Ensaios e Resenhas

maio 2012 / Ensaios e Resenhas / Leitura do mundo

Texto publicado na edição #145

Leitura do mundo

  Em 2009, pela editora Caminho, de Lisboa, saía a coletânea de crônicas E se Obama fosse africano? — e […]

> Por PERON RIOS

 

Mia Couto, autor de E se Obama fosse africano?

Em 2009, pela editora Caminho, de Lisboa, saía a coletânea de crônicas E se Obama fosse africano? — e outras interinvenções, do escritor moçambicano Mia Couto. Em 2011, as livrarias brasileiras puderam oferecer o volume ao seu público. Trata-se de uma reunião de textos elaborados para conferências ou seminários, à exceção do artigo que nomeia o livro, composto para publicação impressa. Assim, a leveza resulta numa tônica da obra, com visíveis e propositais marcas de oralidade, o que faz o leitor sentir-se mais no auditório que na biblioteca.

O título já revela um vezo do texto coutiano: o ludismo lexical, a desarticulação do automatismo — que impõem a efetiva consideração do que se diz, sem a facilidade interpretativa que o lugar-comum oferta. Sem dúvida, temos na seleta uma pletora de escritos de intervenção, mas que não abrem mão do caráter inventivo — sinalizado no subtítulo — que toda literatura de quilate solicita. A obstinação do autor em observar etimologicamente os vocábulos deixa à mostra um desejo visceral de surpreender os significados que foram, involuntária ou acintosamente, apagados. Assim, poeta da prosa, ele examina o passado 0de palavras como utopia (não-lugar), leitura (seleção, colheita) e pensamento (cura, tratamento de mazelas), a fim de restaurar seus referentes que outrora se acumularam e que se vêem inoperantes. Curiosamente, foi pela ausência de devaneios utópicos, de letramento e de reflexão que, em África, o lugar inóspito manteve-se, instaurou-se a carência de escolhas e se naturalizou a realidade incurável. Ao elaborar o que Fernanda Cavacas chamou de “improvérbio” (um certo envenenamento das expressões cristalizadas, como os ditados e adágios), Couto exerce seu engajamento político e entrega ao olhar lentes menos embaçadas. Não é outra, aliás, a sua pretensão, ao compor o seguinte fragmento:

O ditado diz: ‘O cabrito come onde está amarrado’. Todos conhecemos o lamentável uso deste aforismo e como ele fundamenta a acção de gente que tira partido das situações e dos lugares. Já é triste que nos equiparemos a um cabrito. Mas também é sintomático que, nestes provérbios de conveniência, nunca nos identificamos como os animais produtores, como é, por exemplo, a formiga. Imaginemos que o ditado muda e passa a ser assim: ‘Cabrito produz onde está amarrado’. Eu aposto que, neste caso, ninguém mais quer ser cabrito.

A escrita, aqui, revelará sua militância, mais sutil em sua literatura de ficção. Entretanto, a profundidade lúcida não abandonará a essência das reflexões desenvolvidas nas comunicações, produzidas, muitas vezes, em caráter circunstancial. Ao contrário, o autor finda por ser um vivo exemplo do que ele próprio advoga, mostrando, em sua palavra, que os registros orais não são, fundamentalmente, subalternos aos gêneros escritos — mito que se alastrou, petrificado, no imaginário social.

Razão poética
Na nota introdutória, intitulada O guardador de rios, observamos o sonho quixotesco do velho guarda de uma estação hidrológica que, a despeito da guerra e do abandono pelo Poder Público de todos os projetos estatais, continuou, no contrafluxo do desencanto, a exercer o seu ofício. Notamos, portanto, uma espantosa similitude entre a personagem Nhamataca (“o fazedor de rios”), do romance Terra sonâmbula, e o supracitado vigilante. E não só: o próprio Mia Couto pode ser comparado a ambos, por sua segura e corajosa renitência na defesa de valores que, hoje, estão inteiramente à margem dos discursos hegemônicos.

Todavia, o requinte retórico e o vigor poético de que se vale em suas exposições conferem aos seus libelos um olhar visionário e alta voltagem de persuasão. Por isso, o escritor, em Rios, cobras e camisas de dormir, revela-se favorável à comunhão entre o conhecimento noturno e turbulento da poesia e a solaridade pretensamente asséptica dos saberes científicos. Biólogo de formação, entende que, para além da segurança em escala estreita da ciência, outros modos de apreender o mundo devem ser legitimados. O fato literário, por exemplo, ao mesmo tempo em que atua como saber desinteressado, também dissolve as camadas de engodo e impostura que a fala oficial soube reunir e mascarar. Não é outra coisa que Mia Couto pretende fazer, enfaticamente, em cada palestra ministrada, como se verá na leitura permanente da obra.

De saída, ele reprova o uso monocórdico da palavra contemporânea. Para o criador de Cada homem é uma raça, a uniformização que o sistema promove usurpa, por exemplo, a multiplicidade do olhar poético, que, aliás, ignora os lucrativos fins. Assim como a poesia, o idioma também pode pensar por outra teleologia: “As línguas servem para comunicar. Mas elas não apenas ‘servem’. Elas transcendem essa dimensão funcional. Às vezes, as línguas fazem-nos ser. Outras, como no caso do homem que adormecia em história a sua mulher, elas fazem-nos deixar de ser”, declara em Línguas que não sabemos que sabíamos. É exatamente a esta ausência de imediatismo que se refere Octavio Paz em A dupla chama – amor e erotismo. Para o poeta mexicano, destinar a linguagem à pura comunicação referencial é algo tão pragmático quanto o ato sexual reservado simplesmente à reprodução. O erotismo verbal, tão presente no escritor de Moçambique, pode aliciar mais do que a coerência argumentativa das proposições. É nisso que acredita Mia Couto, para quem a língua, refratária à razão lógica, deve trilhar pela beleza lunar da razão poética. A função política do literato, portanto, começa na ética da atenção aos contornos coleantes, sedutores, de que a linguagem se utiliza.

Ratoeiras
A partir daí, alguns tópicos serão, na obra, uma recorrência. Um deles é a naturalização dos infortúnios e, diante disso, certa esquiva de responsabilidades. Faz parte dos males a que o escritor nomeia, metaforicamente, peúgas rotas, sapatos sujos ou ratoeiras. Para ele, estes são, talvez, os maiores inimigos que os moçambicanos hão de vencer para entrar pela porta da modernidade e do progresso verdadeiro. Couto reivindica o dever que têm os cidadãos africanos de, renunciando a um certo “coitadismo”, construir a si mesmos sem atribuir a culpa dos fracassos ao capital estrangeiro ou à história de que foram vítimas. Trata-se, primordialmente, de uma mudança de postura e pensamento, sem a qual as possibilidades de sucesso se reduzem expressivamente. Podemos dizer que, nesse caso, o criador de Vozes anoitecidas exorta os indivíduos a serem pessoas, a fazerem de sua palavra um instrumento luminar. Sem dúvida, entrevemos, nesse momento, uma lição sartriana: a responsabilidade pelos nossos destinos também cabe a nós, inalienavelmente. Eis a exprobração de Mia Couto em O planeta das peúgas rotas: “Se falhamos é porque alguém tramou um mau-olhado. Não nos assumimos como cidadãos fazedores e responsáveis. Não produzimos o nosso destino: mendigamos as forças poderosas que estão para além de nós”.

Ratoeira muito parecida, denunciada com freqüência nos textos, é a concepção ontologizante do continente. Alvo fácil para a coleta de exotismos, os habitantes africanos costumam atribuir-se uma identidade essencial que os priva do acesso à legítima globalização. No que se refere à literatura em particular, lemos: “Os jovens autores africanos estão-se libertando da ‘africanidade’. Eles são o que são sem que necessitem de proclamação. Os escritores africanos desejam ser tão universais como qualquer outro escritor do mundo”. As crônicas Despir-se a voz e As outras violências vão discorrer, igualmente, sobre lavagem de mãos, identidades e essencializações, obstáculos à liberdade genuína das ex-colônias. Por tais motivos, Mia Couto imagina que, se Obama fosse africano — com esses valores que perpassam a formação coletiva dos cidadãos (sobretudo os que encarnaram o Poder) —, a idolatria que lhe foi destinada à distância, aquando de sua eleição nos Estados Unidos, logo se dissolveria, se fosse reduzido a uma santidade doméstica.

Saber ler
A leitura, como já sublinhamos, é outro tema recorrente na prosa coutiana. Num país com elevadíssimo grau de analfabetismo, resta aos habitantes a decifração da realidade sem a mediação da escrita. Mia Couto tenta dar ênfase a outras formas de letramento: a análise do chão, a análise do mundo. Segundo o prosador, tudo o que nos rodeia é um texto, e há algo tão grave quanto não saber ler livros: não saber ler as pessoas e as circunstâncias. Aqui, ele é Montaigne: é preciso estudar as almas como se estudam as obras literárias.

Correlato à leitura, segue o tópico da tradução enquanto prática interpretativa dos universos culturais. Situações como a transposição da idéia de ciência para o imaginário africano, relatada em Línguas que não sabemos que sabíamos, são melancolicamente cômicas. As irredutibilidades das culturas, não raro, provocam mal-entendidos — e estes impasses na tradução de mundos são constantemente retratados na escrita coutiana (como em O último vôo do flamingo, por exemplo). O problema é que a tradução etnocêntrica, que não se desloca rumo ao outro, padece de solipsismo, de excesso de identidade, levando cientistas da ONU a não compreenderem as distâncias entre sua civilização e a dos nativos moçambicanos. Diz, então, Mia Couto: “Os consultores, creio eu, ficaram com a suspeita de que eu não tinha competência para tradutor. Desse modo, não precisavam de se questionar nem de interrogar o seu modo de chegar a um local estranho”. Por isso, por tal capacidade de transposição do específico autista para a universalidade comunicante, Guimarães Rosa e Jorge Amado são tão exaltados e queridos nos países africanos, relatam-nos as crônicas.

E se Obama Fosse Africano — e outras interinvenções, por tantos meandros, assoma como obra fundamental para o desfrute da literatura e da reflexão contemporânea. Com tantas esparrelas a forrar o chão do entendimento e a cobrir de escamas o vislumbre do real, a lucidez de Mia Couto surge como urgência e saída, esperança frente aos obstáculos. No labirinto em que as nossas maiores misérias dialogam, a palavra do escritor ainda é uma evocada transcendência porque, em meio ao silêncio sombrio, deixa “entrar a luz da poesia na casa do pensamento”.

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Mia Couto

Nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é um dos principais escritores africanos. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século 20. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007, o prêmio União Latina de Literaturas Românicas. Também é autor de Antes de nascer o mundo e Estórias abensonhadas, entre outros.

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Mia Couto
Companhia das Letras
208 págs.