Ensaios e Resenhas

março 2014 / Ensaios e Resenhas / Justapostos pelo vento

Texto publicado na edição #167

Justapostos pelo vento

Em “A resposta e o vento”, Ricardo Thomé tece a confluência de destinos humanos

> Por CLAYTON DE SOUZA

O conto é, certamente, um gênero difícil. É a sua brevidade que, paradoxalmente, acentua essa dificuldade, embora fosse esperado o contrário. Jorge Luis Borges afirmou certa vez preferir essa modalidade breve porque o domínio sobre a expressão artística se faz mais pleno; entretanto, tal perícia é para poucos. No âmbito do romance, onde a visão do conjunto compensa as eventuais “adiposidades” (para alguns leitores de Guerra e paz, por exemplo, os capítulos que versam sobre estratégia militar), o caminho parece menos tortuoso. No conto, o essencial é a palavra de ordem.

Que esse gênero, verdadeiro exercício de técnica, conte com um número reduzido de leitores brasileiros, tão afeitos a trilogias volumosas e romances caudalosos, é um fato lamentável, e intrigante, sobretudo porque situado no contexto atual de uma rotina sobrecarregada que envolve o leitor moderno.

Talvez, pressentindo nesse leitor o apetite pela narrativa copiosa ou, quando não, pelo acaso que interliga vidas distintas no mundo globalizado e interconectado, muitos contistas têm investido em obras cujo fio condutor provém de uma vicissitude que “ata” as diferentes pontas — os contos — formando um tecido de tons variados em sua unidade. É o que ocorre em Uma dor muito grande com umas asas enormes, de Paulo César Lopes, e, numa escala diferente, em A resposta e o vento, de Ricardo Thomé.

O livro é composto de cinco estórias e um epílogo, cabendo a dois elementos estruturais a tarefa de urdi-las.

O primeiro, mais simbólico, diz respeito à frase “nunca é tarde para ser” atribuída à escritora inglesa George Eliot, frase esta registrada num pedaço de cartolina pela idosa solitária do primeiro conto e que, levada por uma rajada de vento, inicia sua jornada mudando sempre de destinatário — os personagens dos demais contos — proporcionando-lhes insights definitivos que alteram os rumos de suas vidas. A ênfase é dada à ação desse vento que sopra “reordenando, à sua maneira, o mundo em seus múltiplos elementos”, na visão algo mística do livro, expressa através de pequenos excertos que antecedem cada conto. “Escutemos o que nos diz esse vento que passa”, repete insistentemente o narrador, como um mantra, recalcitrante ao verso caeiriano: “O vento só fala do vento…”.

Para além dessa dimensão pouco atraente ao leitor agnóstico, tão cético quanto o articulista de jornal que protagoniza o melhor conto do volume, é possível discernir o poder da literatura materializado nas mudanças que a frase opera na vida das personagens, ainda que (ou talvez por isso mesmo) através de um fragmento.

O segundo elemento que interliga as estórias é de natureza mais rara que o antecedente: um assassinato num coletivo do Rio de Janeiro. Nesse ocorrido tão anormal encontram-se presentes os protagonistas das estórias, e suas impressões distintas diante do fato derivam dos papéis sociais que representam na moderna e estratificada sociedade carioca.

A despeito dos contrastes sócio-econômicos observáveis entre os personagens, alguns aspectos em comum aproximam-lhes o contorno: são personagens em desajuste com a sociedade, ora reclusos em seus lares, ora marginalizados pelo meio ou adversos às exigências estabelecidas em troca da reconfortante integração. Imersos nessa cisão já clássica, lidam ainda com as escolhas (ou não-escolhas) que elidiram um rumo mais significativo em suas vidas e, conseqüentemente, as potencialidades do ser, “o que podia ter sido”.

Dignas de nota são ainda as pulsões sexuais presentes em todos os personagens e que, em meio a esse contexto de inadequação, assumem um papel expressivo. Elas dão vazão, em suas manifestações escabrosas, às inclinações mais íntimas desses personagens. Em sua maioria, tais pulsões remetem ao pretérito, quando floresceram os primeiros impulsos homoeróticos (o personagem Nestor), ou quando o vigor da juventude possibilitava o gozo, mesmo que insatisfatório (a idosa Teodora). Como se vê, o tema das potencialidades do ser ecoa também aqui. Que essas pulsões sejam, ao mesmo tempo, reprimidas (Teodora não as confessa a seu padre; Nestor busca se apartar delas) e usufruídas como um lenitivo para a alienação social é um indício de que esses personagens se encontram na tortuosa encruzilhada do ser e não ser.

Surge daí uma visão de mundo desencantada, de existência “fragmentada” em instantes de gozo em meio a dias de pena, como se constata em trechos como o que se segue (e cuja expressão vem a ser o ponto alto do livro):

Das coisas miúdas, pequenas, é que construímos nossas existências. Os grandes acontecimentos, as paixões avassaladoras, os louros e os aplausos são momentos de exceção, pequenos intervalos na mesmice de sempre.

Mas como “nunca é tarde para ser”, a mulher “presa” no corpo masculino buscará a sua liberação; o articulista e sua deprimida esposa reatarão os laços de afeto; a jovem obesa, ex-namorada da vítima do coletivo, reencontrará o caminho para a vida; por fim, o jovem negro, algoz da vítima, vislumbrará a redenção… É a visão otimista do livro, intimamente conectada à sua filosofia:

Feliz daquele que percebe que tudo — sem exceção — se encontra interligado: o vento que passa de forma tão ruidosa com o silêncio pétreo das rochas (…).

No aspecto formal, o livro fundamenta suas escolhas em função dessa filosofia. Como tudo está interligado, os personagens transitam entre os contos sem sequer atinarem para que algo mais, além da tragédia que vivenciaram, os relacione. A questão social é bem presente, sobretudo no penúltimo conto (cuja posição do narrador e a descrição dos marginalizados remete muito à narrativa realista de inícios do século passado, especialmente Capitães da areia); não obstante, os contos buscam focalizar o interior dos personagens, e é de seus anseios e reflexões (mais que do ambiente) que as questões sociais emergem, bem como as taras.

A linguagem do autor, sempre objetiva, também se articula conforme o conteúdo (os personagens e o meio que representam; as descrições das aventuras sexuais), transitando entre o culto e o chulo (e o indecoroso).

Sendo o conto um gênero difícil, cabe perguntar se A resposta e o vento é um livro bem-sucedido.

Além dos já mencionados excertos que introduzem os contos, o autor incluiu trechos de autores consagrados que se por um lado se articulam bem com as estórias, por outro tornam excessiva a interferência nelas (justamente por estender a introdução). Talvez a obra prescindisse do epílogo: os rumos narrativos são conclusivos em si mesmos. Devido a isso, ela escapa ao perigo que subjaz na estrutura de contos que se relacionam, e que consiste em torná-los carentes de autonomia, ou fragmentários.

Por fim, A resposta e o vento não é um livro que mudará os rumos da literatura brasileira. É um livro despretensioso, cuja principal qualidade reside nessa despretensão e na descrição precisa das angústias que a solidão e a alienação propiciam ao homem.

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Ricardo Thomé

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ). É autor do romance Cão danado solto na noite (1999) e do livro de poesia Arranjo para cinco vozes (2003), premiado pela Fundação Biblioteca Nacional. Organizou, selecionou e prefaciou os Melhores poemas, de Ivan Junqueira, para a editora Global, e o Xepa de feira, de Sílvia Thomé, para a editora Uapê, ambos em 2003.

Preferia isto, ou, pelo menos, preferia acreditar nisto: na possibilidade de resgatar alguma coisa que ficara perdida no tempo, na possibilidade de a vida nos proporcionar uma segunda chance. Sim, por que não?

Ricardo_Thome_resposta_vento_167

Ricardo Thomé
Oficina Raquel
138 págs.