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julho 2015 / Fora de sequência / Literatura pós-colonial: mistura doce-azeda? (1)

Texto publicado na edição #182

Literatura pós-colonial: mistura doce-azeda? (1)

Foi-se aquele tempo no qual a literatura de Albion estava representada por britânicos geralmente de faces rosadas, vestindo tweed e […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

Foi-se aquele tempo no qual a literatura de Albion estava representada por britânicos geralmente de faces rosadas, vestindo tweed e bebericando sherry em clubes abafados onde corriam piadas sobre preferências sexuais e/ou fidelidades políticas de colegas britânicos até a medula como Somerset Maugham, Compton Mackenzie, Graham Greene, Lawrence Durrell e outros escritores retratados, nas orelhas dos livros, com fotos de típicos ingleses ironicamente sorridentes.

Citei esses quatro (e poderia citar E. M. Forster, Evelyn Waugh, Angus Wilson e outros) porque tal quarteto é, para bem ou para mal, profundamente britânico até na passagem comum pelos serviços de espionagem de Sua Majestade, que os empregou ora como elementos ativos, ora como agentes de ligação no vasto território das antigas colônias do Império algumas das quais viriam a lhes fornecer preciosos temas de novelas e romances dessa passada época visceralmente “anglo-saxônica” (?) na english literature.

Desde então, a perda de mandatos, protetorados e “zonas de influência”, na África e na Ásia, mudou esse cenário, substancialmente, em vários planos, e ela, a literatura da metrópole, transformou-se na world-fiction de Derek Walcott, Michael Ondaatje, Vikran Seth, Ben Okri, Salman Rushdie, Kazuo Ishiguro, Hanif Kureishi e outros escritores de língua inglesa reportando-se, nas suas obras, a países e contextos distantes ou, no mínimo, à Inglaterra multicultural de hoje, na qual pouco ou nada resta daquele “Reino Unido” pré-1947 (data da independência indiana), uma comunidade precariamente saída da Segunda Grande Guerra para as situações novas da Guerra Fria e para a desagregação interna que vem na sequência, sempre, de todas as derrocadas imperiais.

Escrevendo sobre o antilhano Derek Walcott (Nobel de 1992), o judeu-russo Joseph Brodsky laureado de 1987 definiu muito bem a situação crepuscular das civilizações e das culturas “cujos centros deixam de funcionar como tais”. Para Brodsky, “o que as impede, então, de se desintegrarem, não é a força, mas a língua. Foi isto o que aconteceu com Roma, e, antes dela, com a Grécia helênica. Nestas épocas, a civilização é sustentada por homens das províncias, de sua periferia”. (O som e a maré, J. Brodsky, 1993).

Desse modo, o inglês de Walcott (e dos outros estrangeiros citados e não citados) produz, hoje, uma literatura “mundial” vinda de Londres, Ontário e outras cidades da tal Commonwealth mantida pelo idioma legado às ex-colônias como um elo não frágil, porém à mercê das mentes. O inglês delas retorna, para o “centro”, de algum modo modificado pela visão de mundo da periferia, pelos costumes e pelas formas dialetais dos antigos colonizados em busca das suas almas divididas pelas frotas bem armadas e pelos canhões espalhados nos jardins melancólicos do Imperial War Museum que se esconde para além das imediações da velha Torre de Londres.

Nas mãos de Ben Okri um ex-sem-teto que a polícia britânica costumava flagrar lendo Crime e castigo (logo Crime e castigo!) na estação de Charing Cross (“porque era a mais quentinha”) —, Londres não poderia se parecer com a city de Graham Greene, menos de meio século depois de O fim de um caso totalmente inglês, ainda, como narrativa típica da angústia metafísica peculiar dos romances do pós-guerra, que atravessaram os anos de bombardeio devastador encontrando tempo para uma angústia metafísica que atrairia talvez poucos leitores na London deste 2015.

Filho de um ferroviário que gostava de discutir Platão, Okri nasceu na Nigéria (Minna, 1959), mas foi com menos de dois anos para a Inglaterra, quando seu pai ganhou uma bolsa para estudar Direito. Ele falou sobre as andanças continentais da sua família, ao repórter Hunter Davies, do The Independent: “Quando eu estava com sete anos, meu pai se formou em Direito e minha mãe anunciou que íamos voltar para a Nigéria. Contei para meus amigos da escola de Peckham, e eles disseram: ‘Você não deve ir pra África. Lá tem leões e as pessoas moram nas árvores’. Aí eu disse para a minha mãe que queria permanecer onde estava, mas não adiantou. Embarcarmos num navio, e fomos viver na Nigéria até a eclosão da guerra civil. Nunca conseguirei esquecer aquilo. Sei que os seres humanos são capazes de fazer qualquer coisa, porém o que eu vi supera tudo que você imagina que possa ocorrer no coração das trevas”.

CONCLUI NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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