A literatura na poltrona

agosto 2013 / A literatura na poltrona / Joubert e sua coleira

Texto publicado na edição #160

Joubert e sua coleira

Volto sempre, como um vício benigno, aos Pensamentos de Joseph Joubert, que leio em uma edição de bolso da Edhasa, […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Volto sempre, como um vício benigno, aos Pensamentos de Joseph Joubert, que leio em uma edição de bolso da Edhasa, de Barcelona, lançada em 1995. Desde que a descobri, por acaso, em uma livraria de Buenos Aires, não a abandono mais. Trago muitos livros grudados em mim, livros de que não consigo me afastar, que preciso ter por perto. Livros que incorporei e que me ajudam em um diálogo interno e contínuo, origem de todo pensamento, mesmo o mais banal.

O francês Joseph Joubert (1754-1824) — que foi durante muitos anos secretário de Chateaubriand, importante figura do romantismo francês — tornou-se um autor inspirado de pensamentos, ensaios e máximas, além de importante correspondência. Foi um homem de escrita concisa e certeira. De poucas mas vigorosas palavras. Um grande autor de frases, que nos ficaram como destinos.

Religioso, dizia que “a imaginação é a visão da alma”. Se descartamos o aspecto cristão da palavra “alma” e a tratarmos mais como sinônimo de “mundo interior”, chegamos a uma bela definição da arte. Os olhos “de dentro” também vêem, talvez mais que nossos precários olhos externos. Não me interesso pelas reflexões metafísicas de Joubert, mas pelo modo contundente como ele observa a arte e a literatura em particular.

Entre seus aforismos, encontro um que parece destinado aos escritores de nosso tempo. Diz Joubert: “Uma obra de arte não tem que parecer uma realidade, mas uma idéia”. Os escritores de hoje estão cada vez mais empenhados em competir com o mundo real. Tentam capturá-lo, como se fosse um animal selvagem. Lutam para dar conta dele, como se a realidade fosse domesticável. Agem como fotógrafos, que “olham diretamente”, que encaram e não perdem o foco. Ou como jornalistas, que só se interessam por fatos e mais fatos. Talvez como cientistas e ainda como detetives, que estão sempre à procura de provas. Quase nunca como escritores.

Toda ficção é o resultado de uma idéia. De muitas idéias. Não de pensamentos organizados e dogmáticos, mas de impulsos, palavras que se impõem sem que sejamos capazes de dizer de onde provêm, figuras que nos aparecem sem que conheçamos sua origem. Esse lado instintivo da escrita é descartado, cada vez mais, pelos autores contemporâneos. Seu desejo é competir com o cinema, a TV e a internet. Querem chegar à verdade e dominá-la. Esquecem que a ficção, em vez de uma fotografia direta, é uma contorção e um desvio. É uma dança em torno de um objeto, na qual o dançarino jamais chega a tocar. Ele apenas o ronda.

Diz Joubert em outro aforismo: “Para escrever bem se requer uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida. Ou, dito de outro modo, escrever facilmente por natureza e dificilmente por arte”. A parte natural é a dos impulsos, sonhos, devaneios. Fantasias que se impõem, mesmo que as expulsemos, como convidadas indesejáveis. Figuras que se apresentam diante de nós, mesmo que as dispensemos. Histórias que tomam corpo, e não nos abandonam, ainda que pareçam desprezíveis ou banais.

Não é fácil “ser natural”; de fato, é preciso trazer a espontaneidade na alma. É preciso receber um chamado, uma vocação — e, o mais difícil, aceitá-la. Nada há de divino, ou de metafísico, nesse chamado, embora seja inexplicável. Ele é absolutamente humano. Diante dele, é preciso estabelecer certas normas, isto é, certas dificuldades, ou nos afogamos nos impulsos. “A norma nos livra das fantasias, dos tormentos da incerteza”, diz Joubert. Será que nos livra? Não creio que seja assim. A norma — as regras que cada escritor inventa para si mesmo, como um cão que escolhe a própria coleira — vêm “dar corpo” às fantasias que, de outro modo, sem um corpo, se dispersariam. Elas se derramariam sobre o real.

É o que Joubert chama de “dificuldade adquirida”. Feitas as primeiras anotações caóticas, depois de aceitar as idéias disparatadas e enigmáticas que se impõem, o escritor entra em uma segunda fase, menos gloriosa mas igualmente importante: a fase da coleira. É onde comparece a consciência que, como uma arrumadeira, vem recolher e ordenar toda a desarrumação espalhada em um quarto. “Adquirida”, diz Joubert. Penso em “inventada”. Para seguir em frente (para escrever), um escritor precisa escolher uma maneira de observar, precisa optar por uma perspectiva. A “dificuldade adquirida” de que ele nos fala é, portanto, a escolha de um lugar e também de um ponto de vista, ou de observação. Um escritor não pode tudo, ninguém pode tudo. Só se faz escritor quem ousa escolher. E sustenta o que escolhe.

Às facadas — com aquela “faca só lâmina” de que nos fala João Cabral —, o escritor passa a talhar, recortar, distribuir o material que naturalmente, às cegas, lhe surgiu. Que lhe veio por impulso, por sonho, por mania, por desespero — seja como for. Cada escritor vivencia essa primeira experiência de um modo. Toda experiência é intransferível. O que talvez seja não sei se transferível, mas comunicável, é o segundo momento: o do corte. E é nessa hora que o escritor deve reconhecer o próprio talento, assim como também a própria estupidez. Diz Joubert: “Aqueles cuja alma permanece alheia a seu talento são homens vulgares”. É o momento em que o escritor toma posse de si. O momento em que, ainda que precária, vacilante, nasce uma assinatura. Nessa hora, o livro (genial ou comum) está pronto para receber seu leitor.

NOTA
O texto Joubert e sua coleira foi publicado no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello no site de O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

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