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janeiro 2019 / Rodapé / Leituras de alpendre

Texto publicado na edição #225

Leituras de alpendre

Quando o autor furta a preposição “de” e a incorpora ao nome

> Por RINALDO DE FERNANDES

Eu e meus irmãos estudávamos em São Luís (MA) e meu pai mantinha, em nossa casa do interior, uma estante de porte médio com títulos diversos de literatura e de história. Uma estante que sempre estava à nossa espera no período de férias. Curiosamente, comecei a me interessar por textos não lendo palavras, decodificando frases, mas vendo os outros ler. Vendo, no alpendre, minhas irmãs imersas nos romances de Jorge Amado e um tio meu obcecado por revistas. Minhas irmãs, concluída a leitura de um romance, não raro reprisavam a narrativa, faziam apreciações sobre as personagens, teciam comparações. Quanto a meu tio, destoava dos demais: ao ler, sempre recostado a uma coluna, respirava com ruído e apertava bem os olhos, como se a revista fosse uma miniatura. Era vertiginosa a forma como meu tio lia revistas, inclusive números antigos da Veja — daí às vezes ele tratar como novidade um assunto já morto. E tinha também um primo meu que, durante as férias, nos abastecia com gibis. Li, nas redes estendidas no alpendre, muitos gibis no começo de minha adolescência. Adorava as panaquices do Pato Donald e o amor, sempre postergado, do Fantasma pela Diana Palmer. Meu primo também trazia os livrinhos da Bruguera, a famosa editora espanhola com sede no Rio de Janeiro que vendia milhares de exemplares de suas publicações nas bancas de todo o país: eram edulcoradas histórias de amor e ainda relatos policiais. Nunca me esqueço de uma trama policial que envolvia um agente da CIA e outro da KGB e cujo clímax se passava em Madri, num jogo entre o Real e o Barcelona. Um agente se escondendo de outro num estádio apinhado, enquanto os lances da partida eram apenas aludidos. O lúdico, nesse livrinho, não era o jogo em si, mas a peleja de gato e rato entre os protagonistas. Leitor desavisado, eu não percebia que o verdadeiro embate nesse e noutros livrinhos policiais da Bruguera era o da Guerra Fria, com as narrativas trazendo uma visão sempre favorável ao Ocidente. Por isso, invariavelmente, eu torcia pelo agente da CIA. Nesses tempos em que íamos passar férias na nossa casa do interior, descobri por acaso, na estante do meu pai, um autor que me interessou muito: o maranhense Humberto de Campos. O estilo de suas Memórias logo me encantou. E também nessa fase descobri os best-sellers: o Frederick Forsyth de O dia do Chacal, o Henri Charrière de Papillon, entre outros. Durante o período de aulas em São Luís, lia com empenho, sempre que possível, os cronistas dos jornais O Imparcial e O Estado do Maranhão. Ao ler as crônicas, prendia-me a certos parágrafos, sentia a força e também a tortura das palavras (para mim, devia ser uma tortura encontrar determinadas palavras, como óbice, com a qual esbarrei certa vez lendo uma crônica de Carlos Cunha em O Imparcial). Eu já aspirava, mas não sabia como fazer para me tornar um escritor. Foi aí que criei uma ficção e cometi um pequeno delito: alterei meu nome. Virei Rinaldo de Fernandes. Furtei a preposição “de” do nome do autor que àquela altura eu mais apreciava. Se o Humberto era de Campos, o Rinaldo se tornaria agora de Fernandes.

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