Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Lenga-lenga maçante

Texto publicado na edição #129

Lenga-lenga maçante

Por quase absoluto consenso da crítica, o melhor livro do cearense João Franklin da Silveira Távora é Um casamento no […]

> Por RODRIGO GURGEL

Ilustração: Robson Vilalba

Por quase absoluto consenso da crítica, o melhor livro do cearense João Franklin da Silveira Távora é Um casamento no arrabalde — história do tempo em estilo de casa, de 1869. Esse juízo, entretanto, não quer dizer absolutamente nada. Reflete apenas o comportamento da maioria dos nossos críticos, ávidos por salvar, a qualquer custo, algumas obras, de forma que a história da literatura brasileira não se resuma a uma dúzia de ótimos escritores — número tão pequeno seria vergonhoso! —, mas possa ser descrita num volume alentado, que consiga ficar de pé nas prateleiras. Ora, se estivéssemos falando apenas da obediência a um critério diacrônico, segundo o qual deveríamos listar todos os nossos autores, minha convicção não teria motivo de existir, mas o problema nasce quando, a cada período da história, tenta-se justificar a presença desta ou daquela obra, deste ou daquele escritor por meio de elogios imerecidos ou, pior, despropositados. Sem dúvida, parcela significativa da crítica brasileira adotou, há tempos, o hábito de fazer passar cáfilas inteiras pelo fundo da agulha. É o caso, como veremos, do autor de Um casamento no arrabalde.

Távora foi um crítico feroz da literatura produzida por José de Alencar. Acusava o seu conterrâneo de produzir romances que não eram fidedignos e pretendia opor, à literatura produzida no Sul do país, uma outra, mais verdadeira, mais pura, a do Norte supostamente livre das influências estrangeiras e dos modismos da Corte. Na verdade, como bem percebeu Alfredo Bosi, o que movia Távora era o ressentimento do nordestino abandonado à pobreza, à marginalidade. Anos depois de publicar Um casamento no arrabalde, ele seguiria em sua heróica campanha, passando a defender uma literatura engajada:

Entendo que nas letras, ainda as amenas, não é lícito prescindir de um ideal que represente a vitória de um princípio, de uma instituição, de uma idéia útil à sociedade. O romancista moderno deve ser historiador, crítico, político ou filósofo. O romance de fantasia, de pura imaginativa, este não quadra ao ideal dos nossos dias.

Assim, os desacertos que já se anunciavam na novela que vamos analisar aqui se tornaram patentes: de pretenso romancista, Távora transformou-se, como observou Lúcia Miguel-Pereira, em “historiador moralista”. E no que se refere a suas polêmicas, concordo, sem objeções, com Bosi: “Os manifestos e prólogos de Távora podem ser lidos como sinal avançado dos riscos que o provincianismo traz para a literatura”.

Sentimentalismos
O tema de Um casamento no arrabalde é simples: dois jovens — Lucila e Pedro — encontram-se apaixonados, mas são de classes sociais diferentes: a moça é filha de uma professora separada do marido, D. Emília, mulher liberal, atéia, abolicionista e sem preconceitos; quanto ao pai do rapaz, trata-se de Luiz Corrêa, proprietário de engenho e um dos chefetes políticos da região. Emília não aceita a proibição do casamento imposta por Corrêa e planeja, com o auxílio do bacharel Túlio, seu vizinho, realizar a cerimônia em segredo, o que de fato acontece, sem grandes problemas. Quando Corrêa descobre, é tarde; a princípio, recusa-se a aceitar o ocorrido, mas depois cede.

Essa historinha destituída de dramaticidade até poderia ser o primeiro sinal do realismo entre nós, como pretendem alguns estudiosos, mas foi desenvolvida de maneira esquemática, os personagens principais são idealizados em excesso e seu narrador, além de panfletário, não consegue elaborar uma trama equilibrada, perdendo-se em questões menores, às quais procura, às vezes, dar certa coloração humorística.

Não bastassem esses problemas, o leitor se depara, logo nos primeiros parágrafos, com a linguagem amaneirada, nossa velha conhecida, que fez sucesso, principalmente, entre os românticos brasileiros. Partindo de uma localização geográfica incerta, o narrador luta para construir o cenário onírico, mas só consegue enfileirar adjetivos:

A luz inunda as pitorescas paisagens que formam o conjunto da estrada. Mangueiras, cajueiros, cercas de limoeiros iguais que protegem verdes laranjais matizados de brancas flores, madressilvas pendentes, manjericões em moitas, cinamomos isolados, risos-do-prado embastidos por cima dos portões dos sítios, alguns destes novos, alguns velhos, alguns antigos de muros e paredes caindo — espalham nesta abençoada zona tão branda e fragrante temperatura, formam aí tão belo aspecto de natureza intermédia entre o campo e a floresta, que aquele visitante há de comprazer-se em contemplar o panorama.

Somemos a essa “abençoada zona” os “crepúsculos saudosos”, a “estrada” que “semelha um rio deslizando-se preguiçoso por entre margens sombrias” e “a grama” que é “o mais aveludado tapete, o mais macio e brando leito para a gente pousar, ou deitar-se quando se sentir cansado da tirada”, e teremos o pano de fundo completo, mal engendrado e pleno de superficialidades.

Infelizmente, não é apenas a natureza que sofre nas mãos de Távora. Seus personagens parecem ter descido do Olimpo, envoltos numa aura de perfeição e beleza — física e moral — que excede a imaginação de qualquer poetastro. Túlio, que além de bacharel é literato, tem “a audácia do talento, da mocidade e do patriotismo”. Mas não só:

E que coração é o seu! A igualdade e a fraternidade em todo o gênero humano — eis o seu constante sonho. Ver os pobres subir, e os ricos descer, para ficarem todos no mesmo nível — eis a sua primeira aspiração. Utopias, utopias! — dirão os cortesãos de César. Lá se avenham eles com Túlio.

E a seguir, ainda insatisfeito, o narrador faz soar mais uma vez as trombetas: “É entusiasta de espírito, como da virtude, e não menos do trabalho. Ama a liberdade com os estremecimentos dos corações juvenis”.

Os exageros chegam a ser risíveis. Emília, além de todos os dotes que possui — “toca muito bem, canta ainda melhor. Fala corretamente o francês; sabe história; conhece um pouco a geografia; dá a sua opinião, nem sempre puramente teórica, sobre política; entende de desenho; até mete a colher no Syllabus” —, “sente verdadeiro prazer em mitigar a fome, a nudez, a dor dos pobres”. E também apresenta “esplendor” e “harmonia”, pois “a correção de suas formas dá logo na vista”. Em suas “expansões vastíssimas”, ela

gosta do que é belo, elevado, grandioso, neste mundo, e parece ter próxima afinidade com as grandezas presumíveis do outro, ou dos outros mundos — os mundos ideais, espirituais, morais, metafísicos, místicos, e outros ainda, que as filosofias vão criando hoje, destruindo amanhã, reconstruindo depois.

Bem vemos que não se trata de um ser humano. Esse tipo de linguagem, aliás, pode abandonar facilmente a mera idealização e dar vida a um ser grotesco. Vejam a descrição de Emília minutos antes do casamento:

Trajava vestido de escumilha azul cor de céu, apanhado de arregaços das cavas para as ombreiras, com tranças e brilhantinas. Afigurava-se o casulo resplandecente, donde rebentara a ninfa daquele lepidóptero crepuscular. O talhe, cortado a virgem, deixava ver livremente a abundante perfeição do colo de alabastro que arfava e refulgia.

A filha desse “casulo resplandecente” também não fica atrás:

Lucila dir-se-ia que nasceu de um sopro, e com um sopro pode desfalecer. É o tipo da mulher franzina em cuja mão se tem pena de pegar, cuja cintura se tem receio de enlaçar com o braço para dançar, porque se supõe que vai quebrar-se o frágil vime. Organização quase vaporosa, impalpável, etérea, afigura-se a projeção ou o projeto de uma nuvem sobre a terra. Esta extrema delicadeza de formas harmoniza-se com os tênues tons da voz débil, e os infantis movimentos. (…) Faltar-lhe-iam a idealidade e a sentimentalidade do ser delgado, flexível, transparente, quase cristalino se não fossem as veias azuis, as cores róseas que se desenham nas suas faces e mãos de admirável primor artístico, quero dizer, primor natural.

Páginas depois, nosso incansável elogiador ataca novamente, intrépido em sua missão de provocar engulhos nos leitores:

Lucila era uma pureza, o seu amor um culto cândido, o seu coração um santuário imaculado. Os seus lábios — pétalas de rosa virgem, cobertas ainda de pelúcia nativa, impregnadas no odor do desabrochar recente — eram frescos como o orvalho, aveludados como a manhã.

Terminado o casamento, mais uma enxurrada de digressões sentimentalóides inunda a história, enquanto o leitor deseja apenas chegar ao ponto final:

Pedro e Lucila sorriam como duas crianças que esperavam que a festa havia de ser boa porque lho diziam, e não porque o soubessem.

Deliciosa imprevidência! Grata e fulgurante ilusão do olhar sereno da mocidade — da mocidade inocente e ainda em ser, não da mocidade gasta, mais velha que a própria velhice; da mocidade virgem que só alcança nos horizontes risos e formosuras!

Mas quanto não se enganava esta mocidade ignorante e esplêndida! Quanto não são efêmeras as rosas e o azul dos seus horizontes límpidos!

Todos aqueles brilhos são brilhos fátuos, crianças. A vida não passa de uma quimera, ainda quando sorri como nas festas nupciais. Faço votos para que esta formosa fantasmagoria não se desvaneça nunca para vós que tanto vos amais.

O panfletário
Não satisfeito com o uso sistemático de chavões, Franklin Távora jamais perde a oportunidade de ser panfletário. Um casamento no arrabalde está coalhado de discursos políticos, às vezes disfarçados, às vezes não.

O narrador pode interromper bruscamente suas descrições, sem se dar ao trabalho de sequer mudar de parágrafo, e — no caso, enquanto relata a separação de Emília — iniciar este tipo de palavrório:

Todos os flagelos têm seu termo, quer na família, quer no Estado; a mulher que sofre, como o povo que sofre, libertam-se ambos um dia do jugo dos tiranos: só há uma diferença — a mulher para escapar dos maus tratos do marido cruel, deixa-lhe a casa furtivamente; a nação, esta põe abaixo, ou atira para um lado em pública praça, como se fez ultimamente em Espanha, o imperante pérfido, e fica senhora de suas ações, dominando no mesmo solo como soberana absoluta.

Um diálogo entre Túlio e Emília, no qual ambos tratam, a princípio, do casamento de Lucila e Pedro, descamba facilmente para uma análise superficial e enfadonha das injustiças sociais, chegando a ocupar quase três páginas… Mais à frente, a descrição do vestido de casamento de Lucila inspira um monótono libelo contra os casamentos ricos:

Mas as noivas ricas, as noivas fidalgas, as filhas dos comendadores apatacados, dos barões e viscondes que dão dinheiro a juros, dos doutores entusiasmados e presumidos, estas coisas conquanto muito dignas, não compreendem a majestade modesta, a satisfação casta, que enchia a alma de Lucila sempre que ela tocava o seu véu (…). Perdoem a minha ousadia as ilustres noivas ricas e fidalgas! Mas o seu vestido e o seu véu não valem, quanto a mim, aquele véu e aquele vestido de Lucila. Quando eles chegam ao vosso corpo e à vossa fronte, respeitabilíssimas deidades, já vêm desprimorados pelos toques de mãos de modistas, de mãos profanas como são as tais modistas.

E quando se trata de descrever a festa, Távora não perde a chance de, ao compará-la às que acontecem nas rodas aristocráticas, criticar estas, “em que a etiqueta obriga a distância de indivíduo a indivíduo, o que às vezes dá à sociedade um aspecto quase bisonho, e se não bisonho, taciturno, que não raro cai na sensaboria que não fica longe do enjôo”.

É uma lenga-lenga maçante que, naquela época, embora não fosse exemplo de boa literatura — se quisesse, Távora poderia ter aprendido com o Memórias de um sargento de milícias, lançado em 1854… —, talvez servisse para fazer a alegria dos antimonarquistas ou liberais exaltados. Hoje, transformou-se numa amostra de verborragia.

Sem concatenação
Livrinho esquemático, produzido em menos de uma semana — se podemos confiar no que afirma seu autor, em carta a Rangel de S. Paio —, Um casamento no arrabalde comprova o dito popular de que a pressa é inimiga da perfeição.

A história sofre cortes abruptos — e o narrador, de uma guinada a outra, oferece sua verve, da qual já vimos exemplos suficientes. Logo no início, apresenta-se o arrabalde e Túlio, além de se nomear as moradoras da propriedade vizinha. A seguir, no início do que poderia ser o segundo capítulo, a voz que narra afirma: “Uma manhã D. Emília entrou em casa do bacharel”. O pobre leitor, contudo, só será informado sobre o encontro sete páginas depois, durante as quais o narrador se esmera em acumular informações desnecessárias. A própria questão central do livro, o amor entre Lucila e Pedro, surge de repente, perdida no fim de um extenso parágrafo e acompanhada de justificativas telegráficas.

Conseguido o apoio de Túlio à realização do casamento secreto, o bacharel acerta todos os detalhes, mas ao apresentar a Emília, quinze dias depois, a necessidade de se ter urgência, a fim de que Corrêa nada descubra, a mulher decide, surpreendentemente, não ter pressa. E nenhuma justificativa para a mudança do seu comportamento, antes tão angustiado, é oferecida.

Ao final desse quarto capítulo, em que o bacharel e Emília fazem os acertos finais do casamento, o narrador tira da algibeira, como num passe de mágica, uma afirmação que não encontra apoio em qualquer trecho anterior: “Havia também uma delícia vaga, sutilíssima no coração de cada um daqueles seres que, pela primeira vez, se prendiam no enleio do amor (?)”. Ora, nada corrobora essa declaração, a não ser o rápido estremecimento de Túlio, poucos parágrafos antes, ao tocar na mão “pequenina e benfeita” de Emília — e o próprio narrador parece duvidar do que diz, pois termina o período com um estranhíssimo ponto de interrogação.

É interessante perceber que Távora recebia as primeiras influências do determinismo típico do movimento naturalista — os “sentimentos de igualdade e fraternidade” de Emília, por exemplo, “estão ligados ao seu temperamento, que são forças fisiológicas” —, mas essas curiosidades se diluem na falta de concatenação, nas piadinhas tolas que o narrador usa para descrever alguns personagens secundários, nos poucos e inexpressivos desencontros que antecedem a cerimônia e na surpreendente massa de curiosos que dá à união de Lucila e Pedro o caráter de festa pública, tornando inverossímil a suposta ignorância de Luiz Corrêa.

Não deixa de ser surpreendente, portanto, que Antonio Candido tenha encontrado “singelo encanto” nesta novela, considerando-a “uma ilhota de elegância e equilíbrio entre os demais escritos” de Távora — e ainda dizendo: “Talvez por não debater tese alguma, nem depender da elaboração requerida pelos romances históricos, pôde se beneficiar de um momento feliz de inspiração, tratando com harmonia uma despretensiosa visão dos costumes pernambucanos”.

Mas esqueçamos os elogios de Candido e nos concentremos no essencial: logo nas primeiras linhas de Um casamento no arrabalde, o narrador propõe aos leitores que acreditem nele quando diz que nos contará uma história completamente verdadeira. Contudo, antes já dissera que se tratava de “história para quem não tiver que fazer”. É, infelizmente, a certeza que fica: verdadeira ou não, trata-se de uma narrativa medíocre, que só merece a atenção de quem não tiver algo melhor para ler.

 

Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, Aluísio Azevedo e O cortiço.

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FRANKLIN TÁVORA

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FRANKLIN TÁVORA (1842-1888) nasceu em Baturité (CE). Radicado no Recife (PE) desde a infância — advogado, chegou a deputado provincial, com breve intervalo em 1873, quando ocupou o cargo de secretário de governo no Pará —, aos 34 anos mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ), onde exerceu influência na vida literária, fundando e dirigindo, com Nicolau Midosi, a Revista Brasileira (2ª fase), de que saíram dez volumes, de 1879 a 1881. Além de Um casamento no arrabalde, suas obras mais famosas são O matuto, Lourenço e O Cabeleira.

A mulher de Justiniano era uma beleza. Em Paris chamar-lhe-iam ravissante; no Recife passa simplesmente por bonita; mas, na realidade, ela preenche as condições de delicadeza e perfeição que uma mulher deve trazer nas suas formas; porque... ou bem que somos, ou bem que não somos: mulher que não é bonita devia ter nascido homem, não podia ser mulher.