Ensaios e Resenhas

outubro 2019 / Ensaios e Resenhas / Labirinto do agora

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

Labirinto do agora

Os poemas de "Garopaba monstro tubarão", de Paulo Scott, expõem a violência e a incomunicabilidade do Brasil contemporâneo

> Por Leandro Reis

Paulo Scott, autor de Garopaba monstro tubarão

Paulo Scott, autor de Garopaba monstro tubarão

1.
“turvo turvo/ a turva/ mão do sopro/ contra o muro.” O Poema sujo de Ferreira Gullar inicia no escuro, caminha tateando a névoa que separa o espanto da criação do esforço da linguagem, que tentará em vão traduzi-lo. O poeta se debate para romper o coágulo imanente ao processo de dizer um algo insubstituível, alguma coisa que é ela mesma e não pode ser outra: a palavra como fim. Octavio Paz diz que a experiência poética é a experiência do retorno à natureza original da linguagem, quando esta não era instrumento. O poema nasce na linguagem, utiliza-se dela, mas a transcende — pretende o indizível.

“um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas.” Gullar entendia que o poema luta para não nascer, luta para não ser poema.

2.
Nos poemas de Garopaba monstro tubarão, novo livro do gaúcho Paulo Scott, existe uma sintaxe infinita na qual se manifesta essa consciência elementar do acesso da poesia à pluralidade do real. Dito de outra forma, recria nossa experiência original de estar no mundo ao materializar as ambiguidades da percepção, contrariando o sentido único do mero representar.

É a busca perpétua pela voz do indizível, um idioma que dê conta do que se apresenta como novo para transformá-lo em imagem. Noll descreve a poética de Scott como antilírica.

pobre lobo
braços prontos
fumo
dos teus lábios-tecidos

éden minúsculo
efeito de garra
quantas vezes útero
de tua cunha-páprica

pó de expedição arábica
meu corpo estagnou
porque não estavas
porque não querias me soltar

e pegou fogo
(adiando o tombo)
no fogo solar
dentro da fábrica

Ao imputar individualidade a alguns versos diante do todo, perturba estrutura e sentido esperados. É o próprio processo poético que se desenrola diante do leitor, quando a palavra se experimenta e ganha existência a partir de sua singularidade, uma existência mesmo de corpo-estranho naquele organismo que se pretendia unificado.

Uma língua estrangeira dentro do próprio idioma, como sugere Deleuze, uma língua que estrangule o que está posto. Por isso, a princípio, uma opacidade se impõe, o verso não se deixa penetrar: “chifre da besta — crânio castigado/ pela igreja e pelo tombo da vara”. Mas desfaz o pré-concebido, impõe uma luz estranha na penumbra da linguagem.

3.
No subtítulo, o livro já nos entrega uma chave de leitura: são poemas escritos entre 2016 e 2018, período em que as narrativas, as visões de mundo, disputam uma hegemonia, mas a hegemonia da incomunicabilidade; os poemas são produtos do choque contra essa película inquebrantável de um discurso raso e violento, tão mais sedimentado quanto ensimesmado e superficial. Contra esse muro, a linguagem do poeta incide: “o salto vascular da criação/ estio a que o poeta se tem agarrado”.

A experiência urbana surge como aliada desse Mal — surge como o “monstro” do título, vocábulo que retorna aos livros de Scott (já havia aparecido em outras três obras). Em Centro-arderá, Porto Alegre é este apocalipse, “churrasco onde tudo queimará”; uma experiência que rumina a violência no discurso, prestes a implodir o que havia de seguro: “antes deste medo/ que hoje sinto de ti/ cidade sem harmonia — perdão/ pelo ódio do teu verbo”.

A opressão crônica da urbe encontra nas imagens de Lapa, Rio de Janeiro, Brasil seu correspondente preciso:

frisson-bate-palminha-bate
arte que não é de contraste
d’esconjuro curupira
nas barbas da vigilância fardada

quatro tiros na joça da cabeça
da joça da mulher —
calibã onde brecha a centelha
do não haverá me esqueça

mil pulgas atrás das orelhas
do ingrediente flor
luz à beira do anoiteça
volume alto pop sanguinário

e em segredo-monstro a doença

Como um testemunho, o poeta registra o momento histórico, e adverte em Palmas–TO sobre (o crescimento, o poder regressor das forças reacionárias que já nascem antigas): “este sertão que ameaça devolver tudo ao passado”. Em Planalto, o alerta se reveste duma luz mais clara: um vitupério contra o “lar de príncipes intolerantes”, organismo tomado de parasitas: “guarnecendo e rebuscando/ com seu deus e com suas famílias/ com seus favos perecidos/ (a arapuca) a colmeia sagaz”.

4.
Em meio ao caos do país, a ruína do homem estável. A ressonância social aqui se justapõe a uma espécie de balanço — uma existência sob o crivo do tempo, como fará o poeta em outras passagens do livro. Em Afeto ainda lutar, as “lágrimas da passeata” são (pano de fundo) para conclusões drásticas: “no rosto imerso no espelho/ a confirmação de que o meu superpoder/ é colocar carroças na frente dos bois”. Há, sim, alguma esperança, a começar pelo título, mas prevalece o ceticismo: “nunca foste tu o salvador”.

Despedaçado, vive em fluxo, em exílio perpétuo: os poemas de Garopaba monstro tubarão também são marca desta condição radical, metafísica, que na fragmentação contemporânea teria apenas um sintoma: “veloz o esforço de lidar com a existência/ comunhão da procura que não o liberta”.

Deste tema maior nascem suas extensões. Se, em um eixo, os estados brasileiros representam objetivamente lugares de ódio, um outro eixo “geográfico” — Londres, Florianópolis — salienta a precariedade da própria existência como um lugar de abandono, de um sujeito consciente da deriva: “dentro desta vida que é certa/ o frio”.

5.
A ressonância social tem uma relação de simbiose com outro elemento central que se imiscui na poética de Scott: a infância. Um irmão que escapou da morte, livre da assepsia do hospital, compõe o tecido desta memória que se anuncia também coletiva, e que também guarda em si a promessa de recomeço: o dia em que Nelson Mandela é solto. Estar dentro e fora de si ao mesmo tempo, como descreveu Walter Benjamin na Infância berlinense: 1900.

Só que quem escreve o poema, escreve do futuro, de onde urge uma ciência melancólica — a impossibilidade de retorno às coisas da infância: “no dia em que Nelson Mandela é solto/ voltamos de ônibus pro quarto alugado/ no oeste de Londres onde é nosso campo natal/ (e é mais difícil sem o peso das mochilas nos braços)”.

Em 1972 o paradoxo se dá no movimento: é um ônibus que sai do asfalto para adentrar a favela, viagem claustrofóbica cuja criança-observadora se consola através do cheiro, do gosto, do tato:

o ônibus de linha sai da via pavimentada
entra no emaranhado de ruas de chão batido
a ponta do meu dedo varre
o fundo do potinho de iogurte
leva o iogurte até a boca

o ônibus chacoalha
não há passageiros em pé
o ônibus entra na favela — a textura do iogurte
o cheiro do iogurte perfuma o cheiro de favela
a cremosidade e o doce que fica com o azedinho

sentada ao meu lado minha avó me observa
o silêncio dela que não é pergunta
o olhar dela que se entretém comigo —
a tampa lambida
ainda grudada na borda do potinho

o alumínio da tampa
contra a minha bochecha
o ônibus favela adentro
os dedos esfregam o doce nos dedos
no brim das pernas da calça

Encerra o poema, enunciando: “uma forma de escapar do ônibus/ uma forma de escapar dali”. Quer escapar porque 1972 é 2018, e a impotência que a criança experimenta é tão igual ou maior que a do adulto que daqui escreve — este, agora, incapaz de cumprir as expectativas de onipotência criadas em 1972.

É verdade que o filme da infância, que surge em Repetição aderente ao coletivo, também se desvencilha ou se sobrepõe a ele. Em Inocências, a infância se converte numa força dominante que abre para si uma nota no poema, de onde o poeta reforça a condição constitutiva da “meninice” em seus personagens e vozes, “que não acertam quando é sua vez de entrar e sair (do fim inaderente) da infância”.

Um salto, e se descortina um verão na praia, de onde se confronta a impossibilidade imanente à lembrança: “a ingenuidade das coisas/ por onde jamais retornarei”. E é como se conversasse com o poema seguinte, Tempo, e por ele fosse rechaçado: no tempo simultâneo do pensamento, é possível voltar ao “caos da meninice/ meu lugar na humanidade”.

De outra forma, portanto, a sintaxe do livro se serve deste caos da meninice, de onde a linguagem brota; isto é, funda-se a poética a partir da apreensão da infância, de suas rememorações e esquecimentos, de seu acesso incompleto — pois as entende como cavernas, para retomar Benjamin, territórios inesgotáveis, passíveis de exploração.

Depois de atravessar o labirinto na direção da maturidade, o regresso não passa de miragem: é preciso aceitar ser iludido pelo caminho que se oferece à não-criança, ao adulto estranho à criança que já foi. Não por acaso, depois de implodir a linguagem, é preciso tateá-la, buscá-la onde nasce livre da contaminação. “claro mais que claro claro:/ coisa alguma”.

 

tubarao

Garopaba monstro tubarão
Paulo Scott
Demônio Negro
85 págs.

 

LEIA entrevista com Paulo Scott

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