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março 2014 / Eu recomendo / Livro do desassossego

Texto publicado na edição #168

Livro do desassossego

Vladir Lemos recomenda o poeta e escritor português Fernando Pessoa

> Por RASCUNHO

Segundo Fernando Pessoa, ou melhor, segundo Bernardo Soares, seu narrador principal, ajudante de guarda-livros em Lisboa, “há só duas grandes formas de arte — uma que se dirige à nossa alma profunda, a outra que se dirige à nossa alma atenta. A primeira é a poesia, o romance a segunda”. Acontece que o Livro do desassossego não cabe em nenhum dos dois casos. Há quem diga que foi ali que o autor esteve mais à beira de romancear. Tenho dúvidas, pois de tão abissal me parece também ter, antes de tudo, a alma dessa primeira forma, a poesia. Desassossego é um livro composto por fragmentos, mas fragmentos que no fim ofertam uma unidade retumbante. Teria sido batizado com esse nome, agora sim de acordo com o próprio Pessoa, por sua inquietação e incerteza que é ali a nota predominante. Trata-se de um Fernando Pessoa profundo, grandioso, propondo depois de dominado o mar físico ter chegado a hora de se dominar esse oceano de emoções que nos forma. É desses livros que teimam em nos perseguir depois, não querendo sair mais de nós. Eu recomendo.

Vladir_Lemos_168

Vladir Lemos, 46 anos, é jornalista, autor de livros e documentários. Entre eles, A magia da camisa 10, publicado em diversos países, e O homem que venceu o tempo, filme sobre a vida de Leonidas da Silva. É editor-chefe e apresentador do programa Cartão Verde, da TV Cultura/SP.

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Fernando Pessoa

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Nasceu em 1888, em Lisboa. Em 1914, escreveu os primeiros poemas de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis — seus famosos heterônimos. Sob o nome de Bernardo Soares, Pessoa escreveu os fragmentos mais tarde reunidos no Livro do desassossego.

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Fernando Pessoa
Tinta da China
608 págs.