeus promovido por Hitler e sua comparsaria, com fúria na década de 40 do século 20, embora os campos de concentração existissem desde os anos 30.

O poema de Leminski é uma espécie de literatura de testemunho: a imagem central e contundente do poema — ao perguntar à Lua se seu brilho é o mesmo sempre, independentemente das situações e dos valores que, de longe, ilumina — abala a ideia de neutralidade do artefato poético. A universalidade do horror impregna a aparentemente leve estrutura do poema de poucas sílabas e sem título. Mesmo décadas depois, tendo nascido apenas um ano antes do término da guerra, em 1944; mesmo num país, distante da Alemanha e da Europa, encravado noutro continente e com agruras próprias; mesmo sem nunca ter colocado os pés na Polônia, região onde se encontra Auschwitz e de onde, com orgulho, gostava de dizer, provinham suas origens, o poeta dispõe o que tem para perquirir a história: palavras arranjadas. Por elas, desrecalca-se um passado violento e bárbaro, que não se quer nunca mais. Mas passado que jamais se foi — e não ter ido embora faz desse fantasma pretérito um espanto constante e um perigo real no nosso cotidiano: se Auschwitz virou um museu de lições, espaço agora aberto à visitação turística, as guerras e os genocídios se perpetuam, não só de forma assaz visível (Iraque, Nigéria, Síria, Palestina, Afeganistão, Rio de Janeiro), mas também de forma “menos ofensiva” à sociedade (mendicância, fome, tráfico, trânsito, corrupção, miséria), ainda que tão cruel quanto sua face exposta.

Aqui, a Lua — além de sua literalidade fanopeica: satélite a brilhar — ocupa, metonimicamente, o próprio papel da poesia. Como se a questão posta fosse: poesia, não vais fazer nada diante do que testemunha? Vais posar de vestal, etérea e eterna, enquanto a peste se alastra? Vais continuar enfeitando o mundo, musa longínqua, cúmplice de crimes? Desse impasse — a irredutibilidade de a poesia “acontecer” sem compromisso com mais nada a não ser consigo mesma vs a imperiosidade de exercer função social relevante no sentido de atuar em direção à justiça no mundo; em síntese, o caráter autotélico da poesia diante da urgência da ação ética —, desse impasse deriva a célebre afirmação de Adorno: “Escrever um poema após Auschwitz é um ato de barbárie, e isso corrói até mesmo o conhecimento de por que hoje se tornou impossível escrever poemas”.

Por um processo algo esdrúxulo de personificação, a Lua atravessa séculos e séculos no nosso imaginário ocidental como um modelo bastante heroicizado: bela, misteriosa, inatingível, inspiradora, poderosa. A Lua cheia, em especial, suposto “personagem” do poema leminskiano, multiplica para si esses atributos mitificadores. Até o século 20, antes da desromantização de certos clichês, a Lua rivalizou com flores, mar, nuvens, pássaros, ondas, olhos, coração etc., entre os signos que mais encharcaram o estro dos poetas. Ainda hoje, a Lua cheia paira, monstruosa, imperial, sobre a imaginação massiva e pasteurizante da estética do idêntico.

Depois de 1949, quando escreveu a polêmica afirmação em Crítica à cultura e à sociedade, Adorno retorna a ela ainda, em 1962, no ensaio Engagement, e em 1967, em Dialética negativa. O filósofo endurece e chama à responsabilidade a produção de qualquer gesto lírico e cultural — responsabilidade comprometida crítica e criativamente, que não ofenda os mortos: “Toda cultura após Auschwitz, inclusive a crítica urgente a ela, é lixo”. Tanto quanto na afirmativa primeira, também a reflexão teórica, histórica, filosófica se põe na berlinda: o pensamento moralmente responsável deve ter na sua formulação a dimensão mesma do envolvimento ético. É com essa indignação que, em forma comprimida, Leminski ecoa: “lua à vista/ brilhavas assim/ sobre auschwitz?”.

O abalo que Leminski realiza na imagem pura, mítica, quase unânime em torno do signo “lua” ganha ressonância na fala de Italo Calvino que, em Seis propostas para o próximo milênio, diz: “Desde que surgiu nos versos dos poetas, a Lua teve sempre o poder de comunicar uma sensação de leveza, de suspensão, de silencioso e calmo encantamento”. Contra esse milenar encantamento que se encantoa bem longe dos problemas humanos, Leminski investe, sem amaciar. A expressão “à vista” reforça a ideia de “Lua cheia”, dada a maior luminosidade que tal estado proporciona. Não espanta — pela alta beleza da Lua que se exibe, ancestral — a absurda quantidade de obras que viram e veem no astro um mote inspirador.

O uso da segunda pessoa, “[tu] brilhavas”, confirma o tom sério e cerimonioso do poema, como se o verbo quisesse, pelo tratamento protocolar que incorpora, manter uma distância semelhante à que o satélite tem do nosso planeta. Os sentidos de “brilhar” não escondem segredos: fulgurar, luzir, sobressair, seduzir pertencem ao campo afim das possibilidades semânticas. Sendo “assim” um dêitico, isto é, algo que se liga “ao momento e ao contexto situacional da enunciação, sem os quais o sentido da frase frequentemente fica incompleto” (Houaiss), tal termo se vincula aos elementos anteriores (“lua”, “à vista”, “brilhavas”). O “assim”, desse modo, intensifica a grandeza e a beleza da Lua e de seu brilho, expondo o contraste entre a beleza mitopoética da Lua e o massacre histórico de Auschwitz.

Ainda o dicionário informa que “sobre” em geral “assinala situação de superioridade em relação a um limite concreto no espaço”, como, por exemplo, a Lua em relação a Auschwitz. Estar “sobre”, pois, ratifica literalmente o status do satélite e, de certo modo, embora incomparáveis, ratifica a hierarquia de um elemento (a Lua: universal, mítica, etérea, natural e distante) sobre outro (Auschwitz: particular, histórico, concreto, cultural e entregue à própria sorte). Há, hoje, farto material sobre “auschwitz”. Possivelmente, o insight do poeta para escolher “auschwitz”, e não outro símbolo da ação do mal, deve ter aliado a solidariedade mundial em relação à memória dos mortos e à dor dos sobreviventes dos campos de concentração mais o fato de o poeta reconhecer-se como tendo um “coração de polaco”, relembrando que Auschwitz se localiza em território polonês: “meu coração de polaco voltou/ coração que meu avô/ trouxe de longe pra mim/ um coração esmagado/ um coração pisoteado/ um coração de poeta”.

No final de seu artigo Arte in-útil, arte livre, em Anseios crípticos, Leminski dirá: “Para Adorno, a grandeza da arte está em sua capacidade de resistir ao estatuto de mercadoria, em situar-se no mundo como um ‘objeto não identificado’. Em sua recusa de assumir a forma universal da mercadoria, a arte, a obra de arte é a manifestação, em seus momentos mais puros e radicais, de uma negatividade”. Em síntese, o que o poema de Leminski faz é contestar a imagem estereotipada da lua e, assim, todo o senso comum e o conformismo daqueles que a tal coisificação romantizada se rendem. Por extensão, o poema rememora a barbárie da Shoah, do genocídio, do holocausto que Auschwitz, para sempre, representará. E rememora para que, em respeito aos milhões que morreram e morrem, um poema como este não precise se repetir. No entanto, o retorno — em forma de pergunta — mostra que o trauma permanece e que a barbárie está próxima, entre nós, cinzenta, cada vez mais à vista.

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