Dom Casmurro

setembro 2018 / Dom Casmurro / Kátia Borges

Texto publicado na edição #221

Kátia Borges

Dois poemas de Kátia Borges

> Por Kátia Borges

Wasabi

Escuta: cada mês tem sua crueldade.
Alguns apenas roçam os dentes
em nossa pele, outros laceram a carne.
Este que vem anuncia suavidades,
modos de manter as suculentas vivas:
“em relação à rega, simplesmente não há regras”,
segreda a moça no rádio.
Temos desaprendido tantas coisas
desde março. Ah, se ela escutasse.
Talvez enfiasse as mãos no peito
e arrancasse de lá o coração:
“leva esta muda, estou cansada”.
E então, quem sabe, eu a trouxesse mesmo.

Sobre o cultivo de avencas, dizem os jardineiros:
“é menos complicado que wasabi”.
Alforria

Para mim, bastava um cão eterno
que esperasse no adro
duma igreja da Bahia
minha alma retornar do purgatório.
Mas nada se dá ao ermo, nem a alforria,
e tudo que é eterno já é morto,
até o que se intui de alegria,
o riso breve antes mesmo do esboço.
Tenho me achado cada vez mais semelhante
às fotos antigas de minha mãe,
e é um consolo
ver em mim um pouco do seu rosto.

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