Dom Casmurro

outubro 2018 / Dom Casmurro / Leonardo Fróes

Texto publicado na edição #222

Leonardo Fróes

um poema de Leonardo Fróes

> Por Leonardo Fróes

Celebro a possibilidade de um camarada dobrado no seu pedaço de chão tirar dali o seu sustento como um cão tira o osso de uma lata de lixo ou uma garça com seu enorme pescoço tira um peixe do rio. Celebro o esforço desse homem sozinho como um bicho sozinho como um cão ou um besouro. Porque é melhor o homem com uma enxada na mão no sol a pino do que a sucção desses túneis, as curvaturas de salão sujando o ar de fumaça. É melhor o homem, tendo o seu chão, pegar na enxada e batalhar e suar para se garantir. Porque assim ele irá vendo, enquanto as estações vão passando, que há um tempo certo para tudo e que é tolice correr. Melhor ele preparar seu terreno de acordo com a chuva que cai na sua horta, curvado assim o dia inteiro para tirar seus alimentos do nada. Quando ele os tira na realidade do todo, dessa mixórdia composta barafunda da vida que se regenera no esterco. Celebro a calma necessária ao seu penoso e calmo trabalho. A terra dura e seca como uma velha carcaça sendo revirada e afofada, não violada pelo aço possante dos insensíveis tratores barulhentos em grande escala tremente. O jeito manso desse homem parar, olhar e conversar com os torrões que a terra bruta seduzida e ordenhada por seus dedos jeitosos vai lhe abrindo e entregando. A terra escorre por suas mãos aliás. Ele está sozinho e não representa nada na cena, apenas respira e sobrevive como uma raiz de capim. Plantando pois seu aipim pode ver, ou plantando couve ou beterraba, que ele também tem seu tempo e é transitório como um verme é um verme, apenas uma espécie a mais perfurando como os tamanduás e as formigas. Ele está curvado, seus gestos são pausados e firmes. O sol ainda mal desponta. O silêncio é enorme como a paciência chinesa. Não pensativo, no sentido de especular sobre as coisas, mas antenado e pensativo como um inseto calado. Nesse sentido sim: quase transformado nas coisas que ele cavuca e apalpa e experimenta. Como olha para o rasgo que faz contemplativo. Fere, mas são outros seus golpes. Não é a terra lacerada pela pá dos tratores, que são postas de carne lacerada penduradas no açougue. São gestos carinhosos e firmes, pausados, contemplativos, necessários, inevitáveis. Sua curiosidade o trabalha. Suas mãos o trabalham. Seu pescoço idem. Ele é todo um trabalho da cor da terra. Pensativo no sentido de que ali descobre minhocas, além um pé de alguma coisa brotando. Como pensativo examina as muitas ervas que acha. O cuidado com que remove uma pedra. Como calcula delicadamente no tato, para colocar as sementes, o teor de umidade do local escolhido. Seu calor interior é um fator para a germinação e a seguir vegetação do produto, pois todo dia ele virá ali novamente ver a roça crescer. Esse homem dentro da paisagem. Sujeito a pequenas descobertas. Simples, despojado de tudo. Exposto às chuvas tropicais, aos poderosos vendavais que lavarão tudo aquilo. Se tudo aquilo for pro brejo — o milho, se estiver pendoado ou dando espiga; a cana; a couve-manteiga ou a menina dos seus olhos — ele recomeça do nada.

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