Dom Casmurro

fevereiro 2012 / Dom Casmurro / Karen Éler

Texto publicado na edição #106

Karen Éler

Advertência Debaixo da pele é esse campo minado de pontas e quinas. Estranhas engrenagens aplicam choques grandes e pequenos. Tocaias […]

> Por KAREN ÉLER

Advertência

Debaixo da pele
é esse campo minado
de pontas e quinas.

Estranhas engrenagens
aplicam choques grandes
e pequenos.

Tocaias nas esquinas.
Dinamite em cada vão.

Ninguém se aproxime do meu coração.

 

No fundo do sangue

No fundo do sangue
há passagens tenebrosas,
morcegos, cavernas.
Trabalham nas cisternas
sombras furiosas.

Há sentimentos impuros.
Pressentimentos escuros.

Bruxas estranhas
explodem veias.
Minúsculas aranhas
tecem teias.

 

Fotografia interior

Os pensamentos, que tanto me orgulham,
são apenas curtos-circuitos.
Meus sentimentos mais bonitos
acontecem nas entranhas,
por sínteses medonhas,
químicas estranhas.

Melhor em mim é a doença:
pequena parte que se entrega,
única molécula que não pensa.

 

Dentro da carne

Dentro da carne
o sofrimento,
a entranha,
o estrume.

Na superfície o vestido,
o perfume.

E este fingimento, meu Deus;
este polimento.

 

Dona do meu mundo

Dona do meu mundo,
do meu mundo fictício,
de planetas fictícios
girando, girando.

Faço homens e mulheres,
crio estradas e florestas,
fundo praças e cidades.

E nos dias furiosos
eu despovôo a terra,
eu esvazio os mares,
troco as montanhas dos seus lugares,
expulso o sol e ele sai,
atiro na lua e ela cai.

 

Segredos de Karen Éler

Por Miguel Sanches Neto

Não conheço pessoalmente a poeta Karen Éler, embora sejamos quase vizinhos. Curitibana, ela agora trabalha em Maringá. Poderíamos ter nos encontrado várias vezes nestes últimos três ou quatro anos, período em que nos correspondemos por e-mail. Alguma coisa, no entanto, fez com que nos mantivéssemos assim, cada um em seu casulo. Isso não impediu que trocássemos textos, e algumas fotos.

Ela recebeu os arquivos de meu romance A primeira mulher (Record, 2008), leu e fez comentários extremamente importantes para mim. Por isso, dediquei o livro a ela. Todo escritor precisa de alguns leitores com quem possa falar intimamente sobre seus livros. Não se trata de discussão literária, apenas de uma conversa sobre o que escrevemos.

Da minha parte, tenho me encantado com os poemas de Karen, poemas que trazem uma força humana que raramente encontramos na poesia jovem, mais preocupada com os modismos de linguagem, com os estilos de grife. Karen não faz parte do discurso poético contemporâneo. Ela não pertence à poesia da agoridade. O seu tempo é quando. Nela, a poesia é a manifestação do atemporal. Poesia de um lirismo pungente, que revela uma mulher com sonhos e tormentas à flor da pele.

O que torna tão densa a sua poesia é o ritmo que ela imprime a uma série de palavras de uso comum, com quebras e repetições, com volteios semânticos e melódicos, é a energia que liga cada uma das palavras e desencadeia pequenos curtos-circuitos, é a música por trás destas palavras, é a paixão por trás desta música, é enfim a pessoa por trás de tudo.

É esta maneira profunda de habitar a palavra que caracteriza o seu lirismo. O lirismo é sempre um adoecimento da linguagem. Ele a retira de sua temperatura normal, de sua frieza de coisa, para que ela seja algo vivo, sujeito aos estremecimentos emocionais.

Como diz um dos poemas, a poeta é dona de um mundo próprio, um mundo fictício, de sonhos e de palavras adoecidas, que ela compartilha com os leitores em poemas até agora secretos.

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