Dom Casmurro

abril 2020 / Dom Casmurro / Lorna Goodison

Texto publicado na edição #240

Lorna Goodison

Seis poemas de Lorna Goodison

> Por Lorna Goodison

Lorna Goodison, poeta jamaicana

Lorna Goodison, poeta jamaicana

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Guyana lovesong

I, torn from the center of
some ladies’ novel
drift a page across strange
landscape.

Resting on open-faced lily-pads,
melting in slow rain canals,
sliding by sentinel grass in
a savanna,
I crossed the mighty Rupununi
River,
returned limp on the bow of
a ferry.
Timheri.
The way to calm in your eyes.
The river without guile in your
eyes.

Wash over the edges of your woman’s
sorrow.

Time is one continent till tomorrow.

Canção de amor da Guiana

Eu, arrancada do miolo
de um romance para mulheres,
página à deriva atravessando desconhecida
paisagem.

Descansando sobre lírios abertos,
dissolvendo-se nos canais de garoa,
deslizando sobre capinzais vigilantes
de uma savana,
atravessei o poderoso rio
Rupununi ,
e retornei, vacilante, na proa de
uma balsa.
Timheri .
O caminho que acalma seus olhos.
O rio, sem artimanhas, em seus
olhos.

Lavar todas as bordas das suas mágoas
de mulher.

O tempo, até amanhã, é um continente.

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Wedding in Hanover

The elected virgins
bathe together

gather by the traditional
river
the same water
that calmed my mother
on the morning they gave her
to my father

Roseapple scented
is the bridal path,
is the amniotic color
and the mountains
lock our purdah

The bride is nubile
bless her
small high belly,
may it rise
and multiply,
multiply

Later,
dressed in shades of
bougainvillea
newly cleansed by
the family river,
the elected virgins
attend her, and
the bride is virgin
as the river.

Casamento em Hanover

As virgens eleitas
banham-se, juntas

reunidas pelo tradicional
rio
a mesma água
que acalmou minha mãe
na manhã em que a entregaram
a meu pai

Tem aroma de jambo
o caminho da noiva,
a cor amniótica
e as montanhas
trancando nossa purdah

A noiva é núbil
abençoada seja
a barriguinha erguida,
que ela possa crescer
e multiplicar,
multiplicar

Depois,
vestidas com as sombras das
buganvílias
recém limpas pelo
rio da família,
as virgens eleitas
cuidam dela, e
é noiva é tão virgem
quanto o rio.

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Kenscoff

In Kenscoff Market the breeze brought spices
and Michelle sells broad-leaf mint, tibom.
And what do you sell Marcel?

Arum lilies pouting for deep rain kisses
and gladioli in colors of berries.
Would I have enough soap bars
the color of creole
for I sell soap bars

and I have built mansions of soap bars
and the wind whistles through my architecture.

My brother is chained in the iron market
he is a hacking artist of tourist keepsakes.
The others work on stone by moonlight,
they move gypsum mountains by hand,

some of us eat stone.

In Kenscoff market the breeze brought spices,
we pay for them with rain.

And a legend that Toussaint rides still.
Proof, the sobbing you hear is not the wind

it’s him.

Kenscoff

No mercado de Kenscoff a brisa tem o odor das especiarias
e Michelle vende hortelã de folhas grandes, tibom .
E o que você vende, Marcel?

Flores de Arum fazem beicinho para beijar a chuva
e gladíolos com a cor das amoras.
Se eu tivesse bastante sabão
da cor dos nativos
porque eu vendo sabão

e eu construí mansões com sabão
e o vento assobia através de minha arquitetura.

Meu irmão está preso por correntes, no mercado de ferro
ele é um artista, mercenário de suvenires de turistas.
E os outros trabalham sob o luar, com pedras,
eles movem, com as mãos, montanhas de gesso,

e há entre nós quem coma pedras.

No mercado de Kenscoff a brisa tem o odor das especiarias,
é com chuva que pagamos por elas.

E há a lenda de que Toussaint ainda cavalga.
A prova é o soluço que você ouve, que não é o vento

é ele.

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The mulatta as Penelope

Tonight I’ll pull your limbs through small
soft garments
your head will part my breasts
and you will hear a different heartbeat.
Today we said the real good-bye, he and I
but this time
I will not sit and spin and spin
the door open to let the madness in
till the sailor finally weary
of the sea
returns with tin souvenirs and a claim
to me.
True, I returned from the quayside
my eyes full of sand
and his salt leaving smell
fresh on my hands.
But you are my anchor awhile now
and that goes deep,
I’ll sit in the sun and dry my hair
while you sleep.

A mulata enquanto Penélope

Hoje à noite farei seus membros penetrarem por macias
e diminutas vestimentas
sua cabeça separando meus seios
e você ouvirá uma pulsação diferente.
Hoje demos o verdadeiro adeus, ele e eu,
mas dessa vez
eu não vou me sentar e fiar e fiar
a porta aberta deixará que entre a loucura
até que o marinheiro, enfim cansado
do mar
retorne, com lembrancinhas de lata, reivindicando seus direitos
sobre mim.
É verdade, eu voltei do cais
os meus olhos cheios de areia
e o sal dele deixando um fresco
odor em minhas mãos.
Mas você é minha âncora agora, e por um tempo
e ela descerá fundo, e eu
me sentarei ao sol, secando meu cabelo
enquanto você dorme.

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I am becoming my mother

Yellow/brown woman
fingers smelling always of onions

My mother raises rare blooms
and waters them with tea
her birth waters sang like rivers
my mother is now me

My mother had a linen dress
the color of the sky
and stored lace and damask
tablecloths
to pull shame out of her eye.

I am becoming my mother
brown/yellow woman
fingers smelling always of onions.

Estou virando minha mãe

Mulher marrom/amarela
dedos cheirando a alho

Minha mãe cultiva flores raras
e as rega com chá
as águas em que nasceu cantavam como rios
minha mãe agora sou eu

Minha mãe teve um vestido de linho
da cor do céu
e guardava toalhas adamascadas
de renda
para afastar, de seus olhos, a vergonha.

Estou virando minha mãe
mulher marrom/amarela
dedos cheirando a alho.

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O love you so fear the dark

O love, you so fear the dark
you so accustomed to fighting.
It only seems like the night
but it’s a veiled overture to light.
It is transitory love, it is passing.
The dagger, love, sheath it.
The bloodied dove, sweet, release it.
There is nothing to fear
it is dark only as your eyes
or my hair
and it is kind love
it leads to light
if you but knew it
only unarmed will you go through it.
Ah, amor, você tem tanto medo do escuro

Ah, amor, você tem tanto medo do escuro
você, que é tão habituado à luta.
Ele apenas se parece com a noite,
é uma fresta, com véu, para a luz.
Isso é transitório, amor, está passando.
A adaga, amor, embainhe-a.
A pomba ensanguentada, meu doce, liberte-a.
Não há nada a temer
não está mais escuro do que a cor dos seus olhos
ou do meu cabelo
e isso é amor tenro
que apontará a luz
se você pelo menos soubesse disso, que
só desarmado conseguirá atravessá-lo.

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