Ensaios e Resenhas

setembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Lacuna prejudicial

Texto publicado na edição #173

Lacuna prejudicial

Olhar irreverente de Alcântara Machado sugere uma vivaz percepção do ridículo

> Por RODRIGO GURGEL

Generalizações podem servir à eloquência dos palanques ou à retórica irônica, sarcástica — que não é um mal em si mesma —, mas tendem a nos afastar da verdade. Abro o volumezinho 57 da antiga Coleção Nossos Clássicos, dedicado a Antônio de Alcântara Machado, e encontro esta pérola do Francisco de Assis Barbosa, que assina a Apresentação: “O sapato de ferro do convencionalismo gramatical impedia a literatura brasileira de caminhar para a frente”, diz ele depois de frenéticos elogios aos modernistas, chegando a compará-los aos tenentes que puseram fim à República Velha — para criar uma Nova que repetisse os vícios de sempre.

Os livrinhos dessa coleção, alguns ótimos, publicada pela Editora Agir serviram, nas décadas de 1950 a 1970, para formar uma geração de leitores: introduções concisas; trechos escolhidos do autor; citações críticas; breve bibliografia; mas, às vezes, julgamentos semelhantes ao de Barbosa, adequado para transformar jovens divertidos — entre os quais havia bons escritores — em seres estratosféricos, heróis da cultura brasileira, Quixotes que combatiam, no que se refere ao “convencionalismo gramatical”, moinhos de vento imaginários.

Se realmente houve um “sapato de ferro”, se realmente a literatura brasileira, no início do século 20, estava impedida de “caminhar para a frente”, como devemos julgar os acertos dos que escreveram antes da Semana de 22 e daqueles que, produzindo literatura após esse evento supostamente mágico, desprezaram o modernismo? Como tratar, por exemplo, Graciliano Ramos? Em 1948, ele considerava o movimento “uma tapeação desonesta” — e chama os modernistas de “cabotinos”. Na mesma ocasião, uma entrevista concedida a Homero Senna, o autor de São Bernardo completa:

Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram linhas divisórias rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva.

O próprio Antônio de Alcântara Machado, apesar de entusiasta do modernismo, não aceitaria o exagero de Assis Barbosa. O escritor tinha opinião clara a respeito dessas mistificações, como afirma num artigo, em 5 de fevereiro de 1927:

A apreciação nacional não conhece muitos termos. Diante de uma individualidade ou diante de um acontecimento. É fulminante. Vai logo às do cabo. Consagra ou escacha de uma vez. Com imensa autoridade.

Entre nós o literato que escapa na opinião de seus patrícios de ser besta tapada é gênio incomparável. O brasileiro não admite talentos nem mediocridades. Não, senhor. Quem tem talento é logo sagrado gênio, águia, condor, píncaro.

Ele insiste:

[…] E é de senso crítico justamente que nós carecemos. Para distinguir o preto do branco, o péssimo do ótimo, o bom do mau. E deixarmos essa mania de chamar gênio a todo sujeito mais ou menos verboso e bem falante que aparece.

[…] A absoluta ausência de senso julgador e o mau gosto que no Brasil tomou conta de tudo (das plataformas presidenciais aos vestidos das professoras públicas) levam o brasileiro em cousas de arte antes de mais nada às mais disparatadas confusões. No fundo está ignorância sem dúvida. Ignorância completa e incrível. Epidêmica e inelutável. E o que é pior: pretensiosa.

E logo a seguir, para que não fiquem dúvidas:

[…] Entre os próprios modernistas brasileiros não são poucos os que confundem tendências as mais opostas, baralham temperamentos os mais diversos, metendo os pés pelas mãos, perdendo-se, dando cabeçadas, disparatando. Um horror.

Foi tal independência crítica, sem dúvida, que lhe permitiu criar obra sólida, livre de preconceitos estéticos e panfletarismo, pois sabia que “renovação, antes de mais nada é de essência. Não se exprime por fórmulas. Não possui regrinhas nem receitas”.

Percepção do ridículo
Alcântara Machado também detestava a “literatura em profundidade, de dramas interiores e estéreis, prosa fiada sobre os problemas do subconsciente, onde a explicação e as lorotas metafísicas tomam o lugar da ação” — ou, tipo de ficção comum nos dias de hoje, as “autobiografias disfarçadas ou não”, em que “a gente vê os inquietos se flagelando, desnudando os sequestros e complexos numa expiação pública para ser bem expiatória”.

Há outras declarações contundentes no artigo “Sobre a literatura de hoje”, publicado em maio de 1930. Na verdade, ele buscava novos heróis, ou, como sintetiza, “heróis heroicos”, pessoas de carne e osso que fossem, de alguma forma, “empolgantes”.

Talvez por não encontrá-los, preferiu dar vida a alguns. Os contos reunidos em Laranja da China, de 1928, mostram essas personagens de vida comum, algumas sem grandeza de alma, mas donas de encantamento que, terminada a leitura, nos faz querer voltar ao livro.

No conto que abre o volume, O revoltado Robespierre, a precipitação da primeira frase anuncia a personalidade intensa do protagonista. A ironia do título, iremos descobrindo-a pouco a pouco. Agressivo, irrequieto, com seu “sorriso sibilino”, parágrafo a parágrafo gestos e pensamentos se sobrepõem, disparatados, na mente do Senhor Natanael Robespierre. Crítico radical, resta-lhe às vezes, em sua febre de falar, apenas a linguagem fática. Apesar do exaltamento, mostra-se, no entanto, dissimulado e servil diante de um superior. No fim, o narrador conclui a superposição de sentidos: título da narrativa, nome da personagem e psicologia se fundem nesse soldado da República, escriturário cuja espingarda é um guarda-chuva — e cujo ardor vale meia pataca.

O olhar irreverente de Alcântara Machado pode ser avaliado, de forma errônea, como humor descomprometido. Na verdade, a conclusão de Luís Toledo Machado (em Antônio de Alcântara Machado e o Modernismo) mostra-se mais correta: o autor tem uma “vivaz percepção do ridículo”. É o que ocorre em O patriota Washington, no qual o protagonista, que dá nome ao conto, demonstra de forma ostentatória seu amor pelo Brasil, mas tudo não passa de sentimentalismo superficial: comemora o 15 de Novembro usando o automóvel do serviço sem que o chefe saiba, como faz todo final de semana; e pode interromper o passeio com a família para enviar um telegrama emocionado ao presidente da República. Logo depois, contudo, o mau humor assoma, pois esqueceu de colocar seu endereço, para resposta, na mensagem. No fundo, o exagero patriótico esconde incontrolável desejo de reconhecimento, mera vaidade — ou, talvez, busca de vantagens pessoais.

Platão Soares, de O filósofo Platão, sofre de transtorno obsessivo-compulsivo e de uma preguiça quase paralisante. Vive com o salário da filha, ostenta ser quem não é, mas todos conhecem sua condição de pobre-diabo. Personagem de esquetes, o escritor o transforma num homem patético, despreparado para a vida.

A apaixonada Elena não convence. Alcântara Machado pesa a mão no estilo informal de narrar e produz frases descuidadas como “o maxixe está com jeito de estar acabando”. Mas o início é perfeito: vemos a adolescente insatisfeita pedindo atenção numa cena familiar que, mais ou menos, todos já experimentaram. Também O inteligente Cícero é fraco. O autor possui inegável poder de síntese, bastam-lhe três Natais para criar um monstro de lógica infernal — mas a demência que se esconde na personalidade do garoto merecia mais do que o gesto espontâneo e intuitivo do pai.

São apenas crônicas A piedosa Teresa e O lírico Lamartine. Quanto a O aventureiro Ulisses, salvam-no a reação do personagem, descrita de forma precisa, ao notar que só ele está descalço na cidade, a forma indireta de mostrar que o caipira perdido é o mesmo retratado na notícia de jornal e o epílogo aberto, no qual infinitas aventuras se anunciam.

Entre as narrativas que nos permitem sorrir também se encontram O ingênuo Dagoberto e O mártir Jesus. Nesta, nota-se que nem sempre dá certo a experiência de não virgular adequadamente. Períodos como “Fifi que procurava na Revista da Semana um modelo de fantasia bem bataclã exclamou mastigando o palito” ou, mais grave, “ideia do Mário Zanetti pequeno da Fifi e primogênito louro do seu Nicola da farmácia onde Crispiniano já tinha duas contas atrasadas (varizes da Sinhara e estômago do Aristides)” pedem as pausas furtadas sem qualquer justificativa, o que não ocorre em O revoltado Robespierre: a frase de abertura — “Todos os dias úteis às dez e meia toma o bonde no Largo Santa Cecília encrencando com o motorneiro” — reforça a personalidade agitada do protagonista.

As descrições, entretanto, salvam o texto; como esta, síntese não só de um carnaval de periferia, mas do desgosto com que Crispiniano B. de Jesus suporta os quatro dias de festa:

Domingo carnavalesco. Serpentinas nos fios da Light. Negras de confete na carapinha bisnagando carpinteiros portugueses no olho. O único alegre era o gordo vestido de mulher. Pernas dependuradas da capota dos automóveis de escapamento aberto. Italianinhas de braço dado com a irmã casada atrás. O sorriso agradecido das meninas feias bisnagadas. Fileira de bondes vazios. Isso é que é alegria? Carnaval paulista.

No final, o martírio se completa — e o personagem só consegue rir de si mesmo, da via-sacra que tem de percorrer anualmente para contentar esposa e filhos.

O ingênuo Dagoberto também é história familiar. O casal e cinco filhos vêm do interior para passar uns dias e fazer compras em São Paulo. O deslumbramento pela cidade torna-se palpável: os animais no Jardim da Luz, o passeio no bonde de terceira classe, a multidão no Parque Antártica. O golpe que Dagoberto sofre é explicitado de forma indireta: o autor introduz, abruptamente, a cena em que um novo personagem lê à esposa a notícia da página policial e disserta sobre a “bobice humana”; um novo corte apresenta Silvana, mulher de Dagoberto, gritando: “Seu bocó! Devia ter contado o dinheiro na frente dos homens! Sua besta!”. O timing de Alcântara Machado é fulminante. E a arquitetura do trecho amplia, ao mesmo tempo, o humor e a gravidade da ação desleal.

Intimidade com a vida
Dois contos, entretanto, se salientam. Ambos são estudos psicológicos densos, dramáticos, em que não há espaço para humor ou irreverências.

O tímido José, que fecha o volume, retrata a agonia do acanhado, as emoções aflitivas que convulsionam o homem incapaz de decidir. Quase nada acontece, mas a trama se desenrola, angustiante, no interior do personagem. História tristíssima na madrugada paulistana, sob a garoa que “descia brincando no ar”, enquanto a neblina cobre o Vale do Anhangabaú. O cenário é formado de poucas quadras, espaço suficiente para que José experimente o paroxismo da timidez e, pior, demonstre ter horror à própria frouxidão.

A mesma tensão existencial pesa sobre A insigne Cornélia. Soterrada pelas obrigações domésticas, a protagonista é a figura do desvelo, dedicando-se ao marido, verdadeira cavalgadura, à filha paralítica, ao filho boêmio, à irmã fútil e adúltera. Alcântara Machado sobrepuja sua habilidade para o pormenor revelador: vejam o vestido vermelho de Isaura, a irmã, que vai “furando” a casa, rompendo a ordem sagrada que Cornélia luta para recriar dia a dia; o olhar de Aurora, a empregada, que guarda na memória o feitio do vestido, “atrás principalmente”; e a mentira de Isaura sobre o cabeleireiro. Cada elemento, negativo ou não, salienta as qualidades dessa dona de casa anônima, sábia, ilustre.

José Lins do Rego afirma, com razão, que “a língua de Alcântara é livre, vem de dentro dos seus personagens, se articula com uma pureza admirável”. E completa:

Dele poderia ter saído o grande romancista de São Paulo, porque Antônio de Alcântara Machado dispunha como pouca gente do elemento essencial do romance, que é a capacidade que tem o escritor de se encontrar em intimidade com a vida e não banalizar a vida.

Mana Maria, seu romance incompleto, vibra, portanto, como uma promessa, nada mais. Entre o que Alcântara Machado fez e o que poderia ter feito há um vazio que expressa não apenas a injustiça da morte que o colheu aos 34 anos, mas também consequências encontradas, infelizmente, com facilidade em qualquer livraria. Nenhum escritor, antes dele, deixou lacuna tão prejudicial à literatura brasileira.

NOTA
Desde a edição 122 do Rascunho (junho de 2010), o crítico Rodrigo Gurgel escreve a respeito dos principais prosadores da literatura brasileira. Na próxima edição, José Américo de Almeida e A bagaceira.

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Antônio Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira

Alcântara-Machado

Nasceu em São Paulo, em 25 de março de 1901, e morreu no Rio de Janeiro (RJ), em 14 de abril de 1935. Depois dos primeiros estudos no Colégio Sttaford, transfere-se para o Ginásio São Bento, terminando aí os preparatórios para a Faculdade de Direito de S. Paulo, onde seu pai era professor. Forma-se em 1923, mas prefere dedicar-se ao jornalismo, que já praticava nos tempos de estudante. A princípio foi, no Jornal do Comércio, seu crítico teatral, e depois, redator-chefe. Ligado aos modernistas (Oswald de Andrade prefacia seu livro de estreia, Pathé-Baby, de 1926), colabora em Terra Roxa e Outras Terras (1926) e na Revista de Antropofagia (1928). Transfere sua atividade jornalística para o Diário de S. Paulo (1929), mantendo uma seção literária. Com Mário de Andrade e Palma Travassos funda um periódico literário de grandes pretensões, a Revista Nova, que tem duração efêmera. Em 1933, assume a secretaria-geral da bancada paulista na Assembleia Nacional Constituinte. Em 1934, por São Paulo, é eleito deputado federal pelo Partido Constitucionalista e assume também a direção do Diário da Noite. Falece, no ano seguinte, de complicações decorrentes de uma cirurgia de apêndice. Além de Laranja da China, deixou Brás, Bexiga e Barra Funda (contos, 1927). Posteriormente, publicaram-se coletâneas de artigos e crônicas, mas o projeto de editar as Obras completas, previsto, pela Civilização Brasileira, para sete volumes, não ultrapassou o segundo.

Polidoro não queria descer do balanço. Não queria por bem. Desceu por mal. Em torno da roda-gigante os águias estacionavam com os olhos nas pernas das moças que giravam. Famílias de roupa branca esmagavam o pedregulho dos caminhos. Nharinha de vez em quando dava uma grelada para o moço de lenço sulfurino com um cravo na mão. Juju começou a implicar com as valsas vienenses da banda.