Simetrias dissonantes

outubro 2019 / Simetrias dissonantes / Linhas grifadas e leituras abandonadas

Texto publicado na edição #234

Linhas grifadas e leituras abandonadas

O que existem são poéticas: futurista, surrealista, concretista, tropicalista etc.

> Por NELSON DE OLIVEIRA

Ilustração: Teo Adorno

Ilustração: Teo Adorno

Não existe uma estética futurista nem uma estética surrealista. Não existe uma estética concretista nem uma estética tropicalista. O que existem são poéticas: futurista, surrealista, concretista, tropicalista etc. A estética apresenta um caráter filosófico geral sobre a beleza e a arte, enquanto as diversas poéticas apresentam um caráter doutrinário específico, sempre transitório.

Tratados de estética são fascinantes. Mesmo o mais compreensível deles parece descrever uma atmosfera demasiado rarefeita e abstrata, completamente desligada do mundo concreto que habitamos. Isso ocorre porque a estética (reflexão filosófica sobre a beleza e a atividade artística) não se confunde com as várias poéticas (programas de arte) ou com as várias críticas (espelhos nos quais as poéticas e as obras se refletem), mais presentes em nosso dia a dia.

Um de meus tratados prediletos sobre o assunto, que consulto frequentemente, é Os problemas da estética, de Luigi Pareyson, lançado aqui pela editora Martins Fontes. Dividido em dez capítulos, o livro disserta sobre questões incontornáveis, entre elas, a natureza e a tarefa da estética, a definição de arte, conteúdo e forma, arte e vida, arte e moralidade, arte e utilidade, gosto pessoal e juízo universal, arte e sociedade, arte e história — meus temas preferidos nesse campo.

Quando perguntado o que é arte, Pareyson não enrola:

É um tipo de fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer. A arte é uma atividade na qual a execução e a invenção procedem pari passu, simultâneas e inseparáveis, na qual o incremento de realidade é a constituição de um valor original. Nela concebe-se executando, projeta-se fazendo, encontra-se a regra operando; já que a obra existe somente quando é acabada, nem é pensável projetá-la antes de fazê-la, e só escrevendo ou pintando ou cantando é que ela é encontrada e é concebida e é inventada.

Quando perguntado o que é uma obra de arte, Pareyson não embroma:

É um puro êxito, uma forma que vive por si mesma, uma inovação radical e um incremento imprevisto da realidade, alguma coisa que primeiro não era e agora é única no seu gênero, uma realização primeira e absoluta.

Quando perguntado qual a lei universal da arte, Pareyson não tergiversa:

Na arte, a lei geral é a regra individual da obra a ser feita.” (…) “A lei universal da arte é que na arte não há outra lei senão a regra individual. Isso quer dizer que a obra é a lei daquela mesma atividade de que é produto; que ela governa e rege aquelas mesmas operações das quais resultará; em suma, que a única lei da arte é o critério de êxito.

São tantas as passagens grifadas em vermelho que por pouco eu não grifei o livro inteiro.

Kate Whishaw, inimiga da humanidade
Quando fiz quarenta anos, comecei a perder duas manias cultivadas meticulosamente na juventude: jamais grifar passagens de um livro e jamais deixar uma leitura pela metade. Hoje eu leio sempre com uma stabilo vermelha pronta pra grifar as frases mais interessantes. E o que eu mais faço é começar e logo abandonar uma leitura desagradável ou desinteressante. Não só uma leitura. Filmes e séries também. A vida é curta, passa muito rápido. Não dá pra ficar perdendo tempo.

Posso garantir que até hoje não teve um só livro desagradável ou desinteressante que eu não tenha abandonado sumariamente, sem a menor culpa. A primeira exceção está sendo este romance de Reinaldo Santos Neves, que se tornou um problema em minha vida. Blues for Mr. Name oferece aos leitores dois elementos que eu rejeito fortemente na ficção científica brasileira. Mesmo assim não consigo parar de ler.

O primeiro elemento é a cultura anglófona. O segundo é a religião católica.

Logo nas primeiras páginas, ficamos sabendo que o romance de Reinaldo Santos Neves é protagonizado por uma jovem predestinada chamada Katherine Lee Whishaw, cuja aventura se desenrola nos Estados Unidos de um futuro indeterminado, onde o inglês ainda é o idioma oficial. Apenas isso já seria o suficiente pra que eu abandonasse a leitura. Como se não bastasse, Kate é uma católica devota, uma peregrina virgem temente a Deus, e sua demanda está encharcada da cosmologia judaico-cristã: dos mitos do Antigo e do Novo Testamento às lendas heroicas e exemplares do Ciclo Arturiano.

A diversidade da cultura brasileira — estou pensando na beleza dos mitos indígenas e africanos, das sagas sertanejas, de nossa música e nossa arte tropicais, de nossa miscigenação sensorial e cognitiva — é tão rica e tão pouco admirada por um público que prestigia muito mais a produção estrangeira, que não consigo ver sentido numa obra estrangeira de autor brasileiro. Preferia que Kate Whishaw se chamasse Iara Tupinambá ou Alaba Iorubá ou Tônia Conselheiro, que sua peregrinação fantástica acontecesse numa Pindorama ou numa Palmares ou numa Canudos futuras, e nossa fabulosa antropologia recebesse o destaque que merece.

Blues for Mr. Name tem um segundo título: Deus está doente e quer morrer. Essa é a missão principal da jovem Kate, que também é veterinária: colocar Deus pra dormir, como fazemos com qualquer animal doméstico que está sofrendo. Os capítulos são curtinhos, a primeira vez que abri o romance eu li três… E encostei o livro, incomodado com a anglofilia e o catolicismo. Porém, diferentemente do que eu imaginava, uma semana mais tarde tornei a abrir o danado. Li meio a contragosto mais três minicapítulos e voltei a encostar o livro, novamente incomodado com a anglofilia e o catolicismo.

Tempos depois, notei que eu já havia lido, homeopaticamente, sem perceber, um terço das quatrocentas e tantas páginas do livro. Sempre incomodado, sempre desgostando. Na verdade, sempre desgostando e gostando. Depreciando e apreciando. Porque o romancista é um mestre da linguagem poética, um estilista incomum que sabe construir períodos e parágrafos ora comoventes ora inquietantes, enfim, porque Reinaldo Santos Neves é sem dúvida alguma um ficcionista talentosíssimo. E a misantropa e não-amada Kate Whishaw, mesmo não sendo brasileira, é uma das personagens femininas mais cool da literatura brasileira.

A solitária Kate, filha de uma prostitua eclesiástica, virgem inviolável e invencível, uma dos Últimos Moicanos da Igreja Católica Romana, sabe que tem ao seu redor um grande antagonista, que é a humanidade inteira, decaída e doente.

Hoje cheguei à metade do romance. Agora, gostando muito mais do que desgostando. Então podemos dizer que esta é uma meia resenha. Quando eu terminar de ler Blues for Mr. Name, escrevo a outra metade, finalmente trazendo detalhes do enredo.

Sim, meu exemplar está cheio de trechos sublinhados pela stabilo vermelha.

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