Ensaios e Resenhas

setembro 2014 / Ensaios e Resenhas / Kafka menor

Texto publicado na edição #173

Kafka menor

Maior e menor são dois conceitos que aparecem na década de 1970 no texto deleuziano e logo invade as análises, […]

> Por LUIZ HORÁCIO

Maior e menor são dois conceitos que aparecem na década de 1970 no texto deleuziano e logo invade as análises, sejam elas estéticas, linguísticas, políticas, etc. Esses conceitos passaram a acompanhar outras duplas conceituais, estático/dinâmico, dominante/dominado, senhor/escravo. Mas é com os conceitos maior e menor que Deleuze pretende explicar a maneira como as normas sociais, culturais e políticas surgem, se estabelecem ou se transformam.

Literatura menor, conceito utilizado por Deleuze e Guattari, era frequentemente empregado por Kafka, que costumava definir sua obra como literatura “menor”.

Deleuze e Guattari examinam o que vem a ser “menor”. Uma literatura menor não é aquela oriunda de uma língua menor, mas aquela que uma minoria, praticante de uma língua maior, é capaz de produzir.

É justamente no terceiro capítulo, O que é uma literatura menor?, que o conceito começa a ser examinado. É apresentado ao leitor os conceitos de desterritorialização e devir, ferramentas corriqueiras nas mãos de Deleuze e Guattari.

Vários aspectos acompanham a dita “literatura menor”, entre eles o político representado por aqueles que vivem a praticar uma língua que não é sua língua materna, imigrados devido aos mais diversos motivos, servem como exemplo.

Kafka — Por uma literatura menor exige paciência, dedicação e relativo conhecimento de obras de Deleuze e Guattari, e do próprio Kafka. A leitura isolada do livro em questão pode resultar incompleta. Kafka — Por uma literatura menor aborda três níveis teóricos. Anteriormente estudados na obra Mil platôs.

1. Sociolinguístico: aqui se encontra o material linguístico do qual Kafka dispunha na Praga do início do século 20.

2. Estilístico: onde percebemos o resultado do trabalho de Kafka com aquele material.

3. Político: reúne os dois níveis anteriores para avaliar a forma como o processo kafkiano produz novos efeitos semióticos e permite nova perspectiva acerca do campo social.

Mas fiquemos com a situação linguística, por questão de tempo e espaço. Situações de bilinguismo ou de multilinguismo. Deleuze, particularmente, sempre demonstrou interesse por escritores bilíngues: Samuel Beckett, irlandês, escrevia em francês; Franz Kafka, judeu praguense, escreveu em alemão.

A essa altura o leitor é praticamente convencido a ver o bilinguismo como um pré-requisito para uma literatura menor. No entanto, Deleuze argumenta que o bilinguismo “nos coloca no caminho” de um conceito de “literatura menor”, mas, enfatiza: somente no caminho. Esta função do bilinguismo e sua restrição imediata devem ser entendidas como uma função da problematização, devem ser avaliadas em um nível prático e num nível teórico.

Vejamos o nível prático. A peculiaridade da situação de Kafka frente às condições sociolinguísticas de Praga no início do século 20. A coexistência de uma parte que utilizava a língua alemã, idioma oficial, dos negócios, das universidades; a língua vernacular, o tcheco, maioria da população; e o iídiche, usado por parte da população judia.

Deleuze e Guattari apresentam Franz Kafka como um modelo dessa literatura dita menor. No entanto, embora farta documentação rumo a esse objetivo, desprezam certas peculiaridades que à época rondavam Praga e obviamente Kafka, entre elas as características do gueto onde viviam os judeus de Praga, acrescente a precariedade do alemão falado por tal comunidade.

Kafka — Por uma literatura menor é uma referência para quem deseja estudar a obra de Franz Kafka.

Print Friendly

Gilles Deleuze

image

Foi um dos mais influentes filósofos franceses do século 20. Depois de ensinar filosofia na Sorbonne e na Universidade de Lyon, foram os cursos de Vincennes que o tornaram célebre. Pensador da imanência, escreveu livros que marcaram época, como Lógica do sentido e Diferença e repetição; publicou diversos estudos sobre filósofos, como Hume, Espinosa, Nietzsche e Bergson, e sobre artistas, como Proust Francis Bacon. Félix Guattari (1930-1992) foi um filósofo, militante político e psicanalista francês, tendo sido aluno e paciente de Jacques Lacan, antes de romper com ele. Inventor da esquizoanálise, clinicou durante muitos anos na célebre clínica La Borde. Publicou notadamente Revolução molecular: pulsações políticas do desejo e O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise.

Gilles_Deleuze_Felix_Guattari_Kafka_Literatura_menor_173

Gilles Deleuze e Félix Guattari
Trad.: Cíntia Vieira da Silva
Autêntica
157 págs.