A literatura na poltrona

outubro 2012 / A literatura na poltrona / Kafka e Cabral com sono

Texto publicado na edição #150

Kafka e Cabral com sono

Meu amigo, o poeta Fábio Santiago, que está sempre a me desafiar com seus e-mails cheios de afeto e fúria, […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Meu amigo, o poeta Fábio Santiago, que está sempre a me desafiar com seus e-mails cheios de afeto e fúria, me sacode com uma frase atordoante de Franz Kafka. Ela se transformou no título de uma montagem teatral, assinada por Edson Bueno, em cartaz em Curitiba. A frase diz: “Escrever é um sono mais profundo do que a morte”. Fábio a despachou em um e-mail curto e cortante. Fiquei com a frase a me agitar as idéias, e agora tento fazer alguma coisa a respeito.

A frase de Kafka, primeiro, me leva a lembrar de João Cabral e de suas reflexões sobre o sono dos poetas. Recordo que, em certa tarde dos anos 1990, perguntei a Cabral a respeito do significado desse sono, que lhe rendeu, aliás, um texto célebre. Em vez de responder, o poeta fechou os olhos, como se dormisse. Foi com dificuldade que sustentei seu longo silêncio. Por fim, com os olhos novamente abertos, me disse: “Sabe, o sono é uma experiência da qual não devemos falar. Nada do que dizemos, ou escrevemos, o traduz”.

Para os poetas, o sono é uma urna lacrada a ferro, indevassável e, mais ainda, inacessível. Cabral não me disse isso, mas pensei que nele via a origem secreta de seus versos. Tão secreta que só chega a tomar forma quando encoberta pelo manto grosso da razão. Daí, pensei ainda, a importância que atribuía ao trabalho racional — método que o levou a escrever sua poesia de engenheiro. Não é que a razão chegue a traduzir, ou a expressar, os conteúdos do sono. Ao contrário: ela nos ajuda a deles esquecer. Nos ajuda a desistir de acessá-los. A razão, com seu falatório, nos ajuda, na verdade, a silenciar.

Volto à sentença de Franz Kafka, que me levou a recordar de João Cabral. Tão distantes, tão próximos. Em nossos encontros de trabalho, que resultaram em um livro, O homem sem alma, nunca tratamos do autor de A metamorfose. Estranho isso porque, como meus leitores sabem, Franz Kafka é uma de minhas obsessões. Por que, então, não propus a Cabral que dele falasse um pouco? Por que silenciei?

Afirma Kafka que escrever é um sono mais profundo que a morte. Ainda pensando em Cabral, eu me pergunto que poeta dormia dentro dele enquanto escrevia seus versos de pedra. Pergunto-me, também, que poeta dormia dentro de Kafka, levando-o a escrever uma ficção tão metódica e ríspida. Talvez Kafka e Cabral se encontrem aí: na frieza. Nos dois casos, ela parece ser apenas o nome fantasioso de uma explosão. Ninguém escreve Uma faca só lâmina, ninguém escreve O processo sem um coração em chamas. A escrita (é isso o que Kafka nos diz) é o manto com que o abafamos.

Penso em meu próprio e pequeno caso. Sempre que estou diante de situações atordoantes, quase sempre sou tomado por um súbito sono. Posso vê-lo como um esgotamento, mas também como um cobertor. Sempre que tomo minhas tristes anotações, elas me servem igualmente como uma coberta. Um anteparo. Uma defesa. Não é isso a literatura, uma maneira de dizer o impossível? Não é para isso que as palavras servem, para nos iludir a respeito de nossa solidão?

Escrevo esse post em um quarto de hotel, em São Paulo. Estou sozinho. Também estou bem cansado. Essas circunstâncias, por certo, interferem em minha escrita. Dizendo de outra maneira: com minhas palavras — palavras de quem não é poeta — também eu encubro, um pouco, o que vivo. Hoje mesmo escrevi para um amigo distante, que vive na Alemanha. Eu lhe falava a respeito de minha convicção de que, nas piores horas, só as palavras salvam. Não que elas resolvam qualquer coisa. Não resolvem ou, se o fazem, é sempre pela metade. O que fazem então? Para que elas realmente servem? As palavras, Kafka estava certo, nos lançam em um sono profundo que, embora “mais profundo que a morte”, como ele descreve, é o que nos permite viver.

NOTA
O texto Kafka e Cabral com sono foi publicado no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello, colunista do caderno Prosa, no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

Print Friendly