Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Labirinto lingüístico

Texto publicado na edição #132

Labirinto lingüístico

A protagonista de A ninfa inconstante não é Estela, não é Cuba, tampouco o narrador. A memória é a grande […]

> Por LUIZ HORÁCIO

A protagonista de A ninfa inconstante não é Estela, não é Cuba, tampouco o narrador. A memória é a grande estrela desse belo trabalho de Guillermo Cabrera Infante. “Não me interessa eliminar e muito menos mudar meu passado. Preciso é de uma máquina do tempo para vivê-lo de novo. Essa máquina é a memória.”

A memória, infelizmente, nem sempre desperta tão-somente lembranças satisfatórias. É de sua natureza conservar lamentos e frustrações. O narrador de A ninfa inconstante também se depara com essa face opaca das emoções: “Agora sei que o momento em que a vi pela primeira vez foi um momento equivocado”.

Estela não tem 16 anos, nem é alta nem baixa. A Lolita blasée de Infante tampouco tenta se fazer sedutora. Também não disfarça seu desconforto frente ao discurso desse crítico de cinema que eu não afirmaria ter se apaixonado, mas sim se deslumbrado por ela. O intelectual é casado com uma mulher que, ele deixa claro, já não difere mais os momentos em que está em sua presença daqueles em que se ausenta. Mas convém não se apressar, impaciente leitor: A ninfa inconstante não é mais um daqueles romances onde o “tio” se apaixona pela ninfeta. Nada disso.

O tal intelectual é arrogante, chato, um reservatório de citações literárias e cinematográficas; mas está longe de ser um “tio” bobão, muito longe. Estela não é ingênua e carrega um plano, prova maior de sua falta de inocência. O narrador também não elucubra projetos para conquistar Estela; sua satisfação é admirar aquela juventude bela. Enquanto isso, sua vida se esvai. Mas como ganhar tempo, como superar o paradoxo que se agiganta a sua frente, como matar sua sede de viver?

Como cenário, a cidade de Havana, uma Havana ainda musical e sensual.

A ninfa inconstante, obra póstuma de Guillermo Cabrera Infante, pode ser lida como um balanço de sua produção, uma síntese. Nessa narrativa, estão bem nítidas todas as possibilidades de estilo desse autor: os jogos de palavras que sempre o seduziram, as referências cinematográficas e literárias, o fascínio pela linguagem mais coloquial, a das expressões populares e o apreço por um tipo de humor extremamente peculiar.

Cabrera Infante tece sua trama a partir de um encontro de Estelita com o narrador, critico de cinema da revista Carteles. Existirão pontos comuns? Música, cinema e literatura são coisas dele. E Estelita traz o quê? “Era sua própria personagem, sua protagonista e ao mesmo tempo sua antagonista sem angústia existencial.”

O brilhantismo da narrativa de Cabrera Infante estabelece conexões entre essas personagens tão distantes e, ao mesmo tempo, tão próximas. O que é de uma já foi de outra. O que ora pertence a mais velha, um dia envolverá a mais jovem. “Destino é quando uma força irresistível tropeça com o objeto imóvel que você é. Destino também é desatino.”

A ninfa inconstante é um livro fascinante. No entanto, vale a pena anotar esse aviso: é necessário um esforço tsunâmico para não sucumbir no labirinto lingüístico erguido por Cabrera Infante.

Print Friendly
Guillermo_Cabrera_Infante_Ninfa_inconstante_132

Guillermo Cabrera Infante
Trad.: Eduardo Brandão
Companhia das Letras
232 págs.