Inquérito

junho 2018 / Inquérito / Longe das frivolidades

Texto publicado na edição #218

Longe das frivolidades

26 perguntas a Miriam Leitão

> Por RASCUNHO

Miriam_Leitão

Miriam Leitão leva uma vida intensa entre o jornalismo e a literatura. Nascida em Caratinga (MG), em 1953, iniciou a carreira jornalística há mais de 40 anos. Passou pelos principais veículos de comunicação do país. Atualmente, mantém coluna n’O Globo, programa na Globo News e é comentarista da CBN. A rotina atrelada às notícias nunca a afastou do longínquo tema da redação escolar “o que eu quero ser”. Miriam queria ser escritora. Após publicar livros voltados à realidade do país, como o premiado Saga brasileira: A longa luta de um povo por sua moeda, inicia sua obra ficcional em 2013 com A perigosa vida dos passarinhos pequenos. Seguiram-se Tempos extremos (finalista do prêmio São Paulo), A menina de nome enfeitado (2014) e Flávia e o bolo de chocolate (2015). Ainda neste ano, lançará as crônicas de Refúgio no sábado (Intrínseca) e o infantil O mistério do pau oco (Rocco), além de uma edição revista de Saga brasileira.

• Quando se deu conta de que queria ser escritora?
Aos dez anos. O professor de português mandou fazer a tradicional redação “o que eu quero ser”. Eu achava que minha ambição era alta demais e fiquei acanhada. Ele me incentivou a escrever o que eu “realmente” queria ser. Fui sincera com ele e comigo. Então assumi que esse era o sonho maior.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Tenho que estar sempre rodeada de livros. Fiz uma cama com cabeceira tão grande que parece, às vezes, que durmo numa grande estante.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Leio jornais diariamente desde os 15 anos. Sem isso não posso fazer jornalismo. Mas poesia é imprescindível.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
O alienista, do Machado de Assis.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
O silêncio da madrugada é o ideal, mas já escrevi em circunstâncias adversas. Quando fica impossível conter a vontade de escrever.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
Com calma, sem as pressões nervosas do cotidiano.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Quando consigo fazer o trabalho jornalístico do qual eu gosto e ter tempo para literatura. Um dia abandonei a leitura de um documento árido do Banco Central, fugi para uma livraria para passear entre os livros, então escrevi uma poesia. Aí sim pude voltar para aquele texto desprovido de estilo e elegância que era o documento do BC.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
Não saber exatamente para onde o texto vai me levar. Quando me entrego às palavras, então eu sou feliz.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
Um barulho repetitivo do qual não se consiga abstrair.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
Escrever livros é sonho antigo e grande, que só nos últimos anos tenho realizado. Por isso, foco na alegria de estar publicando meus livros e fico sem tempo de pensar no que incomoda.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Mais do que um autor, eu queria que as editoras prestassem atenção aos contos. Sempre foi um grande gênero no Brasil.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Grande sertão: veredas é a maior das paixões. Se fico longe dele, sinto saudades. Tenho dificuldade de descartar mesmo os livros dos quais não gosto.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
O descuido.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
Frivolidades.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
De um quartinho, o menor que havia, numa fazenda centenária de Minas. Sem nada na parede, com espaço apenas para uma cama. Um lugar que parecia não ser inspirador. Muitos anos depois, foi aquele quarto que me veio à mente quando comecei a escrever Tempos extremos.

• Quando a inspiração não vem…
Escrevo diariamente e é bom. Quando a inspiração está comigo, é muito melhor.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Machado de Assis. Perguntaria sobre os sentimentos que teve em horas tristes. A raiva da doença, a razão de se isolar, suas dúvidas de autor. Pediria que me contasse daquele momento de júbilo quando foi às ruas ao fim da escravidão. Perguntaria se ele soube, ao escrever, que estava deixando uma obra permanente.

• O que é um bom leitor?
O que entende o que não está escrito.

• O que te dá medo?
Um mundo sem livros. Nos meses da prisão eu fui impedida de ler e era como se o ar me faltasse.

• O que te faz feliz?
A lista é grande. Quanto tempo eu tenho?

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
As dúvidas guiam meu trabalho. Duvido muito das certezas.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Precisão. A busca da palavra exata.

• A literatura tem alguma obrigação?
Reler para reduzir os erros. Esse trabalho é quase braçal.

• Qual o limite da ficção?
Ficção é o terreno da liberdade.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
Eu diria: leve-me ao seu líder porque quero pedir a ele uma entrevista exclusiva.

• O que você espera da eternidade?
Que haja por lá uma grande biblioteca.

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