Palavra por palavra

abril 2020 / Palavra por palavra / Jubiabá neles

Texto publicado na edição #240

Jubiabá neles

Jorge Amado fez de sua obra um libelo contra a injustiça social, destacadamente contra o racismo

> Por RAIMUNDO CARRERO

O negro baiano é, por extensão, o negro brasileiro. Que neste momento enfrenta o branco da injustiça. Do racismo, principalmente do racismo, marca de um tempo tão cruelmente obscuro… a lembrar, sobretudo, um nazismo que vem se articulando na Europa e nas Américas de forma arrasadora e eloquente. Tudo começou com manifestações racistas nos campos de futebol, onde até há bem pouco tempo reinava a convivência racial, o que naturalmente é de se esperar sempre.

Jorge Amado, aliás, fez de sua obra um libelo contra a injustiça social, destacadamente contra o racismo, e agora nos ajuda a combater este mal pela raiz. Por isso a leitura é urgente, imediata, para nos levar e nos conduzir não só para a reflexão, mas também para a ação, mesmo aquela ação que nos pareça sutil e ingênua. É preciso lutar. Os gestos sutis e aparentemente ingênuos devem ser observados para que possamos combater, ainda que também ingenuamente.

Mesmo que os estudiosos tenham negado a vida inteira até mesmo com a concordância do próprio Jorge Amado, que ridicularizava as investidas acadêmicas, louvem-se as qualidades técnicas do notável escritor baiano que, em certo sentido, não era, em absoluto, um panfletário, como se costuma dizer, mas um escritor de amplos conhecimentos às inúmeras qualidades do romance, a enriquecer, profundamente, a prosa brasileira.

Destaque-se que o romance começa com uma grande metáfora, ou seja, a luta ente Antônio Balduíno e o alemão Ergin. Da forma que vemos aí, metaforicamente, a força do negro baiano contra o branco nazista, registrando-se que é na Alemanha que nasce o nazismo com tudo o que tinha — e tem — de doloroso e cruel.

Vemos agora, as primeiras palavras do romance:

A Multidão se levantou como se fora uma só pessoa. E conservou um silêncio religioso. O juiz contou:

— Seis…

Porém antes que contasse sete, o homem loiro se ergueu sobre um braço, com esforço, e juntando todas as forças, se pôs de pé. Então a multidão se sentou novamente e começou a gritar. O negro investiu com fúria e os lutadores se atracaram em meio ao tablado. Os homens se apertaram nos bancos, suados, os olhos puxados para o tablado, onde o negro Antônio Balduíno lutava com o Ergin, o alemão.

Observando-se bem, é possível perceber que o autor, de propósito, e reiteradamente, repete as palavras “negro” e “loiro”, de forma a estabelecer o confronto. Está formada a luta contra o nazismo, sem dúvida, uma metáfora fechada e firme. Jorge Amado conhecia, perfeitamente, a ideologia de sua obra, e foi fiel a ela em todas as instâncias, passando, inclusive, pela escolha dos personagens das biografias que escreveu: Castro Alves e Luís Carlos Prestes, sem esquecer, é claro, as greves do porto de Santos, que culminaram na escrita de três grandes romances da trilogia Os subterrâneos da liberdade.

O que quero destacar, sobretudo, é que a obra de Jorge Amado é decisiva neste momento. De preferência Jubiabá, para que se questione e reflita a questão do racismo, pela sua gravidade e importância, considerando-se, sobretudo, a sua penetração em todas as camadas sociais do país, desde a escola primária até a universidade, passando pelos aspirantes a escritor e a intelectual, em qualquer nível ou circunstância.

Na verdade, toda a obra de Jorge Amado é importante neste momento, sobretudo para compreensão e enfrentamento dos fatos recentes.

Indico, ainda, a magnífica biografia que Josélia Aguiar escreveu sobre o escritor, já citada no começo deste texto, analisando não só a sua vida, mas, sobretudo, a repercussão de suas tarefas na obra exemplar.

Além da metáfora, Jorge Amado lança mão de outra técnica manifestada no duplo, técnica tão a gosto de Dostoiévski e, mais tarde, de Cortázar, que faz, aliás, experiências em várias obras.

A respeito do duplo neste livro, escreve Antônio Dimas no posfácio (utilizamos para esta reflexão a edição de 2016, da Companhia das Letras): “Não se enganem: Jubiabá não é o centro de Jubiabá. O centro de Jubiabá é Antônio Balduíno, negão sarado que já entra no romance dando porrada e destruindo um alemão com nome de deus germânico: Ergin”.

Do ponto de vista técnico, Antônio Balduíno é o personagem central. Do ponto de vista cultural, Jubiabá é a entidade espiritual que conduz Antônio Balduíno. Por isso mesmo, mereceu o privilégio do título que exige leitura imediata e reflexiva.

Quanto à metáfora, assegura o mesmo Antônio Dimas:

A luta inicial, primeira cena do romance, é simples metáfora de sua condição permanente, cheia de tombos constantes e de pequenas vitórias temporárias. Aquele combate individual, o corpo a corpo contra um estrangeiro grandalhão e branquelo, é apenas o primeiro de uma trajetória a uma sistemática luta contra outros brancos.

Ainda a respeito do duplo — Balduíno-Jubiabá —, Dimas acrescenta:

O ar de mistério que envolve Jubiabá — resultado do convívio social e do conhecimento informal, onde o mágico e o prático se misturam sem repulsa recíproca — cresce quando a sua origem entra em cena. Jubiabá, resmunga em nagô, língua que foi sumindo daquela comunidade, seja porque fosse fala de negro escravo, seja porque fosse fala do panteão culto. Arquitetado pelo branco.

Josélia Aguiar, na biografia consagrada, dedica um capítulo inteiro a Jubiabá, que o próprio Jorge Amado chamava de um “romance honesto sobre o negro brasileiro”.

O capítulo, aliás, mostra o cuidado e o zelo que o autor tinha com sua obra, desde o planejamento, apesar de ser rudemente perseguido pela política da ditadura. Fugindo, sempre escrevia em embarcações pelo Rio São Francisco, em pensões pequenas e baratas do interior da Bahia e Sergipe. Jubiabá, por exemplo, foi escrito na Pensão Laurentina, em Conceição da Feira, na Bahia, mas concluído no Rio de Janeiro. Escreve Josélia:

Um Jorge disposto a escrever um “romance honesto sobre a raça negra no Brasil” retornou à Bahia à procura de Martiniano Eliseu do Bonfim, visto na época como um dos grandes, se não o maior, sábio das línguas e cultura iorubá instalado na cidade. Um filho de escravizados nigerianos que batalharam pela alforria, passara temporada de formação em Lagos, na Nigéria, e contava quase 80 nos quando abiu a porta para o jovem escritor.

Print Friendly