Dom Casmurro

novembro 2019 / Dom Casmurro / Leonardo Almeida Filho

Texto publicado na edição #235

Leonardo Almeida Filho

Três poemas de Leonardo Almeida Filho

> Por Leonardo Almeida Filho

Ogiva

Para Alberto Bresciani

Armar um poema requer lógica
Uma lógica secreta
de seita, confraria
e que apenas os poetas
iniciados nas artes dessa alquimia
conhecem e arriscam articular

Armar um poema é sempre forma
de amar o poema
que o leitor, ao final,
amando-o também,
tentará eternamente,
e sem sucesso,
desarmar.
Soneto em redondilha maior

Se tudo é um simulacro
— parte de um todo postiço —
existe um mundo castiço
no micro que oculta o macro?

O mundo tem cheiro e viço
tem brilho, mesmo no escuro
Quanto mais perco, procuro
aquilo que dão sumiço.

Saiba, de agora em diante,
meu amigo ignorante:
— Não se deve ignorar

que é mais que um bonsai gigante
a árvore mais distante
que o olho possa alcançar
Vão divã

Luz coada, chão
e brilho
Minha escuridão
na sombra.

Farpa que desliza
seu trajeto pela alma
fincada que foi
pelo tempo, pelo tempo.

A vã tentativa
de todos nós:
extrair do corpo
a dor que a farpa
trouxe de mansinho.

violenta cura
morder a ferida
cuspir o pus
cortar o membro
estancar a gangrena
incendiar o espírito.

 

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