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agosto 2015 / Fora de sequência / Literatura pós-colonial: mistura doce-azeda? (final)

Texto publicado na edição #184

Literatura pós-colonial: mistura doce-azeda? (final)

O jovem Ben abandonou a escola aos 14 anos e, três anos depois, concluiu o seu primeiro romance, recusado por […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

O jovem Ben abandonou a escola aos 14 anos e, três anos depois, concluiu o seu primeiro romance, recusado por seis editoras britânicas (e algumas africanas, que lhe recomendaram tentar escrever como Wole Soyinka, o prêmio Nobel nigeriano de 1986). Algum tempo depois, a editora Longman aceitou o livro, embora oferecesse apenas 300 libras como adiantamento a ser pago a um desconhecido negro de “inegável talento para descrever infernos raciais”. Quando esse dinheiro acabou, Okri se viu na rua, com um romance demorando demais para sair (dois anos) e a polícia a enxotá-lo de estações como aquela na qual os agentes da “segurança interna” executaram, sem mais nem menos, o eletricista brasileiro Jean Charles. Sim, porque Londres jaz profundamente mudada, pós 2001. Aliás, nada se parece com nada de antes — exceto na pele mais aparente do turismo que não sai de si mesmo — nas ficções de Okri ou de Vikran Seth, que estudou em Oxford e fez doutorado em Stanford (Califórnia), defendendo tese sobre a poesia chinesa na qual é especialista. Depois de Salman Rushdie (escorado menos no talento do que na onda da perseguição muçulmana movida contra seus Versos satânicos), foi Seth quem recebeu a maior quantia já paga a autor não-britânico ou americano, como adiantamento de direitos autorais por um romance: nada menos que um milhão de dólares pelo caudaloso A suitable boy (1.349 páginas).

Na world-fiction anglo-saxônica com o sabor oriental inesperado da cozinha literária doce-azeda, o nome que mais tem crescido na estima crítica talvez seja, neste momento, o de Hanif Kureishi (60 anos), filho de mãe inglesa e de pai paquistanês. O que não era nada bom, há seis décadas — e prossegue não muito promissor, digamos, e tendente a conformar o malcriado menino que, há 30 anos, mostrou um beijo LGBT entre um natural do Paquistão e skinhead branquinho da silva em A minha bela lavanderia, filme de 1985 do festejado Stephen Frears. Kureishi explica: “Gosto da ideia de que as coisas sejam arriscadas, sujas; gosto de explorar o sentimento de vergonha associado à imaginação pornográfica, de questionar a virtude, de ver até onde pode ir a selvageria do encontro de culturas em situações equívocas”…

Hanif é, talvez, o mais claro dos novos escritores ingleses envolvidos com os problemas enfrentados pelos imigrantes: “A sociedade e a literatura olham para o imigrante como um objeto, um boneco, e o discurso público que o descreve nos apresenta um zombie num jogo de vídeo. É mais ou menos como se nós víssemos os imigrantes confortavelmente a partir do sofá”. Foi o tema que o escritor defrontou, sem mais palavras, em artigo — intitulado The migrant has no face, status or story — para The Guardian: “O imigrante se tornou uma paixão contemporânea na Europa. Um ponto vago em torno do qual os ideias se conflitam. Facilmente disponível como símbolo, existindo por toda parte e, ao mesmo tempo, em lugar algum, ele é uma fonte de interesse como figura que migrou não apenas de um país para outro, mas da realidade para a imaginação coletiva onde se acha transformado numa ficção terrível”. (NB: Talvez Kureish queira fazer uma sutil alusão blakeana, aqui, ao poema O tigre?)

Já tendo sido classificado como o Philip Roth inglês pós-colonialista, o fato é que escreve o bastante sobre sexualidade e mulheres para merecer, de fato, a aproximação do americano, que Hanif aceita relativamente bem: “Roth também veio de uma comunidade minoritária, como judeu de Newark, e suas histórias têm a ver com essa comunidade. Realmente, temos isso em comum, porém não me parece muito correto dizer que espécie de escritor eu sou. Gosto de pensar que sou um escritor à minha maneira”.

Por um raciocínio mais sutil do que o das entrevistas (intermináveis?) com escritores imigrantes ou não, o que se deve reconhecer é que esse “não-lugar” dos escritores da Inglaterra pós-imperial os coloca em situações mais peculiares e/ou desconcertantes — num quadro novo demais para que possamos fazer análises inteligentes, certeiras e definitivas, enquanto a realidade se move e, provavelmente, é (como sempre) mais forte do que a ficção. Nada admirável (sobre certos aspectos), o mundo novo que surgiu das colônias libertadas, entretanto parece prometer, ao menos no campo literário, uma (des)simetria — sim — “terrível” no sentido do poema de um tigre que morde a mão do treinador de Elephant and Castle.

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