Dom Casmurro

julho 2015 / Dom Casmurro / Kilómetro 11

Texto publicado na edição #183

Kilómetro 11

Conto inédito de Mempo Giardinelli

> Por MEMPO GIARDINELLI

Ilustração: Theo Szczepanski

Ilustração: Theo Szczepanski

TRADUÇÃO: Mariana Sanchez

 

Para Miguel Ángel Molfino

— Para mim é o Segovia — diz Aquiles, piscando, nervoso, enquanto cutuca o Negro López. — O de óculos escuros, juro pela minha mãe que é o cabo Segovia.

O Negro observa rigorosamente o sujeito que toca bandoneón, franzindo a testa, e é como se diante dos seus olhos fosse projetado um monte de filmes antigos, impossíveis de se esquecer.

A cena: durante um baile numa casa do bairro Espanha. Um grupo de amigos se reúne para comemorar o aniversário do Aquiles. São todos ex-presos que estiveram na U-7* durante a ditadura. Já se passaram alguns anos, e eles mantêm o costume de reunir as famílias para comemorar todos os aniversários. Desta vez, decidiram fazer algo em grande estilo, com churrasco, leitão de entrada e todo o vinho e a cerveja disponíveis no bairro. O Moncho deu sorte no bingo semana passada, por isso o festejo tem até orquestra.

Debaixo do parreiral, um quarteto desfia chamamés e polcas, tangos e pasodobles. No momento em que o Aquiles repara no bandoneonista de óculos escuros, estão tocando Kilómetro 11.

— É, sim — diz o Negro López, fazendo sinal para o Jacinto.

Jacinto assente, como que dizendo eu também o reconheci.

Sem se falarem, só com o olhar, um a um vai reconhecendo o cabo Segovia.

Moreno e beiçudo, de olhinhos puxados, sempre tocava Kilómetro 11 enquanto eles eram torturados. Os milicos o faziam tocar e cantar para que não se ouvissem os gritos dos prisioneiros.

Alguns comentam a descoberta com suas companheiras, e todos vão cercando o bandoneonista. Quando a canção termina, ninguém mais dança. E antes de o quarteto começar outra música, Luis pede para o de óculos escuros tocar outra vez Kilómetro 11.

A festa acabou e a tarde vai cambaleando, como se o crepúsculo se fizesse mais lento ou não se decidisse a anoitecer. No ar há uma densidade rítmica, como se os corações de todos os presentes marchassem em uníssono e se pudesse ouvir um único e enorme coração.

Quando termina a repetição do chamamé, ninguém aplaude. Todos os convidados da festa — alguns de copo na mão, outros com a mão no bolso ou abraçados com suas damas — rodeiam o quarteto, e o parreiral parece uma espécie de circo romano em que os papéis de fera e vítima foram invertidos.

No último acorde, o Moncho diz:

— De novo — e não se dirige aos quatro músicos, mas ao bandoneonista. — Toque de novo.

— Mas já tocamos duas vezes — responde ele com um sorriso falso, repentinamente nervoso, de quem acaba de perceber que se meteu no lugar errado.

— É, mas você vai tocar de novo.

E parece que o sujeito vai dizer alguma coisa, mas é evidente que o tom firme e ameaçador do Moncho o fez entender quem são aqueles que o cercam.

— Uma vez para cada um de nós, Segovia — intervém o Flaco Martínez.

Depois de uma respiração entrecortada e afônica que parece uma metáfora de seu executante, o bandoneón começa timidamente com o mesmo chamamé. O violão acompanha depois de alguns compassos, e em seguida juntam-se o contrabaixo e a sanfona.

Mas o Aquiles levanta a mão e manda os outros silenciarem.

— Só ele toca — diz.

E depois de um silêncio que parece longo como uma dor amorosa, o bandoneón faz um da capo e as notas começam a parir um Kilómetro 11 agudo e estridente, porém legítimo.

Todos olham o sujeito, incluindo seus colegas músicos. E o sujeito transpira: de suas têmporas caem duas gotonas que se arriscam pelas maçãs do rosto como lentos e minúsculos rios em busca de um leito. Os dedos teclam, mecânicos, sem entusiasmo, poderia dizer-se até que sem saber o que tocam. E o bandoneón abre e fecha sobre o joelho direito do sujeito, arquejando como se o fole fosse um pulmão avariado de onde pende uma fitinha argentina.

Quando termina, o homem separa as mãos das teclas. Flexiona os dedos amassando o ar, indeciso. Não sabe o que fazer. Nem o que falar.

— Tire os óculos — manda Miguel. — Tire e continue tocando.

Lentamente, com a mão direita, o sujeito tira os óculos escuros e joga-os no chão, ao lado de sua cadeira. Tem os olhos cravados na parte superior do fole. Não olha para o público, não consegue olhar. Olha para baixo ou se esquivando das luzes, como quando faz muito sol.

Kilómetro 11, de novo — ordena a mulher do Cholo.

O sujeito continua olhando para baixo.

— Anda, toca. Toca, filho da puta — dizem o Luis e o Miguel e algumas das mulheres.

Aquiles faz um sinal como que dizendo não, insulto não, não precisa.

E o sujeito toca: Kilómetro 11.

Um minuto depois, quando soam os acordes do refrão, ouve-se o choro da mulher do Tito, que está abraçada ao Tito e os dois com o menino que tiveram quando ele estava lá dentro. Os três choram. Tito funga. Aquiles chega e o abraça.

Depois é a vez do Moncho.

Em cada um, Kilómetro 11 evoca lembranças diferentes. Porque as emoções sempre estalam em descompasso.

E quando o sujeito está no oitavo ou nono Kilómetro 11, é o Miguel que chora. E o Colorado Aguirre explica à sua mulher, em voz baixa, que foi o Miguel que inventou aquilo de ir todos os dias comprar uma bala do Leiva Longhi.

Cada um ia e comprava uma bala olhando-o no olho. E isso era tudo. E lhe pagavam, claro. O sujeito não queria cobrar deles. Dizia: não, pode levar, mas eles pagavam a bala. Sempre uma única bala. Nenhuma outra coisa, nem cigarro. Uma bala. De qualquer sabor, mas uma só e olhando o Leiva Longhi no olho. Foi um desfile de ex-presos que todas as tardes pararam em frente à banca, durante três anos e pouco, de oitenta e três a oitenta e sete, sem faltar um único dia, nenhum deles, e apenas para dizer: “Uma bala, me vê uma bala”. E assim todas as tardes até que o Leiva Longhi morreu, de câncer.

De repente, parece que o sujeito começa a se contorcer de dor. Nessas últimas versões, errou várias notas. Está tocando de olhos fechados, mas se equivoca pelo cansaço. Ninguém saiu de perto dele. O círculo que o rodeia é quase perfeito, de uma equidistância tacitamente ponderada. Dali não poderia escapar. E seus colegas estão petrificados. Cada um ficou duro, como crianças brincando de estátua. O ar carregado de rancor que domina a tarde os esculpiu em granito. — Nós não nos vingamos — diz o Surdo Pérez, enquanto o Segovia já está no décimo Kilómetro 11. E começa a falar em voz alta, sobrepondo-se à música, do dia em que foi ao consultório do Camilo Evans, o urologista, três meses depois de sair da prisão, no verão de 84. Camilo era um dos médicos da prisão durante o Proceso**. Certa vez, quando de tanto torturarem o Surdo ele começou a mijar sangue, Camilo lhe disse, rindo, que não era nada, e falou: “isso acontece por bater tanta punheta”. Por isso, quando saiu em liberdade, a primeira coisa que o Surdo fez foi ir vê-lo, no consultório, mas com outro nome. Camilo, de início, não o reconheceu. E quando o Surdo lhe disse quem era ele ficou pálido e se jogou para trás na cadeira e começou a dizer que tinha apenas cumprido ordens, que o perdoasse e não lhe fizesse nada. O Surdo disse não, não vim aqui te fazer nada, não fique com medo; só quero que me olhe no olho enquanto eu digo que você é um merda e um covarde.

— Igual a esse filho da puta que não olha pra nós — diz Aquiles. — Quantas já foram?

— Com essa, quatorze — responde o Negro. — Não?

— Sim, estou contando — diz Pitín. — E estamos em quatorze.

— Então chega, Segovia — diz Aquiles.

E o bandoneón emudece. No ar fica flutuando, por uns segundos, a respiração agonizante do fole.

O sujeito deixa as mãos caírem ao lado do corpo. Parecem mais compridas; chegam quase até o chão.

— Agora levante essa cara, olhe pra nós e vá embora — ordena Miguel.

Mas o sujeito não ergue a cabeça. Suspira fundo, quase ofegante, asmático como o bandoneón.

Faz-se um longo silêncio, pesadíssimo, quebrado apenas pelo choramingo do bebê dos Margoza — que parece que perdeu a chupeta, mas logo a repõem. O sujeito fecha o instrumento e aperta os botões que travam o bandoneón. Depois o agarra com as duas mãos, como se fosse uma oferenda, e lentamente se põe de pé. Em momento algum deixa de olhar a ponta dos sapatos. Mas uma vez levantado, todos veem que, além de transpirar, lacrimeja. Faz um beicinho, feito criança, e é como se de repente a verticalidade lhe alterasse o sentido das águas: porque primeiro soluça e depois chora, só que mudo.

Nisso, Aquiles, cutucando de novo o Negro López, diz:

— Parece mentira, mas é humano, o filho da puta. Vejam só como chora.

— Vá embora daqui — diz uma das meninas.

E o sujeito, o cabo Segovia, vai.

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NOTAS:
*Unidade carcerária do norte da Argentina, em Resistência, capital do Chaco.
**Proceso de Reconstrucción Nacional, ou simplesmente Proceso, é uma autodenominação atribuída à ditadura militar argentina.

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Mempo Giardinelli

Mempo_G

(Chaco, Argentina, 1947). É escritor e jornalista. Exilou-se no México entre 1976 e 1984, durante a última ditadura militar argentina. Em 1986 fundou a revista literária Puro Cuento. É autor de uma dúzia de romances, entre os quais se destacam La revolución en bicicleta, Santo oficio de la memoria e Luna caliente, além de livros de ensaios, contos e infantojuvenis. Sua obra literária está traduzida em mais de vinte idiomas e recebeu importantes distinções, como o Prêmio ao Mérito Literário Internacional Andrés Sabella (Chile, 2013), o Grinzane-Montagna (Itália, 2007), o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Poitiers (França, 2006), o Rómulo Gallegos (Venezuela, 1993) e o Prêmio Nacional de Romance do México (1983). Fundou e preside, na cidade de Resistencia (Argentina) uma fundação dedicada ao fomento da leitura, para a qual doou em 1996 sua biblioteca pessoal.