Sob a pele das palavras

novembro 2017 / Sob a pele das palavras / Liberdade, de Carlos Marighella

Texto publicado na edição #211

Liberdade, de Carlos Marighella

O célebre guerrilheiro comunista exerceu o ofício de poeta — e sonetista

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Carlos Marighella,  escritor brasileiro.

Carlos Marighella, escritor brasileiro.

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe. 

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome. 

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

Não há quem, de uma ponta à outra do Brasil, com algum conhecimento de história e política, não saiba quem foi Carlos Marighella. Mas nem todos, talvez, saibam que o célebre guerrilheiro comunista exerceu o ofício de poeta — e sonetista. Os versos de Liberdade foram escritos em 1939 e publicados no livro Poemas: rondó da liberdade, pela Brasiliense, em 1994. A impressão da leitura inicial deve desagradar a leitores severos, que percebem de imediato o tom grandiloquente (“Queira-te eu tanto, e de tal modo”), certas imagens estereotipadas (“morrer sorrindo a murmurar teu nome”), as rimas consoantes um tanto previsíveis (forte/sorte; exaltar-te/arte) e o romântico engajamento a uma ideia universal de liberdade (“direi que és bela e pura em toda parte”). Mas, se pode passar essa impressão, a tais traços o poema não se reduz.

Quando elaborou Liberdade, Marighella se encontrava encarcerado, na segunda de quatro prisões ao longo de sua turbulenta vida. Já esse elemento dá ao poema um caráter especial, de um libelo contra a opressão, o autoritarismo e, na ocasião, contra o governo ditatorial do Estado Novo getulista. Baiano negro, filho de uma baiana negra (filha de escravos) e de um italiano, morou na rua do Desterro e morreu em emboscada na alameda Casa Branca, topônimos que marcam, irônica e tragicamente, duas pontas de uma trajetória de militância e sofrimento. Se por um período tornou-se deputado constituinte, no mais das vezes teve de se virar em condição clandestina. Vítima de torturas bárbaras, foi anistiado post mortem em 2012. Com participação política intensa, do PCB à ALN, escreveu o cultuado Minimanual do guerrilheiro urbano, e tem sido assunto de filmes, biografias, canções. Recentemente, em Abraçaço, Caetano Veloso dedicou-lhe Um comunista, em que alguns versos parecem se dirigir ao soneto em pauta: “Mas ninguém entendia/ Vida sem utopia/ Não entendo que exista/ Assim fala um comunista”. Porque a liberdade, tudo indica, foi a utopia que Carlos Marighella perseguiu, até cair assassinado dentro de um Fusca em 4 de novembro de 1969.

Trinta anos antes, portanto, preso, Marighella compõe seu poema, cujo primeiro verso (vê-se, ambivalente) explicita uma espécie de poética: “Não ficarei tão só no campo da arte”. Ou seja, o desejo do sujeito que escreve, sempre se dirigindo à “musa Liberdade” (desde o título), é que ela não fique “tão só” no campo da abstração, da metáfora, da linguagem, mas que ela, digna do sentido que seu nome comporta, esteja “em toda parte”, fazendo assim com que o poeta corra o “maior risco”, pois não há “força humana alguma” que consiga controlar esta “paixão embriagadora”. Mesmo a tortura, a dor e a morte o poeta se dispõe a enfrentar “feliz” e “sorrindo”, em “nome” desse valor supremo, que inclui tanto o incontornável direito (físico) de ir e vir, quanto o direito (filosófico) de expressão autônoma das ideias.

No fragmento Drama político, de Minima moralia, Theodor Adorno reflete, exatamente, sobre a estreita relação entre liberdade e utopia: “Quando nos relatos políticos aparece hoje a liberdade como motivo, este tem, como no louvor da resistência heroica, o rasgo envergonhado de uma promessa impossível. O desenlace está sempre traçado de antemão pela grande política, e a própria liberdade surge ideologicamente tingida, como discurso sobre a liberdade com as suas declarações estereotipadas, e não mediante ações humanamente comensuráveis”. Talvez por intuitiva e/ou consciente noção de que a liberdade plena não é alcançável, o poeta Marighella em Liberdade eleva o tom, faz a “promessa impossível” com declarações que não encontram — a começar pelos muros da prisão em que, encarcerado, escreve — ressonância real, prática, exequível. Para ombrear com a “grande política”, o poeta dá lugar ao guerrilheiro, que, fora do cárcere, há de, durante décadas, se envolver em “ações humanamente” voltadas para que a “resistência heroica” não soe como “rasgo envergonhado”.

Mas nem Adorno nem Marighella propõem que o poema realize aquilo que diz. O efeito estético maior de uma obra “no campo da arte” pode, contudo, qual um fogo de artifício, provocar um vislumbre naquele que com ela se cruza. Neste soneto, em particular, essa tensão entre a liberdade utópica e a realidade limitadora se expressa, como não poderia deixar de ser, na forma mesma da composição. Cada estrofe perfaz, por exemplo, uma frase completa, como se prosa fosse; no entanto, o corte dos versos (todos decassílabos sáficos) e as rimas (ABAB e CCD) demonstram que há um fabro em diálogo com o político. Se as rimas das quadras são previsíveis, e acenam para um “discurso sobre a liberdade” altissonante e fácil, as rimas dos tercetos (embora ainda consoantes) são mais sofisticadas, e reforçam os conflitos que constituem o poema: um poeta e político que escreve, preso, sobre a liberdade que não tem, mas deseja que ocorra “em toda parte”, embora só consiga representar essa possibilidade “no campo da arte”, que é onde o poeta não quer que a liberdade se isole, idealizada e abstrata. O personagem Paulo Martins, de Terra em transe de Glauber Rocha, diz a certo momento: “A política e a poesia são demais para um só homem”. Se não são demais, são, no entanto, de problemática conciliação, parece nos dizer o poema.

Sobre o tema clássico da liberdade, um poema belíssimo de Álvaro Andrade Garcia, publicado na antologia Taquicardias (1985), oferece — em forma absolutamente sintética, qual um haicai — uma perspectiva semelhante à do soneto: “liberdade/ a pena da ave/ na ponta do sabre”. O poeta, comunista, político, negro, baiano, preso, torturado, fabro, utópico, militante Marighella quis ambas as coisas: ser ave e ser sabre. O desafio — da liberdade e do poema — é saber equilibrar a pena na ponta.

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