Dom Casmurro

fevereiro 2020 / Dom Casmurro / Linda Hogan

Texto publicado na edição #238

Linda Hogan

Cinco poemas de Linda Hogan

> Por Linda Hogan

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Humble

Where the road ends,
where the land ends,
where layers of earth history
are revealed by the constant talking
of the sea,
a solitary house stands in ocean spray.
Once filled with life, no one lives here.
All is abandoned, yet it still makes a stand
in the place where the people of the whale lived.
You’d think whatever forces there are
would at least have taken this into their arms,
embraced in love,
but even stars come apart
in the play of universal wind.
I love this house of unrest,
the handiwork ever to be outdone
by the carpenter of wind,
the craftsman of waves.
As for me, loving the lone house
perhaps because it is so like the body,
that other amazing architecture waiting,
also believing the world should open its arms
and hold it in a great kindness,
not merely to be salt and skin, dissolving
day by day.
Humildade

Onde termina a estrada,
onde termina a terra,
onde camadas da história da terra
são reveladas pela fala incessante
do oceano,
a casa, solitária, resiste diante dos borrifos do mar.
Um dia repleta de vida, hoje ninguém mora aqui.
Tudo abandonado, mas ela ainda se impõe
no lugar onde viveu o povo da baleia .
Você fica pensando em que forças
por fim permitiram que eles tomassem isso nos braços,
envolvidos por amor,
mas mesmo as estrelas se afastam
no jogo do vento universal.
Eu amo este lar de inquietude,
o trabalho, sempre por fazer
da carpintaria do vento,
do artesanato das ondas.
Quanto a mim, amar a casa abandonada
talvez porque ela é tão assim como o corpo,
aquela outra fantástica arquitetura que espera,
também a acreditar que o mundo deveria abrir os braços
e abraçá-lo, com ternura,
e não ser apenas sal e pele, se desfazendo
dia após dia.
The unseen

If you think I am going to write about someone’s god,
that’s a mistake. I am sitting by wild strawberries
no yet blooming. An emerald-green frog believes it can’t be seen
under the leaf. The insects it wants sing, also unseen,
and mourning doves in the distance
think I am not here with a silent song,
not even to interrupt morning’s eye wide open.

In the very near water, even with open eyes
I missed the leap. Fish, I didn’t see you, either.
The reeds grow and I am missing that, as well,
and the animal that just broke a fallen twig.

On the large stone is a petroglyph
of a mountain goat. It is covered with lichen
and barely visible like the moth that appears to be stone,
in its refuge.

I see so little and know so little.
Perhaps that is a kind of wisdom,
but if nothing else, at the very least
I am not alone in the world
of the unseen.
Os invisíveis

Se você pensa que vou escrever sobre algum deus,
está enganado. Estou sentada junto a morangos silvestres
ainda por desabrochar. Um sapo verde-esmeralda crê não poder ser visto
sob a folha. Os insetos que ele cobiça cantam, também invisíveis,
e pombas-rolas, ao longe
pensam que não estou aqui com uma canção muda,
nem mesmo para interromper os olhos muito abertos da manhã.

Na lagoa aqui perto, mesmo com os olhos abertos,
eu perco o salto. Peixe, eu também não o vi.
Os juncos crescem e eu também perco isso,
assim como perco o animal que acaba de quebrar um galho caído.

Na pedra grande existe uma pintura rupestre,
um cabrito montês. Ela está coberta de musgo
e mal se vê, como a mariposa que se disfarça de pedra,
em seu esconderijo.

Eu vejo tão pouco e sei tão pouco.
Talvez isso seja um tipo de sabedoria,
mas, se não for por nada mais, no mínimo
eu não estou sozinha, no mundo
dos invisíveis.
The directions

The river is on the left
moving toward the infinite
heartbeat of ocean,
on the left where the willow road bends.
It too will continue on as something
there, where the mountain rises alone
with all its life
just as unfinished
joining the morning wind on its flyway,
the inway of wind
blowing the ever-growing grasses
to their knees,
and the shadow of birds
cross on their way
to becoming
something else.
Another country
with the wind.
As instruções

O rio está à esquerda
movendo-se rumo ao infinito
pulsar do oceano,
ali à esquerda, onde a estrada do salgueiro faz a curva.
Seguirá adiante como alguma coisa
que está lá, lá onde a montanha se ergue, única
com toda a sua vida
que é tão inacabada,
juntando-se ao vento da manhã, em seu voo,
o vento que vem
soprando os ramos de capim que não cessam de crescer
deixando-os de joelhos,
e a sombra dos pássaros
atravessa seus caminhos
para se tornar
uma outra coisa.
Um outro país
com o vento.
What I think

It is peaceful to cut celery
while the woman upstairs sings.

But the woman downstairs is drunk.
She hits the dog while I cook soup
and think of how our lives break
like windows from a flying stone
or glasses broken on a face.

I think I’ll call the landlord
to say she’s disturbing the peace,
but I chop carrots.

She’s down to the dregs by now
and I’m cutting potatoes.
I know tomorrow she’ll be outside
on her knees with their girlhood scars,
planting red tulips and petting her dog
while meat cooks on the stove.

I slice onions and think about all the broken souls
wandering about in worn-down shoes
and aching joints.

The woman downstairs is drunk.
The woman upstairs is singing
beneath the blue roof,
and I am boiling greens,
tomorrow’s stew,
and in the basement
there are the only damp walls and rotten wood
surrounding heat and electric,
and further down, deep thoughts of the forest,
mushrooms, the black coal
with its inner light.
O que eu penso

Cortar o aipo me traz paz
enquanto a vizinha de cima canta.

Mas a vizinha de baixo está bêbada.
Ela bate no cachorro enquanto eu cozinho a sopa
e penso em como nossas vidas podem se despedaçar
como janelas com uma pedrada,
ou vidros quebrados num rosto.

Penso que vou procurar o proprietário
pra dizer que ela está perturbando,
mas pico as cenouras.

Ela já se tornou escória
e eu corto batatas.
Sei que amanhã ela estará lá fora
de joelhos, com as cicatrizes que ganhou na infância,
plantando tulipas vermelhas e acariciando o cachorro
enquanto a carne assa no forno.

Fatio o alho e penso sobre as almas dilaceradas
Vagando por aí com seus sapatos velhos
e dores nas juntas.

A vizinha de baixo está bêbada.
A vizinha de cima canta
sob o teto azul,
e eu cozinho as verduras,
o ensopado de amanhã,
e no porão
só o que há são paredes úmidas e madeira podre
em volta do aquecedor e da caixa de fusíveis,
e, mais embaixo, os pensamentos profundos da floresta,
os cogumelos e o carvão negro,
com sua luz interior.
Crows

Hear them speak like men
to one another. Their gravel voices
are thunder breaking the sky,
a gun cracking air,
the bad air
filled with birds whose wings
tip indigo in the light.

Beneath them, men with blue guns
turn up the whites of their eyes.
The feathers,
the feathers come apart, falling
specks of dust.

My ears want to hear them
begin to speak,
to hear the dark berries
uncoil through flesh.
They are quiet,
so still
I wait for a breath
to escape the warm feathers.
Corvos

Ouvi-los conversando como homens
Entre si. Suas vozes esganiçadas
são trovões rompendo o céu,
uma arma quebrando o ar,
um ar ruim
preenchido por pássaros com cujas pontas
das asas tingem de azul a luz.

Abaixo deles, homens com pistolas azuis
exibem os brancos dos olhos.
As penas,
as penas se estraçalham, espalhando
partículas de pó.

Meus ouvidos querem ouvi-los
começando a falar,
ouvir as bagas escuras
desenrolar-se através da carne.
Eles estão quietos,
tão imóveis
aguardo por um suspiro
a escapar daquelas penas quentes.

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