Dom Casmurro

agosto 2018 / Dom Casmurro / Kenneth Fearing

Texto publicado na edição #220

Kenneth Fearing

Seis poemas de Kenneth Fearing

> Por André Caramuru Aubert

Kenneth Fearing_220

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert
Kenneth Fearing (1902-1961) foi poeta, romancista e fundador da lendária revista literária de esquerda Partisan Review. Boa parte de sua poesia teve como pano de fundo os efeitos de crise da década de 1930, o que fez com que ele ficasse conhecido como “o poeta da Grande Depressão”, ou “dos trabalhadores”. Mas penso que o mais importante é que sua poesia era extremamente moderna, incorporando como poucas, no ritmo, no vocabulário e no lirismo, os novos signos urbanos e da cultura de massas da primeira metade do século passado.

Minnie and Mrs. Hoyne

She could die laughing,
On Sunday noon, back of the pawn-shop, under the smoke-stack, with Mrs. Hoyne.
She could hide her face in rags and die laughing on the street.
She could snicker in the bedroom closet. In the dark of the movies. In bed.
Die, at the way some people talk.
The things they talk about and believe and do.
She and Mrs. Hoyne could sit together and laugh.
Minnie could nicker in the dark alone.
Jesus, what do they mean?
Girls trying to be in love.
People worried about other people. About the world. Do they own it?
People that don’t believe a street is what it looks like. They think there’s more.
There isn’t any more, the coo-coos.
She could die laughing.
Free milk for babies, Mrs. Hoyne!
Crazy liars, all of them, and what next?
Minnie will be a millionaire.
Mrs. Hoyne will fly a balloon.
Give my regards to the Queen of France when you get there.
Ask her if she remembers me: “Say, Queen,
Have you got any old bloomers you don’t want, for Minnie Spohr?”
She could die, grinning among the buckets at midnight,
Snicker, staring down the elevator shaft,
Minnie doesn’t care. Get the money!
She could die laughing some time
Alone in the broom closet on the forty-third floor.
Minnie e a Sra. Hoyne

Ela poderia morrer gargalhando,
Num domingo ao meio-dia, atrás da loja de penhores, sob a chaminé, com a Sra. Hoyne.
Ela poderia esconder o rosto com um trapo e morrer gargalhando na rua.
Ela poderia rir no armário do quarto. No escuro do cinema. Na cama.
Morrer, do jeito que algumas pessoas falam.
As coisas que elas falam e creem e fazem.
Ela e a Sra. Hoyne podiam se sentar juntas e rir.
Minnie poderia resfolegar sozinha no escuro.
Jesus, o que pretendem?
Garotas tentando se apaixonar.
Pessoas preocupadas com outras pessoas. Com o mundo. São elas as donas?
Pessoas que não acreditam que a rua é o que parece ser. Acham que ali tem mais.
Não tem mais nada, os malucos.
Ela poderia morrer gargalhando.
Leite de graça para os bebês, Sra. Hoyne!
Loucos mentirosos, todos eles, e o que mais?
Minnie vai ficar milionária.
A Sra. Hoyne vai voar num balão.
Dê minhas saudações à Rainha da França quando você chegar lá.
Pergunte a ela se se lembra de mim: “Diga, Rainha,
Você teria algumas ceroulas velhas que não usa mais, para dar a Minnie Spohr”?
Ela poderia morrer, sorrindo entre os baldes, à meia-noite,
Risinho abafado, olhos no poço do elevador,
Minnie não se incomoda. Pegue a grana!
Ela pode morrer qualquer dia, gargalhando
Sozinha no armário da área de serviço no quadragésimo terceiro andar.

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Andy and Jerry and Joe
(To Sylvia)

We were staring at the bottles in the restaurant window,
We could hear the autos go by,
We were looking at the women on the boulevard,
It was cold,
No one else knew about the things we knew.
We watched the crowd, there was a murder in the papers, the wind blew hard, it was dark,
We didn’t know what to do.
There was no place to go and we had nothing to say,
We listened to the bells, and voices, and whistles, and cars,
We moved on,
We weren’t dull, or wise, or afraid,
We didn’t feel tired, or restless, or happy, or sad.
There were a million stars, a million miles, a million people, a million words,
A million laughs, a million years,
We knew a lot of things we could hardly understand,
There were liners at sea, and rows of houses, and clouds in the sky, and songs in the halls,
We waited on the corner,
The lights were in the stores, there were women on the streets, Jerry’s father was dead,
We didn’t know what we wanted and there was nothing to say,
Andy had an auto and Joe had a girl.
Andy e Jerry e Joe
(Para Sylvia)

Tínhamos os olhos fixos nas garrafas na janela do restaurante,
Podíamos ouvir os automóveis passando,
Olhávamos as mulheres na alameda,
Fazia frio,
Ninguém sabia o que nós sabíamos.
Observávamos a multidão, nos jornais tinha um assassinato, o vento soprava forte, estava escuro,
Não sabíamos o que fazer.
Não havia lugar pra onde ir e não tínhamos nada pra falar,
Ouvimos os telefones tocando, e vozes, e assobios, e carros,
Nós fomos embora,
Não éramos estúpidos, ou espertos, ou medrosos,
Não estávamos cansados, ou agitados, ou felizes, ou tristes.
Havia um milhão de estrelas, um milhão de milhas, um milhão de palavras,
Um milhão de gargalhadas, um milhão de anos,
Sabíamos um monte de coisas que mal compreendíamos,
Havia transatlânticos no mar, e fileiras de casas, e nuvens no céu, e canções nos salões,
Nós esperamos na esquina,
As luzes nas lojas, mulheres nas ruas, o pai de Jerry estava morto,
Não sabíamos o que queríamos e não havia nada a dizer,
Andy tinha um carro e Joe tinha uma garota.

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X Minus X

Even when your friend, the radio, is still; even when her dream, the magazine, is finished; even when his life, the ticker, is silent; even when their destiny, the boulevard, is bare,
and after that paradise, the dancehall, is closed; after that the theatre, the clinic, is dark,

Still there will be your desire, and her desire, and his desire, and their desire,
your laughter, their laughter,
your curse and his curse, her reward and their reward, their dismay and his dismay and her dismay and yours —
Even when your enemy, the collector, is dead; even when your counsellor, the salesman, is sleeping; even when your sweetheart, the movie queen, has spoken; even when your friend, the magnate, is gone.
X menos X

Mesmo quando seu amigo, o rádio, estiver quieto; mesmo quando seu sonho, a revista, tiver acabado; mesmo quando a vida dele, o relógio, estiver parado; mesmo quando o destino deles, o bulevar, estiver deserto,
e depois disso o paraíso, a danceteria, estiver fechada; depois disso o auditório, a clínica, estiver um breu,

Ainda restará o seu desejo, o desejo dela, e o desejo dele, e o desejo deles,
sua gargalhada, a gargalhada deles,
sua maldição e a maldição dele, a recompensa dela e a recompensa deles, o desalento deles e o desalento dele e o desalento dela e o seu —
Mesmo quando seu inimigo, o cobrador, estiver morto; mesmo quando seu conselheiro, o vendedor, estiver dormindo; mesmo quando sua paixão, a rainha do cinema, tiver falado; mesmo quando seu amigo, o magnata, tiver sumido.

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Lullaby

Wide as this night, old as this night is old and young as it is young, still as this, strange as this,
filled as this night is filled with the light of a moon as grey;
dark as these trees, heavy as this scented air from the fields, warm as this hand,
as warm, as strong,

Is the night that wraps all the huts of the south and folds the empty barns of the west;
is the wind that fans the roadside fire;
are the trees that line the country estates, tall as the lynch trees, as straight, as black;
is the moon that lights the mining towns, dim as the light upon tenement roofs, grey upon the hands at the bars of Moabit, cold as the bars of the Tombs.
Canção de ninar

Vasta como esta noite, velha como esta noite é velha e jovem como ela é jovem, quieta como ela, estranha como ela,
Completa como esta noite está completa com a luz de uma lua tão cinza quanto;
Escura como estas árvores, pesada como este ar perfumado que vem dos campos, quente como esta mão,
tão quente, tão forte,

É a noite que embrulha todas as cabanas do sul e dobra os celeiros vazios do oeste;
é o vento que abana o fogo da beira da estrada;
são as árvores que alinham as fazendas no campo, tão altas quanto árvores de linchar gente, tão retas, tão negras;
é lua que ilumina as cidades mineradoras, embaçadas como a luz nos telhados dos cortiços, cinza sobre as mãos nos bares de Moabit, fria como os bares das Tumbas.

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Literary

I sing of simple people and the hardier virtues, by Associated Stuffed Shirts & Company, Incorporated, 358 West 42d Street, New York, brochure enclosed
of Christ on the Cross, by a visitor to Calvary, first class
art deals with eternal, not current verities, revised from last week’s Sunday supplement
guess what we mean, in The Literary System, and a thousand noble answers to a thousand empty questions, by a patriot who needs the dough.

And so it goes.
Books are the key to magic portals. Knowledge is power. Give the people light.
Writing must be such a nice profession.
Fill in the coupon. How do you know? Maybe you can be a writer, too.
Literário

Eu canto as pessoas humildes e as mais fortes qualidades, por Associated Stuffed Shirts Companhia Limitada, rua 42d Oeste número 358, folheto incluído
sobre o Cristo na Cruz, por um visitante ao Calvário, primeira classe
a arte trata do que é eterno, não de verdades transitórias, de acordo com o suplemento de domingo da semana passada
adivinhe o que queremos dizer, em O Sistema Literário, e mil nobres respostas para mil perguntas vazias, por um patriota que precisa da grana.

E assim vamos.
Livros são a chave para portais mágicos. Saber é poder. Iluminemos o povo .
Escrever deve ser uma profissão bem bacana.
Preencha o cupom. Como você sabe? Talvez você também possa ser um escritor.

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A la carte

Some take the liquor, some turn to prayer,
Many prefer to dance, other to gamble, and a few resort to gas or the gun.
(Some are lucky, and some are not.)

Name your choice, any selection from one to twenty-five:
Music from Harlem? A Viennese waltz on the slot-machine phonograph at Jack’s Bar & Grill? Or a Brahms Concerto over WXV?
(Many like it wild, others sweet.)

Champagne for supper, murder for breakfast, romance for lunch and terror for tea,

This is not the first time, nor will be the last time the world has gone to hell.
(Some can take it, and some cannot.)
A la carte

Tem os que vão para o álcool, tem os que rezam,
Muitos preferem a dança, outros o jogo, e uns poucos recorrem à gasolina ou ao revólver.
(Uns têm sorte, outros não)

Escolha a que quiser, qualquer uma de um a vinte e cinco:
Música do Harlem? Uma valsa vienense no fonógrafo automático no Jack’s Bar & Grill? Ou um concerto de Brahms na rádio WXV?
(Alguns pegam pesado, outros leve)

Champagne para o jantar, assassinato para o café da manhã, romance para o almoço e terror para o chá,

Esta não é a primeira vez, nem será a última em que o mundo virou um inferno.
(Uns seguram a barra, outros não)

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