Ensaios e Resenhas

novembro 2013 / Ensaios e Resenhas / Lições do Senhor Tavares

Texto publicado na edição #163

Lições do Senhor Tavares

A lição número um: vamos morrer, portanto devemos viver como seres mortais, o que significa, basicamente, não desperdiçar o tempo, […]

> Por VANESSA C. RODRIGUES

Ilustração: Dê Almeida

Ilustração: Dê Almeida

A lição número um: vamos morrer, portanto devemos viver como seres mortais, o que significa, basicamente, não desperdiçar o tempo, que é limitado. É preciso lembrar-se disso o tempo todo, em todas as horas do dia, e evitar pequenos gestos mortais, como sentar-se no café com uma pessoa desagradável ou ler um livro ruim até o final. O tempo não se recupera. Mas para nós, que estávamos ali recebendo conselhos na condição de alunos de uma oficina literária, lembrar-se de que somos mortais significava, principalmente: escrevam.

Nem todos os escritores são tão bons falando quanto são escrevendo, mas Gonçalo M. Tavares me ganhou em uma entrevista em que deu outra valiosa lição: há as coisas urgentes, como se alimentar, e há as importantes, como aquilo que move a vida em um sentido não apenas material, digamos. É urgente pagar a luz, comprar pão, é urgente andar por lugares seguros e manter o corpo livre de perigos. É importante olhar para o mundo com olhos humanos, surpreender-se com ele e, a partir disso, bordar um tapete ou fazer um livro. Mas as coisas urgentes tomam a maior parte do tempo e sobra pouco para as importantes. É necessário e urgente conseguir o dinheiro com o qual adquirimos aquilo de que precisamos, pois é neste mundo que vivemos, e evitar o perigo para o corpo, mas imprescindível também é não se esquecer disto: vamos morrer e é importante que se faça o que é importante.

Vamos morrer, é certo, mas não queremos. Por isso o corpo está preparado para evitar a morte, o confronto ou o perigo. Os olhos primeiro procuram: há alguém ou algo aqui que queira me matar? Sentindo-se seguro, são necessárias ainda as mínimas condições para seguir: com fome, não se olha o mundo a não ser em busca de comida.

O único fato indispensável para o pensamento é não te encontrares ameaçado de morte e a sobrevivência não ser algo urgente.1

Pois só estando seguro, alimentado e sem incômodo físico é possível ver ao redor. É possível ler: a leitura, concluímos, a leitura é de certa maneira um luxo.

A leitura depende da segurança do corpo porque é com o corpo que se lê. E também é com ele que se escreve. No começo da história da escrita talhavam-se textos sobre pedras, e não é sem muito esforço físico que se escreve em superfícies tão duras. Não nos desvencilhamos dessa herança. A escrita é, pois, um ato físico, e por isso precisa ser praticado. É com os dedos que se escreve, e também com a cabeça, e o cérebro é corpo também.

Um escritor escreve. É preciso escrever e para isso bastam uns dedos, as ferramentas mínimas e um corpo seguro. Não há em princípio grandes segredos, escrever não é um ato restrito aos gênios, é um ato humano, é um ato do corpo.

Ademais, só existe o que está pronto, o fazendo é ainda o não. Só existe sim e não, o processo é importante para o sim, mas ainda é um não. É preciso fazer, e fazer até o final.

Sobre tudo isso conversamos nas primeiras horas do primeiro encontro da oficina literária ministrada por Gonçalo M. Tavares, que aconteceu em agosto deste ano em Curitiba (PR). Haveria ainda mais alguns minutos depois do café e outras duas manhãs inteiras. Seria um lindo fim de semana, percebemos desde o começo. “Não acredito que se ensine a escrever”, disse Gonçalo.

Errar, mas não desperdiçar
Da janela do prédio antigo onde nos reunimos eu via uma cidade que já não era minha. Meu corpo estava suficientemente confortável, alimentado, seguro e, principalmente, disposto a aproveitar todos estes privilégios: no meio da manhã do dia útil, eu pude me ausentar da urgência dos meios produtivos para ter aulas sobre o que é, sem dúvida, o mais importante para minha vida. Só existe ou sim ou não, um escritor escreve, você vai morrer, escreva.

Na volta do intervalo, passamos ao primeiro exercício. Recebemos folhas brancas e, a postos e um tanto tensos, esperávamos o comando. “Nesta folha de papel que têm em mãos, por favor, desenhem uma casa errada.” Surpreendeu-nos.

Há duas maneiras de se andar por uma cidade: é possível seguir o roteiro turístico e recomendado pelos mapas e pelos guias, pelas placas indicativas; ou andar sem saber aonde vai. É possível errar e, assim, descobrir lugares desconhecidos. Há um risco nisso, é claro, mas não existe arte sem risco.

E ele acreditava que nada se descobre se não se passar por um certo perigo.2

O exercício que fizemos tratava-se disto: não há motivo para sentir medo do erro, de andar sobre o imprevisível. Só assim conseguimos olhar para aquilo que ainda não foi mapeado. Não é o medo de errar que deve impedi-lo de criar qualquer coisa, de escrever. Têm a mesma origem as palavras errar e errância, e errância é circular sem saber o destino. É, em certo sentido, outra palavra para viver. Cada casa errada desenhada era uma casa errada única, era uma casa errada à sua maneira. Se tivéssemos uma idéia específica de casa certa e nos pedissem para desenhá-la (e fôssemos os mais bem preparados desenhistas ali reunidos), teríamos talvez a mesma casa repetida. Um dia ouvi uma conversa de dois colegas num trabalho antigo, uma conversa técnica sobre cores e, em vez de ciano, uma palavra que ainda não conhecia, eu ouvi: “coloque 90% de oceano no preto”. Foi um equívoco bonito, um verso, talvez.

Mas por que desenhamos numa oficina de escrita? Porque, disse Gonçalo, o traço é comum à escrita e ao desenho e também à matemática. O mesmo traço inclinado está na origem do A, do desenho de uma casa e do número 7. No entanto, o extraordinário da escrita é que deixamos de ver esses traços. Ler é deixar de ver, é restringir os olhos a uma não natural disciplina. Os olhos mexem-se o tempo todo, em todas as direções, caminham errantes pela imagem diante deles. A escrita, contudo, lhes impõe uma ordem quase militar, uma linearidade antinatural aos seus movimentos. “E ainda gostamos disso”, brincou.

E daí vem um ponto importante: a responsabilidade de quem escreve. O leitor abdica do mundo assim como de outros livros enquanto lê determinado texto. Não é pouca coisa. O tempo do leitor, é preciso lembrar, também é limitado, não é responsável desperdiçá-lo. E aproveitar o tempo nada tem a ver aqui com tempo útil, no sentido produtivo das cidades. Aproveitar o tempo é tentar entender um pouco mais o mundo nesse período limitado de uma vida e quem sabe deixar registrado de alguma forma tais descobertas.

Escrever neste século
É possível viver muitas vidas num único dia em que se visita a cidade da infância. De um café a outro, de uma casa a outra, mudam completamente os assuntos, a postura, os movimentos do corpo. Eu gosto muito de me encontrar com meus amigos com quem converso sobre literatura e também assistir à novela com minha mãe na sala onde passei a adolescência. “não estou contido entre meu chapéu e botas”, diria Walt Whitman. O corpo é a carne mais suas relações. O corpo é todos esses pedaços que parecem se fragmentar num dia cheio de visitas e encontros.

E o corpo vive neste século, é importante que não se esqueça dele. Não é possível nem sensato ser ingênuo depois dos campos de concentração, disse Gonçalo. É deste século que escrevemos e é a partir dele que devemos criar nossas histórias. Faz parte da responsabilidade do escritor não perder o tempo limitado de seu leitor mortal e distraí-lo das questões deste mundo. Arte não é distração, é na verdade o oposto disso.

E este é o século em que o corpo não apenas convive com as máquinas, mas também é formado por elas. Com a invenção do marca-passo, o metal passou a entrar na carne do homem para salvá-lo, lembrou-nos. É possível introduzir no peito de um ser humano uma máquina de metal que lhe substitua ou ajude o coração. E o que isso diz sobre o artificial, sobre o humano, sobre as crenças de criação e, sobretudo, sobre o alcance da técnica?

A felicidade já foi reduzida a um sistema que as máquinas entendem, e no qual podem participar e intervir. Já nenhuma felicidade individual é independente da tecnologia.3

Porque também é o tempo da razão e da técnica. É preciso estar atento a isso. Houve uma complexa tecnologia de morte nas últimas guerras, há uma complexa técnica de controle do discurso, há modos calculáveis e matemáticos de influenciar a vida de uma população inteira. Essa técnica fez surgir um coração artificial, a partir dela é possível recuperar artificialmente o corpo doente de um homem. É uma grande revolução.

Vimos, então, uma fotografia da performance Rest energy, de Marina Abramović e Ulay, de 1980: Marina inclina-se para trás segurando na empunhadura de um arco enquanto Ulay puxa a corda e a flecha, até ficarem ambos no limite da tensão. Qualquer erro, a flecha entraria em Marina. “E vocês, quem chamariam para segurar a flecha? Vanessa, quem você chamaria?” “Acho que o meu marido”, respondi. “Uma pessoa que gosta de você tremeria numa situação dessas. Vivemos na era da técnica, não se esqueça.”

Os tempos não estão para vísceras intuitivas assumirem a responsabilidade de nossos actos. A cabeça, Walser, estamos em um período em que a cabeça é importante.4

Escrever no século 21 é escrever levando em conta tudo isso. E mais: é saber que a linguagem é limitada, não se alcança tudo com ela, não se transmite tudo por ela. 

Obstáculos
Uma única bala pesa mais na existência individual que um discurso com dez mil palavras5. 

Sentados em duplas, tínhamos de descrever o rosto um do outro, sem usar adjetivos, tentando ser o mais preciso possível. Não era possível. Nos demos conta de que era muito menos eficaz, para aquilo que o exercício se propunha, descrever um rosto do que desenhá-lo ou fotografá-lo. Havia detalhes de precisão de que a linguagem não dava conta.

Para escrever é preciso ter consciência desses limites e explorá-los. Um obstáculo, disse Gonçalo, nos mostra caminhos. É mais fácil se perder no deserto que no labirinto. O obstáculo demanda criatividade para ser desviado.

Falamos ainda de silêncio, de concentração, da postura do corpo e da reação dele diante de um mundo. Quase não lemos, quase não escrevemos, foi mesmo uma oficina para relembrar que a escrita se faz com o corpo, e que o corpo é maior que a silhueta, ele se expande encontrando outros corpos em outros lugares e que por isso ultrapassa não apenas o tempo, mas o espaço de uma vida. E que ninguém espera nem precisa que você escreva qualquer coisa, há muitas urgências nessa vida enleada por máquinas. Mas é importante fazê-lo.

Vinte séculos inteiros e completos e não inventaram uma explicação do sofrimento.6

É para isso que existe a poesia.

NOTAS
1 Gonçalo M. Tavares (Um homem: Klaus Klump, Cia. das Letras, 2007, p. 100)
2 Gonçalo M. Tavares (Jerusalém, Cia. das Letras, 2006, p. 220.)
3 Gonçalo M. Tavares (A máquina de Joseph Walser, Cia. das Letras, 2010, p. 16).
4 Idem, p. 102.
5 Gonçalo M. Tavares (Jerusalém, Cia. das Letras, 2006, p. 67).
6 Gonçalo M. Tavares (A máquina de Joseph Walser, Cia. das Letras, 2010, p. 63).

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