Sob a pele das palavras

maio 2020 / Sob a pele das palavras / Ler Drummond, de Wally Salomão

Texto publicado na edição #241

Ler Drummond, de Wally Salomão

Poema de Waly Salomão se apropria da obra de Drummond para fazer galhofa de estudos literários

> Por WILBERTH SALGUEIRO

Pico de Itabira
que máquina mineradora não corrói
é a própria obra poética de CDA,
ápice do modernismo brasileiro.
Fulano de tal situa sua poesia entre o símbolo e a alegoria
e beltrano vislumbra nela o princípio-corrosão
e sicrano percebe uma poética do risco;
enquanto este escrutina a técnica da palavra-puxa-palavra
aquele outro detecta uma estilística da repetição.
Enquanto as interpretações subsidiárias
não criam uma película fantasmática
entre o leitor treinado, o leitor plurifocal, e a poesia de Drummond.
Esta permanece qual rútilo e incorruptível diamante,
imune aos assaltos dos exércitos da hermenêutica.

Pratico umas leituras luteranas
— e, desde que fato nunca nem há mais,
giram que giram celeradas as roldanas das interpretações —
enfio um pé aquém e o outro pé além,
um contato direto e sem intermediários
com as sete faces dos seus veios poliédricos.
Reler Drummond pela milionésima vez é uma aventura adâmica,
um convite renovado ao espanto e à surpresa.
Close readings nas internas das galerias das minas.
Magia lúcida, esfinge clara:
chiar para não ser destituído do estímulo do simples enigmático.
Uma pedra de tropeço quebra o sono dogmático.
Açucarado? Edulcorado? Nunca de núncaras.
Dissolução de Minas, família, Deus.
Morte do absoluto & despetalar da rosa do bloco histórico & redução eidética

Em clave sintética:
Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus
Tempo de absoluta depuração.

Oficina irritada em direção a um sereno/escalavrado agnosticismo.
A vida passada a limpo não em nome da restauração do perdido
Mas sim da almejada: NUDEZ

Estoicismo sem consolo nem vanglória.
A PROCURA DA POESIA é um aparelho processador/reprocessador
Que nulifica bazófias.

Sherazadiar:

ler Drummond: pela milionésima e mais uma vez e mais…

“Na extraordinária obra-prima Grande sertão: veredas há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício (…)”: assim se inicia o ensaio O homem dos avessos (1957), de Antonio Candido, sobre o romance ímpar de Guimarães Rosa. Guardadas as óbvias diferenças, da obra poética de Carlos Drummond de Andrade se pode afirmar algo semelhante, preservando — para a polêmica — as hipérboles de Candido. De certo modo, confirmando e ironizando esse juízo (ironia que se desdobra no gesto de encenar aquilo mesmo que critica), é o que faz Waly Salomão em seu poema, ciente de que a obra do itabirano é uma mina sem fim, daí a analogia com as mil e uma noites de Sherazade. Enquanto faz seu tributo a Drummond, Waly destila sua verve contra a crítica, insinuada como parasitária, ou dispensável, ao mesmo tempo em que o poema se elabora ele mesmo como uma intervenção crítica, gesto incontornável de toda leitura.

A estridente iconoclastia de Waly Salomão vai se apropriar da obra de Drummond para fazer galhofa de estudos que se dedicam a interpretar a poesia mais esquadrinhada no país pelos — diz Waly — “exércitos da hermenêutica”: “(…) Fulano de tal situa sua poesia entre o símbolo e alegoria/ e beltrano vislumbra nela o princípio-corrosão/ e sicrano percebe uma poética do risco;/ enquanto este escrutina a técnica da palavra-puxa-palavra/ aquele outro detecta uma estilística da repetição”. Indiferentemente à autoria, porque na mira está a “teoria” e não o “teórico”, Waly enfileira, bem informado, cinco estudos clássicos acerca da obra de Drummond (de Alfredo Bosi, Luiz Costa Lima, Iumna Maria Simon, Othon Moacyr Garcia e Gilberto Mendonça Teles), engrossando o coro de artistas que entendem — por motivos díspares ­e em contextos múltiplos — que a crítica não deve tocar na poesia (como canta o amigo Caetano em Ele me deu um beijo na boca, de Cores, nomes, 1982).

O próprio Drummond contribuiu para esse movimento, como se a crítica fosse inimiga da criação, com seu Exorcismo — embora esse poema, publicado no Jornal do Brasil em 12 de abril de 1975, tivesse como alvo a insípida voga estruturalista que tomara conta de certas universidades: “Das aparições de Chomsky, de Mehler, de Perchonock/ De Saussure, Cassirer, Troubetzkoy, Althusser/ De Zolkiewsky, Jacobson, Barthes, Derrida, Todorov/ De Greimas, Fodor, Chao, Lacan et caterv / Libera nos, Domine”. A concepção que o poeta e letrista baiano externa no poema Ler Drummond (de Pescados vivos, 2004]) é, na verdade, romântica, para não dizer inocente, ao achar que o poema (ou a obra) de Drummond (ou de qualquer poeta) permaneça “qual rútilo e incorruptível diamante” e “imune” aos tais assaltos. Há uma glorificação épica, bem ao estilo Waly, da poesia e da arte, e uma demonização (também épica!) do gesto interpretativo.

A obra de Waly vem sendo, merecidamente, objeto de crescentes estudos — este Ler Drummond, por exemplo, reúne elementos para abastecer uma tese inteira.  Desde Me segura qu’eu vou dar um troço (1972), o tropicalista e multiperformático artista teve decisiva participação na cultura brasileira em várias frentes, não raro de modo polêmico, como, aliás, demonstra o poema em pauta, que traz um traço do também ator e produtor nascido em Jequié: a profusão, o excesso, a incorporação, a mistura — numa palavra: a intertextualidade, em suas nuances de “referenciação, citação, reescrita, colagem”, para usar termos do título da excelente e recente tese de Diamila Medeiros (UFPR, 2020). (Eclético, não à toa atuou no papel de Gregório de Matos, em filme de Ana Carolina.) Quando fala, então, das “sete faces dos seus veios poliédricos”, parece estar a um tempo apontando para o poeta mineiro e para si mesmo.

A despeito das estocadas em Fulano ou Beltrano, o poema dá a ver um poeta que articula com discernimento reflexões em torno da obra drummondiana, ainda que em versos. Cita, abundantemente, com propriedade, palavras, versos, títulos de poemas e livros de Drummond, e alude ainda a outros estudos e autores (a exemplo de Marlene de Castro Correia e seu Magia lúcida), aciona expressões típicas da área da teoria literária (feito close reading), além de adentrar, com alta dosagem de ambivalência e zombaria, em acirrados debates da área. Ao dizer “desde que fato nunca nem há mais”, como não perceber aí uma boutade contra certa desconstrução francesa? (Ao menos, contra certo estereótipo de filosofias que, francesas ou não, defendem a impossibilidade do fato, da verdade, da origem, mas somente a versão, a interpretação, a perspectiva.) Tal boutade, contudo, aqui se faz bem leve, se comparada aos versos inconsequentes e levianos de Novelha cozinha poética (Tarifa de embarque, 2000), que, no afã de debochar de um clicherizado “douto Professor” de um “Departamento de Letras”, assim se oferecem: “Pegue uma fatia de Theodor Adorno/ Adicione uma posta de Paul Celan/ Limpe antes os laivos de forno crematório (…)” etc. Tais versos foram lidos com o devido rigor por Manuel da Costa Pinto na resenha Magma indiferenciado do caos, publicada no mesmo ano (2000) na Folha de S. Paulo.

A propósito, Theodor Adorno, com seu amigo Max Horkheimer, disse em Dialética do esclarecimento: “Os deuses não podem livrar os homens do medo, pois são as vozes petrificadas do medo que eles trazem como nome”. Se retornamos ao início do livro, leremos o célebre trecho: “No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores”. Ambos os trechos (fatias) dialogam com o lugar da poesia de Drummond, muito bem compreendida por Waly quando sintetiza: “Dissolução de Minas, família, Deus”, e a seguir cita (sempre sem aspas) os conhecidos versos de Os ombros suportam o mundo: “Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus”. Adorno, Drummond, Waly, aqui, se aliam contra o obscurantismo que, feito um vírus, pode nos levar à barbárie, quando a burrice, travestida de fé, impede a vida.

O poema Ler Drummond concentra uma vastidão de questões: intensas, polêmicas, provocadoras, bem à maneira do autor de Algaravias. Utopicamente (tratando-se de Drummond, o poeta disparadamente mais lido, citado e estudado no Brasil!), o artista e intelectual Waly Salomão queria ter um “contato direto e sem intermediários” com a obra do autor de Claro enigma. Sabe impossível, e seu poema incorpora uma gama de reflexões teóricas, uma gama de intermediários, de “doutos professores”, dos quais se nutre mas os quais rechaça. Com justeza, Arlindo Rebechi Jr. interpreta este poema como “uma crítica bastante contundente às supostas amarras da metodologia crítica da análise e leitura de poemas” (Waly Salomão: a poesia da inquietação, 2017). Não deixa de ser irônico que um trecho (uma fatia) do poema de Waly tenha vindo parar como epígrafe do magistral Maquinação do mundo Drummond e a mineração (2018), de José Miguel Wisnik, que ganhou de Marcos Pasche resenha à altura aqui no Rascunho #236 (dezembro/2019).

Ler Drummond, Salomão tem razão, é sempre reler Drummond, “pela milionésima e mais uma vez e mais…”. As reticências falam do sem-fim do “mundo mundo vasto mundo” de Drummond. Waly, decerto, se reconhece nesse “convite renovado ao espanto e à surpresa”, pois ele mesmo tem “um pé aquém e o outro pé além”. Caetano, em (2006), na canção que fez para o querido conterrâneo, falecido em maio de 2003, diz: “meu grande amigo/ desconfiado e estridente/ eu sempre tive comigo/ que eras na verdade/ delicado e inocente”. Waly Salomão, disfarçado de Sailormoon, tomou o “velho navio” da poesia de assalto, fez muito barulho — estridente — e sua obra aguarda ainda que, à maneira do seleto time reunido no apêndice de Poesia total (2014; Chico Alvim, Leminski, Armando Freitas Filho, Antonio Risério, Davi Arrigucci, Antonio Medina, Wisnik, Alexei Bueno, Heloísa Buarque, Walnice Galvão, Antonio Cícero, Hélio Oiticica, Leyla Perrone, Silviano Santiago e Roberto Zular), outros simpáticos “exércitos da hermenêutica” venham abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício.

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