Dom Casmurro

agosto 2014 / Dom Casmurro / KENNETH REXROTH

Texto publicado na edição #172

KENNETH REXROTH

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert Um poeta intenso e de múltiplas e paradoxais facetas. Assim poderia ser descrito, em […]

> Por KENNETH REXROTH

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Kenneth_Rexroth_1_172

Um poeta intenso e de múltiplas e paradoxais facetas. Assim poderia ser descrito, em poucas palavras, o norte-americano Kenneth Rexroth (1905-1982). Católico, comunista, anarquista, pacifista e budista; pintor, ensaísta, colunista, professor, dramaturgo; casamenteiro e mulherengo; conhecedor profundo de jazz e de literatura clássica grega, chinesa e japonesa; tradutor, agitador cultural e, finalmente, padrinho generoso de novos poetas. Mas, enquanto poeta, Rexroth nem sempre tem recebido o reconhecimento que merece. Vejamos, por exemplo, sua relação com os Beats: Rexroth já era um poeta consagrado quando fez o papel de anfitrião na emblemática noite de 7 de outubro de 1955, que é tida como a do nascimento oficial do Movimento, na qual Allen Ginsberg recitou o poema Howl. Mas, na memória coletiva, Ginsberg acabou visto como o grande poeta que chegava, e Rexroth como o mestre de cerimônias que também era poeta. Nada mais injusto, até mesmo pelo tamanho da influência que ele exerceu sobre os Beats.

Tudo colocado na balança, o que Kenneth Rexroth nos legou é, sem dúvida, uma das mais intensas e transcendentes experiências que um poeta poderia proporcionar. Ele foi um dos grandes de seu tempo em língua inglesa, e deve figurar, sem favor algum, na mesma galeria em que estão William Carlos Williams, W. H. Auden e T. S. Eliot.

Rexroth gostava de mulheres (das próprias, claro, mas não apenas), da natureza (especialmente das montanhas), de filosofia e da literatura clássica chinesa e japonesa (das quais foi um incansável tradutor), e os poemas dele dos quais mais gosto refletem esses interesses. Dentro da temática erótica e asiática, destacaria os poemas da persona inventada por ele, a jovem japonesa Marichiko, tão convincente que fez com que mais de um crítico japonês acreditasse que ela existia mesmo e tentasse localizá-la. Quanto à técnica, Rexroth, um filho do modernismo, foi um constante e eclético experimentador que usou métricas e ritmos com extrema liberdade. Por vezes suas imagens soam obscuras, mas, especialmente nas composições da maturidade, a clareza sobressai. Kenneth Rexroth permanece inédito no Brasil, exceto por uma ou outra tradução em blogs e sites de poesia.

Aqui nesta pequena coletânea há um pouco de tudo, incluindo obras da juventude, da maturidade e uma amostra dos poemas de Marichiko. E começamos por seu bem asiático epitáfio (ele usou o segundo poema de The Silver Swan, conjunto de trabalhos escritos em Kyoto entre 1974 e 1978). Rexroth está enterrado no sul da Califórnia, num platô sobre o Pacífico. As outras sepulturas ali estão todas voltadas para a terra; a dele, para o mar, para o oeste, para a China e o Japão.

THE SILVER SWAN, II (EPITÁFIO)
As the full moon rises
The swan sings
In the sleep
On the lake of the mind

O CISNE PRATEADO, II (EPITÁFIO)
Ao nascer da lua cheia
O cisne canta
Dentro do sono
No lago da mente

 

NIGHT BELOW ZERO
3 AM, the night is absolutely still;
Snow squeals beneath my skis, plumes on the turns.
I stop at the canyon’s edge, stand looking out
Over the Great Valley, over the millions —
In bed, drunk, loving, tending mills, furnaces,
Alone, wakeful, as the world rolls in chaos.
The quarter moon rises in the black heavens —
Over the sharp constellations of the cities
The cold lies, crystalline and silent,
Locked between the mountains.

NOITE ABAIXO DE ZERO
3 da manhã, a noite absolutamente parada;
A neve escorre sob meus esquis, espirra em arco quando faço curvas.
Eu paro na extremidade do cânion e fico olhando
Para o Grande Vale, para os milhões —
Na cama, bêbados, amando, indo para as fábricas, para as fornalhas,
Sozinhos, despertos, enquanto o mundo vai girando no caos.
A lua em quarto crescente sobe pelo negro céu —
Por sobre as brilhantes constelações das cidades
O frio repousa, cristalino e quieto,
Trancado entre as montanhas.

 

THE ADVANTAGES OF LEARNING
I am a man with no ambitions
And few friends, wholly incapable
Of making a living, growing no
Younger, fugitive from some just doom.
Lonely, ill-clothed, what does it matter?
At midnight I make myself a jug
Of hot white wine and cardamon seeds.
In a torn grey robe and old beret,
I sit in the cold writing poems,
Drawing nudes on the crooked margins,
Copulating with sixteen year old
Nymphomaniacs of my imagination.

AS VANTAGENS DE APRENDER
Eu sou um homem sem ambições
E poucos amigos, totalmente incapaz
De ganhar para viver, ficando
Mais velho, fugitivo de alguma maldição.
Sozinho, malvestido, o que isso importa?
À meia-noite eu preparo para mim uma caneca
De vinho branco quente com sementes de cardamomo.
Vestido com um robe cinzento rasgado e uma velha boina,
Eu me sento no frio e escrevo poemas,
Desenhando nus nas margens deformadas,
Copulando com imaginárias garotas
Ninfomaníacas de dezesseis anos.

 

JANUARY NIGHT
Late, after walking for hours on the beach,
A storm rises, with wind, rain and lightning

In front of me on my desk
Is typewriter and paper,
And my beautiful jagged
Crystal, larger than a skull,
And beyond, the black window,
Framing the wet and swarming
Pointillism of the city
In the night, the valley
And spread on the distant hills
Under the rain, and beyond,
Thin rivulets of lightning
Trickling down the sky,
And all the intervening
Air wet with the fecundity
Of time and the promises
Of the earth and its routine
Annual and diurnal
Yearly and daily changeless
Motion; and once more my hours
Turn in the through of winter
And climb towards the sun.

NOITE EM JANEIRO
Tarde, depois de caminhar por horas na praia,
Uma tempestade chega, com vento, chuva e relâmpagos

Na minha frente, na escrivaninha
Estão máquina de escrever e papel,
E meu belo e denteado
Cristal, maior que um crânio,
E além, a janela negra,
Emoldurando o úmido e aglomerado
Pontilhado da cidade
Na noite, no vale
E se espalhando pelas montanhas ao longe
Sob a chuva, e além, pequenos riachos relampejantes
Escorrem céu abaixo,
E todo o ar que atravessa
Regado com a fecundidade
Do tempo e de promessas
Da Terra e de sua rotina
Anual e diária
Nos anos e nos dias
Imóvel; e uma vez mais minhas horas
Se movem, através do inverno
Escalando em direção ao sol.

 

ONLY YEARS
I come back to the cottage in
Santa Monica canyon where
Andrée and I were poor and
Happy together. Sometimes we
Were hungry and stole vegetables
From the neighbor’s gardens.
Sometimes we went out and gathered
Cigarette butts by flashlight.
But we went swimming every day,
All year round. We had a dog
Called Proclus, a vast yellow
Mongrel, and a white cat named
Cyprian. We had our first
Joint art show, and they began
To publish my poems in Paris.
We worked under the low umbrella
Of the acacia in the dooryard.
Now I get out of the car
And stand before the house in the dusk.
The acacia blossoms powder the walk
With little pills of gold wool.
The odor is drowsy and thick
In the early evening.
The tree has grown twice as high
As the roof. Inside, an old man
And woman sit in the lamplight.
I go back and drive away
To Malibu Beach and sit
With a grey-haired childhood friend and
Watch the full moon rise over the
Long rollers wrinkling the dark bay.

ALGUNS ANOS
Eu volto ao chalé no
Cânion de Santa Mônica onde
Andrée e eu éramos pobres e
Felizes juntos. Às vezes nós
Tínhamos fome e roubávamos verduras
Dos jardins vizinhos,
Às vezes nós saíamos e procurávamos
Bitucas de cigarro com a lanterna.
Mas nós íamos nadar todos os dias,
O ano inteiro. Nós tínhamos um cão
Chamado Proclus, um grande e amarelo
Mestiço, e um gato branco chamado
Cyprian. Nós fizemos nossa primeira
Mostra de arte juntos, e eles começaram
A publicar meus poemas em Paris.
Nós trabalhávamos sob o baixo guarda-chuva
Formado pela acácia no jardim da frente.
Agora eu saio do carro
E paro defronte a casa no lusco-fusco.
A florada da acácia polvilha o caminho
Com pequenas pílulas de lã dourada.
O aroma é denso e pesado
No início da noite.
A árvore está com o dobro da altura
Do teto. Dentro, um velho
E uma mulher estão sentados sob a luz do lampião.
Eu entro no carro e vou embora
Para a praia de Malibu e me sento
Com um amigo de infância que tem os cabelos grisalhos e
Acompanho a lua cheia nascendo por sobre
As longas e enrugadas ondas da baía escura.

 

OAXACA 1925
You were a beautiful child
With troubled face, green eyelids
And black lace stockings
We met in a filthy bar
You said
“My name is Nada
I don’t want anything from you
I will give you nothing”
I took you home down alleys
Splattered with moonlight and garbage and cats
To your desolate disheveled room
Your feet were dirty
The lacquer was chipped on your fingernails
We spent a week hand in hand
Wandering entranced together
Through a sweltering summer
Of guitars and gunfire and tropical leaves
And black shadows in the moonlight
A lifetime ago

OAXACA 1925
Você era uma garota linda
Com rosto atormentado, de verdes pálpebras
E meias de renda pretas
Nós nos conhecemos num bar imundo
Você disse
“Meu nome é Nada
Eu não quero nada de você
Eu não vou te dar coisa alguma”
Eu te levei para casa nos becos
Respingados com o luar e lixo e gatos
Para o seu desolado e desgrenhado quarto
Seus pés estavam sujos
O esmalte descascando nas suas unhas
Nós passamos uma semana de mãos dadas
Vagando, juntos, em transe
Através de um verão sufocante
De violões e tiros e folhas tropicais
E negras sombras ao luar
Há muitos e muitos anos

 

I DREAM OF LESLIE
You entered my sleep,
Come with your immense,
Luminous eyes,
And light brown hair,
Across fifty years,
To sing for me again that song
Of Campion’s we loved so once.
I kissed your quivering throat.
There was no hint in the dream
That you were long, long since
A new arrived guest,
With blithe Helen, white Iope and the rest —
Only the peace
Of late afternoon
In a compassionate autumn
In youth.
And I forgot
That I was old and you a shade.

SONHO COM LESLIE
Você entrou em meu sono,
Chegou com seus imensos,
Luminosos olhos,
E cabelo castanho-claro,
Atravessando cinquenta anos,
Para cantar novamente para mim aquela canção
De Campion, que nós um dia tanto amamos.
Eu beijei sua garganta, que vibrava.
Não havia pista, no sonho
De que você foi há muito, muito
Uma nova visita,
Com a alegre Helen, a branca Iope e as demais —
Somente a paz
Do cair da tarde
Num misericordioso outono
Na juventude.
E eu me esqueci
Que eu era velho e você uma sombra.

 

YOUR BIRTHDAY IN THE CALIFORNIA MOUNTAINS
A broken moon on the cold water,
And wild geese crying high overhead,
The smoke of the campfire rises
Toward the geometry of heaven —
Points of light in the infinite blackness.
I watch across the narrow inlet
Your dark figure comes and goes before the fire.
A loon cries out on the night bound lake.
Then all the world is silent with the
Silence of autumn waiting for
The coming of winter. I enter
The ring of firelight, bringing to you
A string of trout for our dinner.
As we eat by the whispering lake,
I say, “many years from now we will
Remember this night and talk of it.”
Many years have gone by since then, and
Many years again. I remember
That night as though it was last night,
But you have been dead for thirty years.

O SEU ANIVERSÁRIO NAS MONTANHAS DA CALIFÓRNIA
Uma lua rachada sobre a água fria
E gansos selvagens grasnando no céu
A fumaça de acampamentos se elevando
Rumo à geometria do firmamento —
Pontos de luz na infinita negritude.
Eu observo através da entrada estreita
Sua escura figura que vai e vem perto do fogo.
Um marreco grasna alto no lago amarrado à noite.
E então todo o mundo está silente com o
Silêncio do outono aguardando pela
Chegada do inverno. Eu entro
No anel da luz do fogo, levando pra você
Um espeto de trutas para nosso jantar.
Enquanto nós comemos, junto ao sussurrante lago,
Eu digo, “daqui a muitos anos nós nos
Lembraremos desta noite e conversaremos sobre ela.”
Muitos anos se passaram desde então, e
Muitos anos mais. Eu me lembro
Daquela noite como se fosse ontem,
Mas você está morta há trinta anos.

 

THE LOVE POEMS OF MARICHIKO (seleção)
To Marichiko
Kenneth Rexroth

To Kenneth Rexroth
Marichiko

I
I sit at my desk.
What can I write to you?
Sick with love,
I long to see you in the flesh.
I can write only,
“I love you. I love you. I love you.”
Love cuts through my heart
And tears my vitals.
Spasms of longing suffocate me
And will not stop.

VI
Just us.
In our little house
Far from everybody,
Far from the world,
Only the sound of water over stone.
And then I say to you,
“Listen. Hear the wind in the trees.”

VII
Making love with you
Is like drinking sea water.
The more I drink
The thirstier I become,
Until nothing can slake my thirst
But to drink the entire sea.

XV
Because I dream
Of you every night,
My lonely days
Are only dreams.

XVIII
Fires
Burn in my heart.
No smoke rises.
No one knows.

XXIV
I scream as you bite
My nipples, and orgasm
Drains my body, as if I
Had been cut in two.

LV
The night is too long to the sleepless.
The road is too long for the footsore.
Life is too long to a woman
Made foolish by passion.
Why did I find a crooked guide
On the twisted paths of love?

LVII
Night without end. Loneliness.
The wind has driven a maple leaf
Against the shoji. I wait, as in the old days,
In our secret place, under the full moon.
The last bell crickets sing.
I found your old love letters,
Full of poems you never published.
Did it matter? They were only for me.

LX
Chilled through, I wake up
With the first light. Outside my window
A red maple leaf floats silently down.
What am I to believe?
Indifference?
Malice?
I hate the sight of coming day
Since that morning when
Your insensitive gaze turned me to ice
Like the pale moon in the dawn.

OS POEMAS DE AMOR DE MARICHIKO (seleção)
Para Marichiko
Kenneth Rexroth

Para Kenneth Rexroth
Marichiko

I
Eu me sento à escrivaninha.
O que posso escrever para você?
Doente de amor,
Eu espero para ver você em carne e osso.
Eu posso escrever, apenas,
“Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.”
O amor corta o meu coração
E rasga as minhas entranhas.
Espasmos de saudade me sufocam
E eles não param.

VI
Somente nós,
Em nossa casinha
Longe de todos,
Longe do mundo,
Apenas o som da água sobre a pedra.
E então eu digo a você,
“Escute. Ouça o vento nas árvores.”

VII
Fazer amor com você
É como beber água do mar.
Mais eu bebo
Mais sede eu tenho,
Até que nada possa saciar minha sede
A não ser beber o mar inteiro.

XV
Porque eu sonho
Com você todas as noites,
Meus solitários dias
São apenas sonhos.

XVIII
Fogos
Queimam em meu coração.
Nenhuma fumaça sobe.
Ninguém sabe.

XXIV
Eu grito enquanto você morde
Meus mamilos, e o orgasmo
Drena meu corpo, como se
Ele fosse cortado em dois.

LV
A noite é longa demais para os insones.
A estrada é longa demais para os que têm pés doloridos.
A vida é longa demais para uma mulher
Enlouquecida de paixão.
Por que eu encontrei um guia manco
Nos tortuosos caminhos do amor?

LVII
Noite sem fim. Solidão.
O vento arremessou uma folha de plátano
Contra a porta. Eu espero, como antigamente,
Em nosso esconderijo, sob a lua cheia,
Que o último besouro suzumiushi cante.
Eu encontrei suas velhas cartas de amor,
Repletas de poemas nunca publicados.
Isso importa? Eles eram para mim somente.

LX
Com frio, eu me levanto
Com a primeira luz. Do lado de fora da janela
Uma folha vermelha de plátano cai em silêncio.
No que devo acreditar?
Indiferença?
Maldade?
Eu odeio os sinais do dia que chega
Desde aquela manhã quando
A sua contemplação insensível me congelou
Tal qual a pálida lua no amanhecer.

Print Friendly